Com e sem avental todo sujo de ovo

Histórias da criadora do Dia das Mães, que não teve filhos, e da mãe amorosa, que diz gostar mais do marido

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2009 | 00h59

Em homenagem ao dia de hoje, apresentarei aos filhos e órfãos que me distinguem com sua atenção uma mãe exemplar. Exemplar justamente por não ser um modelo de mãe tradicional, daquelas que desdobram fibra por fibra o coração e se orgulham de padecer num paraíso.

Ayelet Waldman é seu nome: escritora, 44 anos, formada em direito por Harvard (da mesma turma do Obama), casada com o romancista Michael Chabon, quatro filhos. Em 27 de março de 2005, publicou um artigo no New York Times que a fez padecer num inferno. Tema: a maternidade. Mas sem as chorumelas de praxe. E com esta confissão formidável: "Se uma boa mãe é aquela que ama os filhos mais do que a qualquer outra pessoa no mundo, então eu não sou uma boa mãe, pois gosto mais do meu marido que dos meus filhos".

Madre de Dios! Per la Madonna! O artigo era sobre o que é ser mãe - e suas inconveniências.

Ao enfiar em público a carapuça de bad mother (de resto, sem razão, já que ela tem um relacionamento comprovadamente intenso e carinhoso com os filhos), Ayelet cutucou um vespeiro. Onde já se viu uma mãe gostar menos dos filhos que do marido? Se isso não vai contra a natureza, contra o senso comum vai - e como! Principalmente no país do "momism" (a variação pop do complexo de Édipo), da Stella Dallas, da Mildred Pierce, da "little Mammy" do Al Jolson e demais "jewish mothers".

Mães histéricas de todas as idades passaram a perseguir Ayelet e hostilizá-la, nas ruas, em cafés, restaurantes e supermercados, por telefone e e-mail, como se ela tivesse dito que não só odiava os filhos como planejava sacrificá-los como uma mãe de tragédia grega. Pior: como se ela já os tivesse assassinado. Programas de televisão a crucificaram; até ameaças do tipo eu-sei-onde-você-mora ela recebeu. Durou dois anos o calvário de Ayelet Waldman.

Depois de estrepitosamente vaiada pela plateia do programa da Oprah Winfrey quando ainda maquiava para entrar em cena, Ayelet decidiu escrever um livro. Não podia ter outro título: Bad Mother. Afinal acrescido de um subtítulo tão longo quanto irônico: Lembra Quando Ayelet Waldman Foi ao Show da Oprah e não Tinha um Livro para Caitituar? Lembra? Lembra? Agora Ela Tem. É um balanço da sórdida campanha que lhe moveram e um retrato autobiográfico "de uma franqueza sem limites", na opinião de um comentarista do Washington Post. De lambuja, um documento sobre a hipocrisia americana e o excessivo valor que à maternidade se dá no mundo inteiro.

Foi no sentido de incompetente, inapetente e negligente, e não de má, parente de perversa e cruel, que Ayelet usou a palavra "bad". Deixara um emprego de defensora pública para assumir todas as funções ditas maternais, mas um dia se encheu de ficar empurrando o balanço da filha mais nova e ouvindo as conversas fiadas das outras mommies e, incentivada pelo marido, que só escreve à noite e tem o dia inteiro para cuidar das crianças, trocou o playground pelo computador e a atividade literária.

Como não admirar uma mãe tão sincera e honesta, com os filhos e consigo mesma? Como não admirar uma mulher que contraria o figurino piegas da "dona de tudo", da "rainha do lar, com o avental todo sujo de ovo"? Ayelet não acredita que toda e qualquer mãe valha mais que o céu, a terra e o mar, nem que "mother" seja a palavra mais linda que o poeta escreveu.

Também admirável foi Anna Jarvis, a inventora do Dia das Mães. A comemoração é uma bobagem, há muito um artifício para esquentar as vendas do comércio (crescimento médio: 17,2%), desvio que Miss Jarvis constatou ainda em vida, parte dela dedicada a recuperar a "pureza" original da efeméride. Professora de Grafton (Virgínia Ocidental), órfa de pai e mãe, por vários motivos, pessoais, inclusive, empenhou-se na consagração do segundo domingo de maio como a data máxima da maternidade - ou do "reconhecimento da importância da mãe na vida de todos nós", para usar as mesmas palavras dela na cerimônia religiosa que, em 10 de maio de 1908, deslanchou o negócio. Com as bênçãos de São João, cuja descrição da última troca de palavras entre Jesus e Maria, no Gólgota, acabou sendo o ponto alto da missa, assistida por 407 crianças de Grafton e suas respectivas mães.

Pressionado por congressistas, jornalistas e celebridades de variada fauna, o presidente Woodrow Wilson reconheceu a data oficialmente em 1914. Quando Getúlio Vargas fez o mesmo, em 1932, diversos outros países já festejavam o Dia das Mães no segundo domingo de maio.

Por causa de uma desilusão amorosa, Anna Jarvis jamais se casou ou teve filhos. Era com indisfarçável tristeza que acompanhava e incentivava os festejos do Dia das Mães, cuja comercialização (e não me refiro aos 10 milhões de buquês de flores nem aos 150 milhões de cartões que todos os anos americanos gastam no segundo domingo de maio) combateu com comovente tenacidade. Incitou boicotes a empresas e lojas que exploravam a data para vender mimos caros ou supérfluos, investiu em sua campanha o que tinha e não tinha. Cada vez mais solitária, reclusa e doente, passou seus últimos anos num asilo pago por alguns amigos, onde, surda e quase cega, morreu em 1948, com 84 anos.

Anna não precisou ser mãe para ser a mãe de todas as mães.

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