Museu d'Orsay
Museu d'Orsay

Coletores de alimentos medievais retornam à moda no mundo atual

Quanto se pode fazer para tornar o ato de aliviar a fome uma prática e evitar o desperdício?

Redação, The Economist

05 Janeiro 2019 | 16h00

No salão em Paris, em 1857, Jean-François Millet exibiu uma pintura chamada As Respigadoras (Les Glaneuses). Isso causou um escândalo. Millet fazia questão de pintar os camponeses em seus trabalhos, mas essa grande tela era sua mais forte provocação. Em um mundo devotado ao pudor das sedas e dos guarda-sóis, introduziu mulheres rudes, quadris para o ar, em suas saias caseiras, catando espigas caídas depois de terminada a colheita. Um crítico se queixou da “feiura e… brutalidade sem alívio”. Outro disse que aquilo o fez pensar nos patíbulos e estacas da época do Terror de 1793.

Millet vira as mulheres de maneira diferente. Ele as considerou dignas, fazendo seu trabalho sob uma luz santificadora de fim de verão, companheiras de seu camponês Angelus. Nisso, assim como na sua humilde aspereza, ele captou a essência da coleta, terminada a colheita (em inglês, gleaning).

Para começar, não se trata bem de recolher restos. Recolher restos significa procurar coisas que os outros descartaram, como crianças vasculhando por garrafas plásticas e peças de telefone nos pontos de lixo de Nova Délhi. Tampouco se trata de colher comida, que é coletar alimentos da natureza, enquanto os donos de restaurantes da moda se esforçam para colher cogumelos chanterelles e salicórnia (aspargo do mar). Também não é roubar de uma horta ou jardim, geralmente em um desafio.

Itens recolhidos são o fruto bom e utilizável da atividade humana; eles não foram descartados, apenas negligenciados, ou alguém achou que não valia a pena incomodar-se com eles. Na exaustiva e maravilhosa crônica de Henry Mayhew da subclasse urbana vitoriana, London Labour and the London Poor, 1851 (O Trabalho em Londres e os Pobres de Londres, em tradução livre), seu equivalente de catadores rurais são os ‘draga-dos-rios’ que, quando o carvão é acidentalmente derrubado, o pescam de volta. Numa analogia impressionante com os ceifeiros rurais em seus campos arados, alguém diz a ele que “há buracos e sulcos no fundo do rio ... Eu conheço um sulco de Lime'us Point, não mais largo que a draga ... (onde) eu posso conseguir quatro ou cinco alqueires de carvão. Você vê que está lá”.

Em tempos menos esbanjadores e mais difíceis, o rendimento era pequeno: grãos para as galinhas, um saco para o moleiro. Os autores nervosos chamavam seus livros de “coisas recolhidas” para enfatizar sua insignificância e defender-se dos críticos. Nos dias de hoje, o que é colhido escorregou sem que se percebesse, ou sem necessidade, das gigantescas varejistas e da capacidade de imensas máquinas de colheita de poeira. Às vezes, o clima deixa uma cultura inviável: depois do forte verão de 2018, muitas maçãs eram menores do que os supermercados aceitariam. Cerca de 20-40% das frutas e legumes, de acordo com os defensores da campanha, são rejeitados pelos supermercados britânicos e americanos por razões puramente estéticas: a exigência, por exemplo, de que as abobrinhas pareçam idênticas. Na América, cerca de 2,7 milhões de toneladas de produtos “feios” são descartados todos os anos.

Os ocidentais modernos que gostam de colher produtos nos campos todos os dias (na Grã-Bretanha, principalmente na Europa Oriental) estão em falta. Mas muitas máquinas de colheita deixam para trás tomates ou morangos perfeitos pendurados em suas áreas de cultivo. Um produtor de groselha em Sussex, cujos campos são visitados regularmente por colhedores, calcula que as máquinas colhem apenas 60-80% de sua safra. As empresas também passam por cima, abandonando as plantações no campo. O filme de Agnès Varda, Os Catadores e Eu (2000), documenta a retirada de um vinhedo inteiro não colhido antes que as aves, ou o javali, entrem. Qualquer que seja a causa, o rendimento moderno pode ser substancial. O princípio, no entanto, é o mesmo: se tudo deve ser aproveitado, as ferramentas mais eficientes são o olho humano aguçado e a delicada mão humana.

Direitos e regras

Ao contrário das tarefas de limpeza e de colheita do alimento, que tendem a ser feitas por empresas individuais com potencial comercial, a coleta quase sempre foi comunitária e caritativa. Suas raízes estão na distribuição de parcelas justas entre os indivíduos.

