GUDSKUL/JIN PANJI
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Coletivo indonésio fará a curadoria da 15ª edição da Documenta

É a primeira vez que o evento será dirigido por artistas asiáticos

Alex Marshall, The New York Times

02 de março de 2019 | 16h00

Um coletivo indonésio de arte foi anunciado em fevereiro como o diretor artístico da 15.ª edição da Documenta, a exposição que avalia as tendências pioneiras em arte, que acontece a cada cinco anos na cidade industrial de Kassel, na Alemanha.

O grupo se chama ruangrupa – seu nome é escrito com todas as letras minúsculas e traduz-se vagamente como “um espaço para a arte”. Os integrantes do ruangrupa são os primeiros curadores asiáticos da Documenta de Kassel, que é uma das exposições de maior destaque do mundo da arte e acontece desde 1955, quando foi dirigida por Arnold Bode, que também exerceu o cargo em 1959 e 1964. 

Com 10 membros principais, os ruangrupa também têm outro mérito nessa edição do evento: será a primeira vez que artistas, em vez de curadores de tempo integral, foram escolhidos para organizar a exposição. A 15.ª edição será realizada de junho de 2022 a setembro do mesmo ano.

O coletivo é conhecido por trabalhar com grupos comunitários e pretende levar essa abordagem para a exposição, como Farid Rakun e Ade Darmawan, dois dos integrantess do ruangrupa, disseram em um comunicado feito à imprensa após o anúncio. 

De acordo com eles, o ruangrupa vai se concentrar “nos problemas de hoje, especialmente aqueles enraizados no colonialismo, no capitalismo ou em estruturas patriarcais”. O coletivo também pretende mostrar trabalhos ou apresentar eventos “que permitam às pessoas ter uma visão diferente do mundo”.

A Documenta se descreve como um “museu de 100 dias” e transforma a Kassel de trabalhadores em um centro de artes global. Muitas vezes, destaca questões sociais prementes, e dá tanto às estrelas do mundo da arte e quanto aos artistas menos conhecidos uma plataforma global de exposição.

A última vez que um coletivo organizou a curadoria do evento, na quarta edição, realizada em 1968, o evento foi fortemente criticado. Desde então, sempre foi dirigido por apenas uma ou duas pessoas.

A Documenta 14, a edição mais recente, em 2017, foi dirigida pelo curador polonês Adam Szymczyk e foi vista por mais de 1 milhão de pessoas. Foi a primeira vez que o evento foi dividida em dois locais, com 160 artistas em Kassel e em Atenas, capital da Grécia.

Concentrou-se em questões como a ressurgência do nacionalismo, racismo e desigualdade econômica e recebeu uma recepção diversificada dos críticos de arte.

Holland Cotter, escrevendo para o jornal The New York Times, chamou-a de “show disperso, desigual, implacavelmente não espetacular”. Mas, ele acrescentou: “No final, é tão bom quanto o tempo e a atenção que você está disposto a dedicar.”

Mas a decisão de expandir o festival para uma segunda cidade trouxe problemas. A Documenta 14 gastou US$ 8 milhões acima do orçamento e os governos de Kassel e do estado alemão de Hesse, onde fica Kassel, tiveram que intervir para impedir que a empresa que administra a exposição fosse à falência.

Não houve discussão sobre ter um segundo local em 2022, disse Elvira Dyangani Ose, diretora da The Showroom Gallery, em Londres, e membro do comitê que escolheu o ruangrupa. A abordagem do coletivo foi “enraizada em colaboradores em todo o mundo, e eles querem manter isso bem no centro do programa”, disse ela em uma entrevista por telefone. “O que isso significa, na prática, ainda não sabemos”, acrescentou Elvira.

Fundada em 2000, em Jacarta, na Indonésia, o ruangrupa administra um espaço de arte que é um local de festa bastante conhecido e também é responsável pela curadoria de exposições no mundo inteiro. O grupo administrou uma estação de rádio pela internet como parte da Documenta 14, e também fez esses projetos na Indonésia.

Em 2016, o coletivo fez a curadoria da exposição de arte Sonsbeek, em Arnhem, Holanda. Em preparação para o evento, montou um workshop na cidade para conhecer os locais e dar-lhes informações sobre o que deveria ser apresentado. As instalações da exposição final incluíam uma estrutura de madeira do artista Alphons der Avest, na qual os padeiros locais faziam de tudo, de pão turco a pizza.

Os padeiros usavam materiais do próprio prédio para abastecer o forno, de modo que a estrutura acabou consumindo a si mesma.

“A Documenta está conscientemente dando espaço para a visão não europeia”, disse Angela Dorn, ministra do governo responsável pelas artes em Hesse. 

Ela acrescentou: “O ruangrupa usa arte em seu país de origem para resolver temas e problemas públicos. Estou ansiosa para ver como vão incorporar essa ideia na Documenta”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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