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Coletânea reúne 300 poemas do dramaturgo alemão Bertolt Brecht

Autor teria criado 2.300 poemas ao todo, além de dezenas de ensaios dedicados à poesia

Gutemberg Medeiros*, Especial para o Estado

18 de janeiro de 2020 | 16h00

Hilda Hilst teve profunda relação especular com Bertolt Brecht. Em 1966, ante o avanço da barbárie derivada do golpe, a poeta quis resistir e pensar sobre essa realidade. Percebeu que a poesia era uma escritura mais lenta do que o necessário e optou pela dramaturgia. O resultado foram oito peças criadas entre 1967 e 1968, sendo premiada com Prêmio Anchieta de revelação em 1969 por O Verdugo

Para apreender a carpintaria teatral, dois autores foram essenciais: Chekhov e Brecht. Do alemão, percebeu a centralidade da poesia no tablado. “Ele foi um poeta-dramaturgo, como eu”. Certamente Hilda gostaria muito de ler a coletânea Bertolt Brecht: Poesia (Perspectiva) com tradução, estudo introdutório e projeto gráfico de André Vallias. O poeta tem boa trajetória de tradução, como na igualmente vasta coletânea de poemas de Heinrich Heine intitulada Heine, Hein? (Perspectiva, 2011), além de Hölderlin, Verlaine e outros. 

A publicação é a mais ampla coletânea brasileira de Brecht, sendo a primeira bilíngue. Dialogando com os versos, Vallias selecionou trechos da mais de 800 páginas de diários e traduziu 20 ensaios de Brecht dedicados à poesia. Ou seja, o leitor tem acesso a um conjunto que revela o Brecht poeta e como o gênero foi importante em sua trajetória. 

Estima-se que Brecht tenha criado 2.300 poemas, dos quais Vallias selecionou 300 em ordem cronológica em seis blocos correspondentes às etapas geográficas de um percurso percorrido pelo poeta em vários países. Começando pela Alemanha em Augsburgo e Munique (1912-1924) e Berlim (1924-1933), o exílio na dinamarquesa Svendborg (1933-1939), a sueca Lidingö e finlandesa Helsinque (1939-1941), a norte-americana Santa Monica (1941-1947) até o retorno a Berlim com passagem por Zurique (1947-1956). O volume prossegue com os 20 ensaios sobre o gênero poético, quase todos inéditos em português. Os poemas foram extraídos de peças e de coletâneas organizadas pelo autor.

Vallias expressa a sua filiação aos poetas concretistas, plasmando forma e conteúdo por seu apurado projeto gráfico – resultado de sua atuação como designer. Na capa usa a fonte Futura criada pelo alemão Paul Renner (1878-1956) no mesmo ano da estreia da Ópera dos Três Vinténs (1929), a preferida dos poetas concretos em sua fase “ortodoxa”. Augusto de Campos, em seu texto de apresentação, Bertolt Brecht em Montagem Poética, aponta a excelência da tradução.

O estudo introdutório não é apenas rico ao descrever vida e obra de Brecht, mas demonstra raro talento ensaístico. Outro: como a versão final ficou extensa em 696 páginas, a editora reduziu para ser viável em livro. As restantes 110 estão disponíveis em PDF em http://andrevallias.com/brecht . Ele articula uma arena de vozes que depõem sobre Brecht entre colaboradores, amigos ou críticos, cuja multiplicidade de olhares dá conta do multifacetado criador. Entre eles, o russo Sergei Tretiakov (que Brecht considerava seu mestre no teatro), Ernst Bloch, Piscator e Walter Benjamin.

Referências ao Brasil feitas por Brecht são apontadas por Vallias. Como no conto publicado na revista mensal Der Neuer Merkur (O Novo Mercúrio), a inesperada menção ao país que lhe forneceu charutos por toda sua vida. Também narra passagem dos diários do diretor brasileiro Alberto Cavalcanti sobre o encontro com o dramaturgo em Berlim para decidir detalhes sobre o roteiro da peça Sr. Puntila e Seu Criado Matti, filmada na Áustria e considerada uma das melhores adaptações do dramaturgo ao cinema. 

Entre os vários poemas inéditos no Brasil, está WB, escrito em 1941 a lápis em bilhete e só revelado em 2017, na exposição berlinense Benjamin und Brecht. Denken in Extremen (Pensar em Extremos). Outro exemplo de inédito é Ardens sed virens (expressão latina que significa “queimando, mas florescendo”) escrito em agosto de 1939 dedicado à atriz e colaboradora Ruth Berlau e musicado por Hanns Eisler em 1954.

Para compreender a pertinência da retomada desta amplidão de Brecht poeta, talvez seja necessário um retrospecto em relação ao seu lugar ante o marxismo. Como Vallias informa, ele demorou a se sentir atraído por essa corrente política, cujas primeiras leituras foram apenas em 1926. “Quando li O Capital de Marx, entendi as minhas peças. Entender-se-á que desejo uma ampla divulgação desse livro. Não descobri, é claro, que tinha escrito um monte de peças marxistas sem ter qualquer noção. Mas esse Marx era o único espectador das minhas peças que eu já tinha visto”, como Brecht declarou.

Nunca foi filiado ao Partido Comunista Alemão. Provavelmente assim, conseguiu manter posição privilegiada de viver em estado de constante dialética, de manter livre pensamento. Em sua caminhada pelo exílio após a ascensão do nazismo, nunca pensou em viver na ex-URSS. Em 1941, de passagem por Moscou, muitos de seus amigos e colaboradores desapareceram nos expurgos stalinistas, a exemplo de Tretiakov.

A sua independência foi importante ao voltar a Berlim sob o regime socialista, em maio de 1949, e assumir seu teatro. Ali viveu o dramático levante popular contra o governo em 16 de junho de 1953 com invasões e saques de prédios estatais ante a ditadura que aumentava perseguições políticas Outro resultado foi o poema marcante que Brecht fez logo após a repressão violenta e intitulado A Solução. “Após o levante do 17 de junho/O Secretário da União dos Escritores/Mandou distribuir panfletos na alameda Stalin/Nos quais se lia que o povo/Abusara da confiança do governo/E que só com trabalho dobrado esta/Poderia ser reconquistada. Ora/Não seria mais simples o governo/Dissolver o povo/E eleger um novo?”

Pois este espírito crítico de Brecht impulsionou Vallias a realizar este amplo projeto editorial. Cuja atualidade é evidente, “especialmente ao processo de degradação política e social que propiciou a ascensão ao poder de um Arturo Ui miliciano e nos fez rememorar, de certa maneira, os dramáticos eventos da República de Weimar.”. Ele se refere ao protagonista da peça A Resistível Ascensão de Arturo Ui, mafioso fictício de Chicago dos anos 1930, uma alegoria a Hitler.

BERTOLT BRECHT: POESIA

AUTOR: ANDRÉ VALLIAS

TRADUÇÃO DE BRECHT: ANDRÉ VALLIAS

EDITORA: PERSPECTIVA

584 PÁGS., R$ 89,90

*GUTEMBERG MEDEIROS É JORNALISTA E PÓS-GRADUANDO NA ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES DA USP. 

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