Os restos de prosperidade, os fragmentos desnecessários ou negligenciados, são fornecidos para aqueles que precisam de ajuda, seja em doação de mosteiro ou de uma sacola de saco cheia em um campo colhido. As catadoras de Millet estavam envolvidas em uma tarefa reservada para os indigentes pela comuna local; no fundo da tela, a colheita regular está sendo empilhada em abundância.

O direito dos pobres de coletar provinha de proveniência bíblica. “Não colherás totalmente os cantos do teu campo, nem colherás as espigas caídas da tua colheita,” disse Deus a Moisés em Levítico 19: 9-10; “… Nem colherás toda a uva de teu vinhedo; tu as deixarás para os pobres e estrangeiros”. Em Deuteronômio, um maço esquecido no campo devia ser deixado “para o estrangeiro, para órfão e para a viúva”; e “Quando tu bateres tua oliveira, não passarás sobre os ramos de novo.” O Livro de Rute no Antigo Testamento conta a história da mais famosa curandeira da literatura, uma indigente estrangeira em Judá que encantou o dono da terra, Boaz, que instruiu seus ceifeiros a ajudá-la ativamente: “Deixe-a colher entre as polias e não a censure: deixem cair também alguns dos punhados, de propósito para ela, e deixem lá.” A gentileza e a humildade de Rute contribuíram muito para o aproveitamento das sobras e a permissão para isso, uma cor de santidade.

Grande parte da Europa medieval aceitou o direito da recolha, mas com cuidado. Isso não era algo gratuito para todos, e as regras permaneceram intactas, em alguns lugares, até o século 20. Um “feixe guardião” seria deixado em um campo para protegê-lo até que a colheita estivesse completa. Quando o feixe fosse removido, um sino sinalizava que o resgate poderia começar. E quando a campainha tocava à noite, a angariação parava. O sino da manhã tocava às oito ou nove horas, para dar tempo às famílias ocupadas para se prepararem. Todos tinham uma chance igual de conseguir sua parte.

O aproveitamento também era uma parte significativa da renda dos camponeses e aldeões, talvez chegando a um oitavo dos ganhos anuais no centro e no sul da Inglaterra nos séculos 18 e 19. Mas como os campos abertos estavam cada vez mais fechados, os fazendeiros se preocupavam com os danos às plantações e com a simples invasão do que era agora propriedade privada. Quando Mary Houghton foi fazer uma coleta em 1788 nos campos de James Steel em Suffolk, ela acabou no tribunal, com um julgamento estabelecendo que a colheita de aproveitamento era um privilégio, não um direito. Steel não tinha obrigação de deixá-la colher espigas de milho; dependia dele se gentilmente a deixaria fazer isso.

Mary Houghton, sem dúvida, pensou em colher seu direito. Se ela achava que era um privilégio, é mais difícil dizer. Tradicionalmente, talvez pelo fato de ser necessário ter uma mentalidade ordeira em vez de força física, a colheita era deixada para as mulheres - assim como outras tarefas exaustivas, como a coleta de nabo e batata, ou a limpeza de campos com pedras. (Alguns insistem que a coleta não é realmente coleta se não envolver que a pessoa se incline). Trabalhar com restolho espinhoso, muitas vezes sob sol forte durante todo o dia, era árduo. Mas havia boa companhia, e as crianças também podiam colher com cuidado, recolhendo palha em grupos de 20 ou mais, depois amarrando-as com seus próprios talos, em pequenos buquês. Os catadores da literatura eram imaginados como seres despreocupados, cantando enquanto trabalhavam e tecendo enfeites para os cabelos. A velha senhora H.E. Bates observou em Northamptonshire, nos anos 1930, “que a última sobrevivente de uma raça antiga”, como se chamava, “movia-se pelo campo sob o sol brando, com as orelhas crestadas pelo frio cortante, sacudindo uma sacola”, e estava ocupada demais para notar as flores. No entanto, ela parecia “eterna”, tão natural na paisagem quanto os pássaros.

Na França, o Code Pénal ainda afirma que esse tipo de aproveitamento é permitido “desde o nascer do sol até o pôr do sol ... quando a colheita tiver terminado”. Mas ninguém parece conhecer as regras, especialmente porque quase não há mais coleta de grãos. Os catadores de ostras filmados pela cineasta Varda ao largo da costa atlântica fazem colheita em torno dos canteiros comerciais depois das tempestades, mas o quão próximos podem ficar e quanto podem levar, são questões muito debatidas. Os catadores que ela encontra em outros lugares são muitas vezes coletores solitários, principalmente os muito pobres, que têm tanta probabilidade de vasculhar as lixeiras dos supermercados quanto vagar esperançosamente pelos campos. O retrocesso mais pungente para as soluções mais antigas surgem quando um grupo de crianças da aldeia barrenta, recolhem batatas perto de Arras, imersas em um coro de “Lundi, des patates, mardi, des patates, mercredi ...” (Segunda: batatas; terça: batatas; quarta...) Com o colapso dos antigos padrões comunitários, a colheita no velho estilo também desapareceu.

