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Com ecos shakespearianos, série documental investiga a política tóxica

Bacteriologista que trabalhou em projeto secreto do governo norte-americano morre em condições enigmáticas no seriado de Errol Morris disponível na Netflix

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2021 | 16h00

Só na virada do ano me dei conta de que ainda não assistira à minissérie Wormwood, na Netflix. E assim mesmo alertado por um amigo curioso de saber como eu traduziria o título da série, aqui lançada a seco, sem complementos do tipo Blow Up—Depois Daquele Beijo. Não é um título atraente e amigável; a seco, menos ainda. Wormwood, que, por força do worm, me soa a cupim (que, em inglês, é termite), significa absinto: a planta (Artemisia absinthium), não o líquido amargo dela extraído e celebrizado por Baudelaire.

Wormwood—Depois Daquele Drinque, repito aqui a inútil sugestão passada ao amigo. O indigitado drinque nem era absinto, mas, se não me falhou a vista, um Cointreu batizado com uma sub-reptícia gotícula de ácido lisérgico. Alucinado por ela, Frank Olson despencou do 10º andar de um hotel de Manhattan, na noite de 28 de novembro de 1953. 

Primeira hipótese: Olson, bacteriologista de 43 anos, teria sido vítima de um acidente, de uma fatalidade. Segunda hipótese: suicídio. Deprimido com o projeto (MK Ultra) de guerra biológica em que fora metido pelo governo, Olson teria se atirado da janela, no meio da noite. Quarenta anos depois, a terceira e última hipótese: assassinato. Ou melhor, execução. 

Olson sabia demais e tinha a consciência culpada, um perigo para a segurança nacional e as pesquisas químicas que os EUA, em conflito armado com a Coreia, preparavam à sorrelfa em seus laboratórios. A CIA dos irmãos (Allen e John Foster) Dulles fez o serviço de praxe, em seguida acobertado por Charles E. Colby, chefão da CIA nos governos Nixon e Gerald Ford. 

Onde entra o absinto? Simbolicamente como uma referência bíblica e shakespeariana. Absinto (ou Artemísia) era o nome da estrela trazida por um anjo no apocalíptico Livro da Revelação, vista como uma profecia da corrupção das igrejas cristãs no final dos tempos e sua substituição por uma Nova Igreja. 

A certa altura, Olson (Peter Saarsgard, um Jack Lemmon que não sabe sorrir) é comparado a Martinho Lutero (encarnado na tela por Niall MacGinnis, num filme lançado, por concidência, em 1953). Talvez seja possível traçar algum paralelo entre o reformismo de Lutero e a “apostasia” de Olson e seu rompimento com a “bacteriologia de guerra”, mas, se me sobrasse espaço, preferiria me deter mais sobre outros paralelismos esboçados pelo cineasta Errol Morris. 

Não tanto sobre os óbvios (Horas Intermináveis, com um suicida Richard Basehart cai, não cai do parapeito de um hotel nova-iorquino, e Sob o Domínio do Mal, que lidava diretamente com a guerra na Coreia, lavagem cerebral e torpezas da política exterrna americana durante a Guerra Fria), mas sobre a referência mais explícita: Hamlet, inserido várias vezes (versão Laurence Olivier) pelo que seu drama tem de comum com o de Eric Olson, filho de Frank, também em busca do(s) assassino(s) do pai, e pelo empréstimo da palavra “wormwood”. 

Na Cena 2 do Ato 3 da tragédia shakespeariana, Hamlet resmunga “é um absinto”, como quem diz “é um infortúnio”, algo triste, amargo, ao ouvir sua mãe comentar que a mulher “só se alegra com outro companheiro” se foi a causa da morte do primeiro. A frase é dita enquanto Hamlet encena, perversamente, o assassinato do rei, seu pai, pelo usurpador Claudio, seu tio e novo companheiro de sua mãe.

Desconheço a datação etimológica de “absinto” como sinônimo de desdita, em inglês ou outra língua, mas estimo que tenha caído em desuso alguns séculos atrás, com chance zero de voltar a conotar algo que não seja líquido, destilado, capitoso e servido em copo. 

No último dia do ano, uma blogueira americana selecionou um monte de falas e rubricas teatrais de peças e sonetos de Shakespeare que, a seu ver, pareciam comentar fatos e personagens de 2020, como a pandemia, os incêndios na Amazônia, Austrália e Califórnia, as derrubadas de estátuas de segregacionistas, as tentativas de impeachment de Trump e sua recente derrota eleitoral—esta resumida numa rubrica da Cena 1 do Ato 3 de Otelo: “Sai o bobo”. 

A ideia por trás do blog era mostrar, como se ainda fosse necessário, que o bardo de Avon abordou e dramatizou todas as grandes questões humanas e antecipou mais eventos terrenos do que supõe a nossa vã cronologia. Sua autora passou batida pelo “wormwood” hamletiano. O que me parece tão irrelevante quanto não ligar a heroína de Romeu e Julieta, como agora faço, à personagem feminina do musical Me and Juliet, que Frank Olson assistiu na Broadway horas antes de morrer.

Nesta minissérie em seis capítulos, que no total dura cerca de 4 horas mas cujas peripécias caberiam perfeitamente num longa de 120 minutos, o que não falta são “absintos” patrocinados pelas insanidades imperiais americanas, nos governos Truman e Eisenhower, com desdobramentos na administração Clinton. 

Para muitos o melhor documentarista americano em atividade, Errol Morris adquiriu prestígio dirigindo centenas de comerciais criativos. Seu fascínio por bandidos, escroques e assassinos, levou-o a recriar, na tela, com recursos cênicos e visuais de filmes de ficção, figuras ímpares da história recente americana, como os secretários de defesa Robert S. McNamara (em Sob a Névoa da Guerra—no caso, a guerra do Vietnã) e Donald Rumsfeld (um dos artífices da invasão do Iraque em 2003). Seu primeiro feito, contudo, foi livrar do corredor da morte o inocente Randall Adams, no premiado The Thin Blue Line

Morris já tratou dos maus-tratos em Abu Ghraib e do sinistro arquiteto de fake news Steve Bannon, mentor de Trump e do clã Bolsonaro. Ficaremos lhe devendo mais uma se o charivari fascista da última quarta-feira, em Washington, resultar em outro documentário, cheio de som e fúria, desta feita significando muita coisa.

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