Com K de Kafka

Não há um dia argentino sem a aparição deste avatar extravagante da famosíssima letra

DANUBIO TORRES FIERRO*,

23 de março de 2013 | 17h56

Não há novidade em dizer que o K, signo universal que Franz Kafka consagrou com Joseph K., o atônito personagem do romance O Processo (1925), encontrou uma inesperada perpetuação na Argentina dos últimos anos. Não há semana, não há aliás um único dia argentino em que não ocorra o milagre da aparição desse avatar extravagante da famosíssima letra. Vejamos. No jargão local, K era o defunto presidente Néstor Kirchner, K seu estilo pessoal de governar e K - os radicais K - eram, e continuam sendo, os políticos trânsfugas que se somaram à Frente para a Vitória e que alçaram Cristina K(irchner) à poltrona presidencial por dois mandatos consecutivos. Muito menos conhecido no âmbito público nacional, e mais íntimo em suas repercussões, já houve no país um ilustre personagem K. Foi o conde Hermann von Keyserling (1880-1946), dos muitos viajantes europeus que passaram por estas terras novas, que se casou com Gudela Bismarck e foi autor de umas divulgadas Meditaciones Suramericanas (1933), e a cujos avanços eróticos Victoria Ocampo (a criadora da célebre revista Sur na qual cresceram Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Octavio Paz) impôs um cortante ademã repreensivo sem que isso impedisse que nas abundantes cartas que lhe enviou, escritas em fins dos anos 1930, insistisse em chamá-lo “Meu querido K”.

Ponhamos as coisas no seu lugar. Não há dúvida de que o K de Kafka, o K que é uma insígnia do adjetivo kafkiano, o K que agasalha um fabuloso animal literário prototípico do reino do absurdo, pode reclamar com legitimidade um lugar próprio nesta Argentina. Para começar, é impossível encontrar uma lógica que explique com certa congruência argumentativa o que ocorre. Quantas vezes nós, que lhe professamos amizade sul-americana, nos perguntamos que carma conduz este país e que fatalidade o converte em um hieróglifo? Ali governa um governo peronista; mas entre o Juan Perón de 1943, quando ele irrompe na vida pública, o Juan Perón de 1946 e 1951, quando é por duas vezes consecutivas presidente, e o Juan Perón de 1973, quando torna a ocupar a presidência, os vínculos ideológicos se diluem e as contradições se tornam uma constante. Um vaporoso e sempre adiado afã de justiça social (daí provém o “justicialismo” que se emprega para designar o peronismo), que na realidade de sua aplicação prática se confunde com uma vaga pretensão uniformizadora do social, não parece atributo suficiente para constituir um sistema político articulador.

Para ser ainda mais concreto, que podem ter em comum aquele primeiro Perón que nos anos 40, de modo alternativo e sem solução de continuidade, se alia aos altos comandos do Exército, se autodenomina o “primeiro operário” da nação e chama a parte de seu eleitorado de descamisados (nada menos que o nome do primeiro diário anarquista que o país conheceu no remoto 1879), e o segundo Perón que, em 1972, ao regressar de seu exílio espanhol, assiste ao massacre entre seus supostos partidários no Aeroporto Internacional de Ezeiza? O que une esses sucessivos Perón(s) com o terceiro e último, aquele que, em 1973, eleito de novo presidente, arenga seus seguidores da classe operária com o estribilho paternalista que aconselha - e manda - transitar “da casa para o trabalho e do trabalho para casa” enquanto o país se incendeia com trabalhadores que rechaçam os pactos sociais, ocupam as fábricas e desafiam a polícia?

Investigue-se o assunto por outro ângulo. O que vincula, na cadeia histórica de encarnações peronistas/justicialistas, o general Juan Perón ao “neoliberal” Carlos Menem, Carlos Menem ao “clássico” Eduardo Duhalde e Eduardo Duhalde ao em seu momento tido por “moderno” Néstor Kirchner? O que aproxima a esotérica Isabel Martínez de Perón da “progressista” Cristina Kirchner? Todos ocuparam a presidência. Todos são, de um modo ou de outro, irmãos inimigos. O peronismo nunca conseguiu apresentar aos argentinos um projeto ideológico coerente e ordenado, previsível em seus princípios diretores, e menos ainda encontrou a forma de selar com a cidadania um contrato racional que vá além da exploração exagerada do sentimentalismo nacionalista e de sua épica vulgar que manipula ao seu capricho a simbologia pátria para assim legitimar suas apetências hegemônicas. Como costuma ocorrer com os governos que mergulham suas raízes no populismo, a única coisa que ao longo do tempo sobreviveu no horizonte peronista é a liderança caudilhesca, a instrumentalização em benefício próprio dos métodos democráticos, o estado permanente de agitação da praça pública, o endeusamento de meras criaturas terrenas, a perseguição a tudo que cheire a dissidência. Há algo mais.