Não há muitas músicas, mas conversas e risadas espalhadas, ouvidas nos campos da Maynards Fruit Farm, em East Sussex, em um dia quente de junho. O fazendeiro convidou a filial de Sussex da Rede Feedback Gleaning, da Grã-Bretanha, a maior do país, para colher o que restou de sua plantação de ruibarbo. A chuva persistente fez a colheita chegar cedo demais, e ele precisa limpar o campo para plantar mais. Com efeito, desta vez, os 15-20 catadores que chegam são colhedores em vez de coletores. O princípio parece ser o mesmo para eles.

Reunidos pelo Facebook

Hoje em dia não há mais o sino de convocação. Em vez disso, um alerta alegre vem por tuíte ou post no Facebook: “Safra ruim (repolho) em Wigden perto de Canterbury. Esteja lá às 9 ... Agora é colher.” A Rede Sussex Gleaning sozinha contém 900 nomes. As pessoas em Maynards vêm principalmente de Brighton, a cidade mais próxima; quase nenhuma é do interior, e isso é normal. O aproveitamento é agora uma preocupação urbana e verde, exigindo banheiros, estacionamento e despesas de viagem. Os catadores estão vestidos para o trabalho em jeans e botas de caminhada, mas precisam de instruções sobre como lidar com as pequenas e afiadas facas com as quais cortarão os talos no campo. A área não é grande, mas depois de inclinar-se para recolher ruibarbo por seis horas, eles estão cansados. Em troca, encontram diversão e companheirismo ao ar livre, e se orgulham das pilhas de coisas com as quais posam depois.

Reduzir o desperdício é a primeira motivação dos catadores, mas a pobreza vem em segundo lugar: a das outras pessoas, e não a deles. Pelas estimativas do governo, 10 milhões de toneladas de comida aproveitável são desperdiçadas na Grã-Bretanha a cada ano, 70% das quais são jogadas fora pelos lares comuns. A Grã-Bretanha é a principal infratora na UE, que no total despeja 89 milhões de toneladas de comida. Enquanto isso, cerca de 20% dos adultos da Grã-Bretanha e 14,5% dos lares americanos são classificados como “inseguros” de certa forma, por serem incapazes de obter alimentos nutritivos sempre que precisam. Poucos, em ambos os lados do Atlântico, tentaram adivinhar o quanto de produtos frescos apodrecem antes de deixar o campo. Mas os agricultores que participaram de uma Pesquisa de Perda de Alimentos de Vermont em 2016 estimaram perda anual de hortaliças e frutas vermelhas em 16%, e uma pesquisa britânica sobre resíduos agrícolas realizada pela Feedback em 2018 chegou a 10-16% em todas as culturas, “em anos típicos”.

Diante do desperdício, os esforços dos catadores parecem uma gota no oceano. Na maior parte dos anos, o Feedback reúne cerca de 100 toneladas de produtos. Mas toda pequena ajuda conta. O recolhimento voltou a ser um complemento ao bem-estar social mais organizado. E, em alguns lugares, ainda há um sabor religioso nele. Nos Estados Unidos, a Sociedade de Santo André, a mais antiga e maior operação de aproveitamento, atrai 40.000 catadores, principalmente de igrejas, sinagogas e outras religiões (incluindo o Islã), tornando explícita a base bíblica. Tanto lá como em Israel, a maior parte do aproveitamento é administrado por grupos religiosos.

Apelos para os catadores agora têm como alvo os jovens e se encaixam em uma área ampla, mas há exceções onde a ajuda local e de vizinhança é primordial. Um programa de recrutamento no Oregon acolhe apenas membros cuja renda familiar é igual ou inferior a 200% da diretriz federal sobre pobreza; todos, portanto, são pobres e muitos são idosos ou deficientes. Alguns “adotam” pessoas que são fisicamente incapazes de aprender e compartilhar suas reuniões com eles.

