José Patrício/Estadão - 28/09/2010
José Patrício/Estadão - 28/09/2010

Coletânea de traduções de Augusto de Campos ganha nova edição

'O Anticrítico' passeia por autores de todas as épocas e os faz parecer contemporâneos

Jerônymo Teixeira, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2020 | 16h00

Mais ambiciosa e variada das coletâneas de traduções (ou transcriações, como prefere o autor) do poeta paulista Augusto de Campos, O Anticrítico (Companhia das Letras; 240 páginas; 59,90 reais) afinal ganha sua esperada segunda edição. Abrangendo oito séculos de criação literária – de excertos da Divina Comédia de Dante, no século 14, a um trecho da Conferência sobre Nada escrita pelo compositor americano John Cage em 1949 –, o livro foi lançado em 1986 e já nos anos 1990 era disputado em sebos. Sem acréscimo de material, a reedição não traz sequer o novo prefácio que costuma aparecer protocolarmente em livros republicados depois de décadas. A atualização parece resumir-se ao apêndice com a lista de obras do poeta, ensaísta e tradutor, na qual se incluíram até as “extraduções” de poesia russa e latina lançadas no ano passado. Detalhe significativo: John Cage faleceu em 1992, seis anos depois de O Anticrítico, e não se faz menção a sua morte na reedição. A manutenção da obra em sua forma original talvez seja uma forma de reafirmar a famosa máxima de Ezra Pound, poeta americano que é um dos gênios tutelares de Augusto de Campos: Literatura é novidade que permanece novidade” (“news that stays news”).

Mais de 30 anos depois da edição original, O Anticrítico guarda o frescor da novidade, não apenas pela excelência das traduções, mas também pela forma como elas são apresentadas. As introduções a cada seção do livro são escritas no que Augusto de Campos chama de “prosa porosa", expressão do inventor americano Buckminster Fuller. Sintéticos e dinâmicos, econômicos na pontuação, os textos estão dispostos de forma que as linhas, como versos, não cheguem à margem direita da página, e essas quebras da sequência natural da prosa casam bem com um pensamento que muitas vezes se desenvolve por justaposição de autores e citações – ao falar, por exemplo, do reverendo John Donne, poeta contemporâneo de Shakespeare, Augusto de Campos passeia também pelas obras dos portugueses Sá de Miranda, Mário de Sá Carneiro e Antônio Vieira. Embora o livro siga a ordem cronológica dos autores apresentados, tem-se a sensação de que são todos contemporâneos – Gregório de Matos, Lewis Carroll e Gertrude Stein estão junto ao leitor, cada um deles apresentando sua contribuição criativa ao patrimônio da invenção verbal.

Augusto de Campos explica os processos com que os diferentes poetas urdem a tessitura de sons, imagens e ideias que faz um grande poema, e também os procedimentos com que ele busca reproduzir efeitos similares em português. O poeta-tradutor é especialmente meticuloso no exame das aliterações e anagramas dos trechos que verteu do Rubaiyat de Omar Khayyam, poemas do inglês Edward Fitzgerald livremente traduzidos do clássico persa. No texto sobre Dante, avulta uma constatação básica que faz toda a diferença: os versos da Comédia costumam seguir a ordem direta da frase, enquanto as traduções em português em geral recorrem a canhestras inversões sintáticas. A fluência e a beleza das versões de Augusto de Campos para um trecho do Canto I e da íntegra do Canto V do Inferno levam o leitor a lamentar que ele não tenha se dedicado a traduzir o poema inteiro. Augusto tende a recortar, de cada autor, os momentos que considera de maior realização poética – como ele define, uma tradução intensiva, não extensiva (mas seu irmão Haroldo de Campos, que comungava desse projeto, traduziu toda a Ilíada). 

A tradição da vanguarda, especialmente cara a Augusto de Campos, está bem representadas nas traduções de Gertrude Stein, na breve seção sobre o modernismo latino-americano (com poemas do chileno Vicente Huidobro e do argentino Oliverio Girondo), no abrangente ensaio (sempre em “prosa porosa”) sobre o legado de Marcel Duchamp, e no capítulo final sobre John Cage. Mas talvez seja nas traduções de John Donne que se veja o tradutor no melhor domínio de seu ofício. Não deve ter sido moleza verter para uma língua latina os intrincados jogos sonoros e conceituais de poemas como O Êxtase ou A Relíquia.

Criador, ao lado do irmão Haroldo (1929-2003) e de Décio Pignatari (1927-2012), da Poesia Concreta, Augusto de Campos, aos 89 anos, é um calejado guerrilheiro cultural, sobrevivente de polêmicas renhidas (e de um tempo em que a poesia ainda motivava polêmicas renhidas). Segue ativo e provocativo: vem publicando, no Facebook, os Bolsogramas, poemas de intervenção política mais imediata (não tão memoráveis, é verdade, quanto GREVE, VIVA VAIA ou pós-tudo, entre outras criações anteriores). Augusto admira o “difícil anonimato”de Emily Dickinson, mas seu nome tem ganhado, sim, o devido reconhecimento. Nos limites em que um poeta pode ser reconhecido: talvez haja algo de intrinsicamente antissocial no lavor de quem busca “o imprevisível choque” – para usar os termos com que Augusto de Campos fala sobre Duchamp – “entre o visível e o invisível”. O Anticrítico será assim, desde sua primeira edição em um ano livre de peste, o livro certo para o isolamento social.

*JERÔNIMO TEIXEIRA É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘OS DIAS DA CRISE’ (COMPANHIA DAS LETRAS)

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