Para entender de fato o peronismo e a própria dinâmica da política argentina, é preciso recordar que ali, quase desde as origens organizativas do país, paira a sombra de um modelo político-ideológico italiano, arraigado por uma imigração em massa; isto é, campeia a reverberação do fascio, que desde o século 19 implica a reunião de grupos políticos extremistas diferentes, e até opostos, nos quais sobressaem traços nacionalistas e autoritários. Benito Mussolini foi, como assinalou em data recente Boris Fausto, um mestre dessas alquimias. É importante acrescentar a essa estratégia aglomerante uma institucionalidade muito débil, que fratura as jurisdições e as legitimidades, e o exercício de um individualismo que não quer saber de projetos que imponham o compromisso da pessoa (do cidadão, portanto) com uma causa, embora essa causa seja a construção de uma nação republicana. Existe na Argentina, comprovadamente, o gênio individual, mas não o gênio coletivo. Aí está o exemplo recente de Francisco, o novo papa, e aí estão os vários Prêmios Nobel.

Em algum momento de seu mandato, o senhor K, o presidente K, afirmou que ele representava o pós-peronismo, figura de linguagem que pretendia expressar algo além do peronismo primitivo e que proclamavam, digamos, uma superação dialética das origens fundadoras. Um arrebatamento similar do que em seu momento levou um Carlos Salinas de Gortari - presidente de outro país da América Latina em que uma versão nativa do populismo acaba de regressar ao poder - a anunciar a morte da revolução mexicana. Entretanto, os fatos negaram então, e continuam negando agora, tais arroubos regeneracionistas. Por sua acumulação de poderes, por seu manejo endogâmico e patrimonialista da coisa pública, pelas cumplicidades políticas que se buscam sem escrúpulos ideológicos, o estilo pessoal de governar dos K, é o que mais se aproxima das fontes históricas do peronismo, o que mais se aferra a seus rituais arcaicos. Veja-se, nesse sentido, a retórica da teatralização que acompanha a senhora K desde sua viuvez.

A Argentina em geral, e o peronismo em particular, registram em seus anais uma extravagância adicional. Ali as mulheres que chegaram ao poder escreveram uma história desonrosa. Manuelita Rosas, a filha de Juan Manuel de Rosas (que governou nos períodos 1829-1832 e 1835-1852), participou ativamente da rude conversão à causa paterna dos estamentos mais baixos da sociedade e empunhou alguns dos recursos de La Mazorca (não por mazorca (espiga) de milho, mas pela justaposição sinistra de más e horca: mais forca), a polícia política da época. Eva Duarte Perón, a abelha rainha, tida por santa padroeira dos despossuídos, deslumbrou a maioria de seus conterrâneos (e, aliás, não poucos estrangeiros) com seus trajes de alta costura e suas joias cintilantes compradas em Paris. María Isabel Martínez, que em 1974, ao morrer Perón, assumiu a presidência (a fórmula partidária que a conduziu ao cargo foi um sonoro pleonasmo “Perón/Perón”), penetrou em dimensões paranormais e ajudou a precipitar um golpe de Estado militar. A linhagem feminina se ampliou com Chiche Duhalde, a mulher de Eduardo Duhalde que também se pretendeu uma redentora, e com Cristina Fernández de (K)irchner. Não se deve esquecer, em países latino-americanos de memória curta, que o casal K recorreu ao transformismo político para transmitir o poder de um para outro: algo como a instauração de uma monarquia com a qual, aliás, o último Perón chegou a sonhar. Acrescentemos uma última perplexidade: como se explica que num país de matrizes liberais (o país de Domingo Sarmiento, de Bartolomé Mitre, de Francisco Laprida, aquele Laprida que, no momento de sua morte, encontrou memoravelmente seu “destino sul-americano”) tenham crescido, e ainda cresçam, essas deformidades que por certo farão se revirar no túmulo o fantástico K de Kafka? / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*DANUBIO TORRES FIERRO É ESCRITOR E CRÍTICO LITERÁRIO URUGUAIO, DIRETOR DA EDITORA FONDO DE CULTURA ECONÓMICA NO BRASILD

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