Os catadores se vêm como nobres agitadores. Eles montam “resgates” para “salvar os vegetais”; eles falam de uma "Primavera Arável" e uma "Revolução Glean". Calculam ansiosamente quantas pessoas poderiam ser alimentadas a cada ano se tudo fosse salvo e se fosse empregada a logística just-in-time. Levar produtos dos campos para as mesas de instituições de caridade, albergues, abrigos e clubes de almoço requer uma frota de vans às vezes refrigeradas. Na Grã-Bretanha, a FairShare, que tem cerca de 20 filiais, dirige as vans; as frutas e verduras são usadas pela Foodcycle, uma instituição de caridade nacional, para fazer refeições para pessoas carentes, principalmente nas cidades. Nos Estados Unidos, a Sociedade de Santo André distribui 9.000 toneladas de alimentos por ano para uma rede de despensas que atende os pobres urbanos. Só a rede de catadores do centro-sul da Pensilvânia conta com 120 “parceiros comunitários”. Essas redes estão crescendo.

Os catadores poderiam conseguir mais? Sem dúvida. A colheita de campo depende, como sempre, de boas relações com as fazendas. Mas os mais abertos à ideia são pequenas empresas familiares, não empresas de escala. A psicologia dos fazendeiros pode ser difícil, e alguns se sentem envergonhados de chamar os catadores, como se fosse uma admissão de fracasso. Outros não gostam do pensamento de trabalhadores semitreinados em seus campos. O recolhimento às vezes é melhor oferecido como ajuda gratuita: os trabalhadores da iniciativa de resgate do Maine também farão outros trabalhos, como a classificação de abóboras.

O recolhimento poderia ser mais urbano e suburbano, e em alguns lugares é. Em torno do Vale do Silício, na Califórnia, a Village Harvest, fundada em 2001, colhe citros de jardins, quintais e pomares antigos. Na Grã-Bretanha, a coleta de hortaliças é confinada principalmente a Hackney, uma parte agora moderna (e quase sem jardins) do leste de Londres. Colheitas de tais lugares dão um retorno magro para o trabalho envolvido. Mais uma vez, os catadores precisam invadir o mundo dos grandes produtores que se importam menos com o desperdício. Eles também precisam convencer grandes supermercados a tolerar a imperfeição. Tanto Morrisons, na Grã-Bretanha, quanto o francês Intermarché, agora vendem produtos imperfeitos – “inglórios”, como o Intermarché os chama alegremente.

Nos Estados Unidos, onde apenas cerca de 10% dos alimentos comestíveis disponíveis são recuperados, as preocupações com o custo da caridade também impediram o recolhimento. A Lei “América Dá Mais” de 2015 permite uma dedução permanente para as empresas agrícolas que recebem favores de até 15% do lucro tributável. Mas as advertências legais sobre transgressão e danos podem ser ferozes, e as leis que regulam a colheita contra o desperdício variam muito de estado para estado: as costas leste e oeste são amplamente receptivas, e os estados centrais, muito menos.

Inglório glorificado 

A escala da prática pode ter mudado além do reconhecível, mas a filosofia - quase uma teologia - da coleta de aproveitamento permanece a mesma. Ele completa e expande a colheita, para que o maior número possível possa compartilhar, especialmente os pobres. Ela avalia e faz pleno uso de tudo o que o homem e a natureza proporcionaram. Laços comunitários são fortalecidos por ela. Além disso, o ato de recolher pode enriquecer de maneiras particulares. Cada catador, como em um serviço religioso, entra não apenas na experiência do grupo, mas também em um mundo individual de coleta e acúmulo silencioso. A colheita contra o desperdício pode se tornar contemplativa, quase hipnotizante. Nesta atitude de busca humilde, a colheita pode ser de pensamentos, imagens e entendimentos, tanto quanto comida.

Em um dia agradável de outubro, os colhedores de Sussex se reuniram novamente, desta vez no pomar em Stanmer Park. Alguns farão a colheita real; outros farão uma real retirada, arrumando o que cai ou caiu no chão. As frutas, semeando Bramleys, foram deixadas para se tornarem vermelhas e adoçadas. Eles brilham contra um céu perfeito.

Ninguém está com pressa. Eles fazem o que podem, trabalhando metodicamente ao redor de uma árvore ou de um remendo, sentindo os sacos de rede pesando no pescoço. Está muito silencioso, o som mais alto é o baque de maçãs no extenso gramado. As palavras “desperdício” e “revolução” surgem de algumas conversas. Outra conversa é sobre crumbles e creme. Sob uma velha árvore curvada, duas garotas em fones de ouvido param de trabalhar e começam a dançar. / Tradução de Claudia Bozzo

Mais conteúdo sobre:
agricultura

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.