Ed Viggiani/Estadão
Ed Viggiani/Estadão

Coletâneas de ensaios revelam pensamento do Nobel de Literatura sul-africano J.M. Coetzee

Dois livros reúnem textos do escritor sobre nomes como Beckett, Goethe, Günter Grass e Sándor Márai

Jerônimo Teixeira, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2021 | 16h00

Nos anos 70, quando ensinou literatura na Universidade da Cidade do Cabo, a francesa Sophie Denoël envolveu-se com J.M. Coetzee, um colega sul-africano nessa época começando sua carreira literária, que adiante seria reconhecida com dois prêmios Booker e o Nobel de Literatura de 2003. Sophie e Coetzee tiveram um caso clandestino – ela era casada – e ministraram, juntos, uma disciplina de literatura africana. Entrevistada em 2008 por um biógrafo do escritor, a acadêmica francesa lembrou do antigo amante como um professor competente mas reservado demais para despertar o entusiasmo dos alunos. A África do Sul vivia então sob o apartheid, e o futuro autor de Vida e Época de Michael K, embora se opusesse ao regime racista, também se mostrava, segundo Sophie, cético em relação aos movimentos negros de liberação. Ele era, conclui Sophie, um “conservador cultural”, como foram conservadores culturais muitos dos escritores modernistas da Europa que lhe serviram de modelo. 

Sophie Denoël é na verdade uma personagem de J.M. Coetzee. Aparece em Verão, obra em que o autor, radicalizando o procedimento adotado em livros memorialísticos anteriores – Infância e Juventude, nos quais ele se apresenta em terceira pessoa, como um personagem de ficção –, revela-se (ou oculta-se?) através de depoimentos concedidos por cinco pessoas fictícias a um biógrafo também fictício. Sophie é uma das depoentes, e não se deve tomar o que ela diz como uma reprodução acurada do pensamento de Coetzee. Ainda assim, o tal “conservadorismo cultural” talvez seja uma noção útil para orientar a leitura das duas coletâneas de ensaios do autor de Desonra há pouco publicadas pela editora Carambaia, Mecanismos Internos e Ensaios Recentes.

O primeiro livro, que já fora publicado no Brasil pela Companhia das Letras, recolhe 21 textos publicados entre 2000 e 2005; o segundo traz 24 artigos escritos entre 2006 e 2017. São ensaios de crítica literária, com a exceção de um artigo sobre Os Desajustados, filme de 1961 (e mesmo aqui ganha destaque o roteiro escrito por Arthur Miller, então casado com a atriz principal, Marilyn Monroe) e de um artigo sobre os diários de Hendrik Witbooi, líder africano que lutou contra colonizadores alemães na virada no final do século 19 e início do 20. Boa parte dos textos são resenhas publicadas na imprensa – sobretudo, na New York Review of Books –, mas há também prefácios para reedições de clássicos como Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Aparecem, nas duas coletâneas, autores de nacionalidades e tempos diversos. O mais antigo é o inglês Daniel Defoe (1660-1731), o mais recente (e o único ainda vivo) é o australiano Gerald Murnane, que neste fevereiro completa 82 anos (Coetzee, aliás, tem 80).

Embora pareça determinada sobretudo pelas encomendas que os editores fazem a seu resenhista estrelado, a seleção guarda marcas discretas das preferências do autor. O irlandês Samuel Beckett, tema do doutorado de Coetzee, é o escritor mais frequente: há um ensaio sobre ele em Mecanismos Internos e quatro em Ensaios Recentes. De Goethe a Günter Grass, há vários escritores de expressão germânica – Coetzee domina bem o alemão, o que lhe facilita até a avaliação do húngaro Sándor Márai, mais extensamente traduzido na Alemanha do que em países de língua inglesa. Com certa frequência, aparecem autores de algum modo deslocados em sua língua e suas lealdades nacionais, como Paul Celan, poeta judeu e sobrevivente do Holocausto que nasceu na Romênia e escrevia em alemão. O próprio Coetzee, sul-africano branco que na infância falava tanto o inglês quanto o africâner (dialeto derivado do holandês) e hoje é cidadão da Austrália, pode ser considerado um autor sem pátria definida.

Com exceção de Oito Maneiras de Ver Samuel Beckett, ensaio de pendor mais filosófico, os textos são todos acessíveis à cada vez mais elusiva figura que convencionou-se chamar de "leitor comum”. Coetzee em geral apresenta um recorrido biográfico breve do escritor de que vai tratar, seguido de considerações a respeito de suas circunstâncias históricas, para então debruçar-se sobre uma ou mais obras. Um ensaio exemplar é a resenha de Nêmesis, último livro do americano Philip Roth, incluída em Ensaios Recentes. O texto abre com informações médicas sobre a poliomielite, doença que está no centro do romance, revisita alguns clássicos da literatura sobre epidemias (Diário do Ano da Peste, de Defoe, e A Peste, de Albert Camus), para só então resumir o enredo do livro e analisar suas ressonâncias trágicas (no sentido forte da palavra, em relação com a tragédia grega antiga). 

A prosa do escritor crítico é de uma elegância sempre sóbria, mesmo quando sua avaliação de uma obra ou escritor é negativa. Nesse registro, leiam-se, em Mecanismos Internos, o ensaio sobre Passagens, a ambiciosa (mas no limite malograda, sugere Coetzee) obra crítico-historiográfica do alemão Walter Benjamin, e, sobretudo, as considerações sobre as deficiências de Márai como romancista. 

Em sentido mais estrito do que aquele empregado por Sophie, colega e amante do personagem Coetzee em Verão, Márai, sempre nostálgico do Império Austro-Húngaro de sua infância e juventude, seria um “conservador cultural”. Mas para abarcar o autor de Diário de um Ano Ruim e Elizabeth Costello, é preciso entender a categoria de forma mais ampla e generosa. Os textos de Mecanismos Internos e Ensaios Recentes são conservadores na medida em que reafirmam o poder vital do grande livro sobre as catástrofes do passado e os ruídos do presente. Com o leitor como testemunha, o crítico conversa com a tradição literária, e é um papo reto e vivo, sem fumos beletristas ou saudosismo kitsch. “A crítica tem por dever e obrigação interrogar o clássico”, diz Coetzee em um ensaio de Stranger Shores, coletânea anterior a Mecanismos Internos ainda não lançada no Brasil. Mesmo quando examina obras cujo estatuto ainda está por ser definido, Coetzee as interroga como se interroga um clássico. É nesse permanente questionamento que a cultura se conserva viva. 

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