Editora José Olympio
Editora José Olympio

Coletânea reúne contos escritos por Graciliano Ramos na prisão

'Insônia' será debatido na Livraria da Vila no dia 16 de abril

Ieda Lebensztayn*, Especial para O Estado de S. Paulo

31 Março 2018 | 16h00

“Que desgraça estará sucedendo? Deixo cair os braços, os uivos lastimosos da criança recomeçam, as minhas dores crescem, dão-me a certeza de que os médicos atormentam um pequenino infeliz. Penso nos vagabundos miúdos que circulam nas ruas, pedindo e furtando, sujos, esfrangalhados, os ossos furando a pele, meio comidos pela verminose.”A angústia aflige quem sabe que há uma desgraça em curso. Não bastasse estar num leito de hospital, ecoam uivos de um pequeno enfermo a evocar as dores de todas as crianças abandonadas na rua. A capacidade de mergulhar na própria dor, de encontrar a do outro, de enxergar a de muitos semelhantes, impossibilitados de expressão, e de criar uma forma para transmiti-las resulta em insônia e em arte. Insônia é o título do volume de contos publicado pela José Olympio no qual Graciliano Ramos nos oferece O Relógio do Hospital, fonte do excerto que abre este ensaio. 

+++A influência da primeira leitura da infância de Graciliano Ramos

+++Peça mescla contos homônimos de Machado de Assis e Guimarães Rosa

O conto traz dias de tormento como os vividos pelo autor em 1932, quando passou por uma operação de psoíte, depois de haver escrito, febril, o essencial capítulo 19 de S. Bernardo. E interessa saber que a sensação de nevoeiro existencial e social do conto, feita de agonia e consciência, entre delírio e agudez, se impôs e tomou forma literária na Sala da Capela da Casa de Correção em julho de 1936, conforme Graciliano conta em Memórias do Cárcere. Na prisão, reviveu o desespero do hospital, em que à dor física da ferida se somavam as preocupações com o pagamento da cirurgia e do tratamento, com o desemprego, com os filhos a sustentar. Se o cárcere o mortifica com o sentimento de inação e impotência, repõe-lhe impressões do hospital, como a do relógio sufocante e a do corpo dividido, com uma parte boa, a ser salva, e a outra a ser arrancada, rumo ao necrotério. Dessas recordações, que já haviam marcado o delírio final de Angústia (publicado 1936, com Graciliano preso), nasceram O Relógio do Hospital e Paulo.

Mas quem diria que o convalescente daquela cirurgia seria nomeado, em janeiro de 1933, diretor da Instrução Pública de Alagoas e conseguiria colocar na escola, ao lado de 200 alunos de famílias mais arranjadas, 600 crianças pobres, além de vesti-las e calçá-las? E que tal atitude e outras semelhantes o levariam à prisão do Estado Novo, num tempo de insônia no qual recordaria os uivos das crianças abandonadas e lhes daria voz? 

Graças ao tradutor argentino Benjamin de Garay, O Relógio do Hospital foi publicado inicialmente em La Prensa, de Buenos Aires, em outubro de 1937, com ilustração de Miguel Petrone. Representando o rosto de um homem, os olhos fechados e entrevado em meio a um lençol branco e ao mecanismo circular de um relógio, a ilustração agradou a Graciliano. No conto, a subjetividade do narrador, presa à dimensão insone do tempo, pulsante de dor no hospital, funde, na imagem do mecanismo velho e emperrado do relógio, o “maquinismo arruinado” de seu corpo e do mundo doente. 

Recurso criativo de Insônia, sobressai a representação de momentos cruciais do presente os quais levam o narrador a evocar cenas da infância marcadas por um impasse entre insuficiência e brecha de lirismo. Numa associação insólita, as “pancadas fanhosas” do relógio lembram as broncas “encatarroadas” recebidas do avô nas aulas de cartilha: “Meu avô me repreendia numa fala assim lenta e aborrecida quando me ensinava na cartilha a soletração. Voz autoritária e nasal, costumada a arengar aos pretos da fazenda, em ordens ásperas que um pigarro interrompia.” Eis que novamente aqui a arte de Graciliano configura, na mesma imagem do relógio do hospital, uma dimensão subjetiva e uma social: o tempo arrastado do doente, o do menino estigmatizado e o dos explorados, os descendentes de escravos. O atraso ou a paralisia do relógio falam da história de violência do país de origem escravocrata e da trajetória pessoal de opressão do menino, sufocado pelo medo. Ao mesmo tempo, o leitor do Aliás, recordando-se do capítulo Os Astrônomos, de Infância, conhece o potencial libertador da aprendizagem da leitura.

Coletânea anterior, Dois Dedos reuniu em 1945, com ilustrações de Axl de Leskoschek: O Relógio do Hospital, Paulo, A Prisão de J. Carmo Gomes, Silveira Pereira, Um Pobre-diabo, Ciúmes, Minsk, Insônia, Um Ladrão. Com o acréscimo de Luciana, A Testemunha e Uma Visita, Insônia pede leitura. 

CLUBE DO LIVRO VELHO GRAÇA DEBATE ‘INSÔNIA’

Livraria da Vila. R. Fradique Coutinho, 915.

2ª feira, 16/4, 19h. Grátis. Com Ricardo Ramos Filho.

*Ieda Lebensztayn é crítica literária, com pós-doutorado na USP. Autora de 'Graciliano Ramos e a Novidade: O Astrônomo do Inferno e os Meninos Impossíveis' 

Mais conteúdo sobre:
Graciliano Ramosliteratura

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.