ILYA REPIN/TRETYAKOV GALLERY
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Com 'Ninho de Fidalgos', obra de Turgueniev vem sendo reeditada

Segundo romance do escritor celebrado por seus pares narra a angústia de um intelectual que retorna à Rússia rural

Irineu Franco Perpétuo*, Especial para o Estado

16 de fevereiro de 2019 | 16h00

Nem só do niilismo de Bazárov vive a escrita de Ivan Turgueniev (1818-1883). Reflexo ou não do bicentenário de nascimento do escritor russo, celebrado por aqui no ano passado com uma discrição que parece fiel à sua poética de meios-tons, o fato é que o Brasil, aos poucos, vai descobrindo que sua obra vai além do icônico Pais e Filhos. Em 2018, houve o lançamento do Diário de um Homem Supérfluo, pela Editora 34, e a Boitempo planeja para este ano A Véspera. Agora, em edição de bolso da L&PM, com sólida tradução de Denise Sales, chega Ninho de Fidalgos, seu segundo romance. 

Do ponto de vista do refinamento e do apuro estilístico, Turgueniev talvez seja o mais requintado prosador russo do século 19. Amigo de Flaubert, e festejado por Henry James, teve seu talento reconhecido e reverenciado já em sua época, por seus pares. Sabe-se, por exemplo, que Tolstoi – com o qual ele teria uma relação intempestiva – anotou em seu diário: “Li as Memórias de um Caçador, de Turguêniev, e como é difícil escrever depois dele.” E Chekhov colocou na boca de Trigorin, o literato de A Gaivota, o seguinte epitáfio: “Aqui jaz Trigorin. Foi um bom escritor, mas não escrevia tão bem quanto Turgueniev.”

Ninho de Fidalgos é de 1859. Antes disso, o autor fizera sua sensacional estreia literária justamente com a coletânea de contos louvada por Tolstoi, Memórias de Um Caçador, de 1852; e redigira o primeiro romance, Rudin, tocante emblema da tragédia política e da falta de alternativas da Rússia sob o regime opressivo de Nicolau I, em 1856.

Publicado há 160 anos, Ninho de Fidalgos é, na definição do crítico americano Irving Howe (1920-1993), “o menos ideológico e também o mais belo de seus romances”. Narra a história de Lavrietski, fidalgo que retorna à Rússia após uma temporada em Paris, onde é traído pela esposa, e seu envolvimento com Liza, arquétipo feminino de pureza tão em voga na literatura russa do período. A história é emoldurada por descrições idílicas da natureza que ecoam as Memórias de Um Caçador, bem como exasperados arroubos políticos que poderiam integrar as páginas de Rudin, como o que Mikhalievich, amigo de Lavrietski, lança-lhe à cara: “Vocês sabem onde aperta o sapato dos alemães, sabem o que vai mal no reino dos ingleses e dos franceses, e esse lamentável conhecimento serve apenas de justificativa, ele justifica esta preguiça vergonhosa, esta desprezível falta de ação.”

Esse trecho parece justificar o que Howe diz em Turgueniev: A Política da Hesitação, capítulo do livro A Política e o Romance, em que o ensaísta reivindica que Ninho de Fidalgos deve ser lido como algo além de uma “tragédia pessoal, mais um dos agridoces contos de desilusão de Turgueniev”.

“Creio que Turgueniev está dizendo, de maneira sofisticada e indireta, que quando o intelectual russo volta para casa, tentando romper com o Ocidente que se tornou contaminado e voltando para as purezas remanescentes da Rússia, ele novamente se frustrará; sua experiência cosmopolita, da qual não pode se desfazer, o torna inadequado para a tarefa de tocar o coração da Rússia”, afirma Howe. “A tragédia particular de Lavrietski é, num certo nível de significado, a tragédia do liberalismo russo, a tragédia de uma política de ausência e saudades do lar”, conclui.

Turgueniev conta tudo isso de forma envolvente, manipulando nuanças e equilibrando as demandas do lirismo e do tempo dramático com uma maestria que fazem com que o livro pareça simplesmente grudado às mãos do leitor, sem querer se soltar antes da palavra final. Não faltam, ainda, frases lapidares, das que dá vontade de sair citando por aí, como: “O russo tem medo e por isso se afeiçoa rapidamente; entretanto, é difícil conquistar o seu respeito, que não vem logo, nem a qualquer um.” Ou, ainda, uma que soa como a melhor definição do pensamento político do escritor: “E seria possível exigir convicções de um jovem uns cinquenta anos atrás, sendo que nós, ainda hoje, não chegamos a tê-las?”

Quem encara o livro como fetiche não vai se empolgar muito com a espartana edição de bolso da L&PM. Sua capa desenxabida não deve garantir muitas curtidas ao ser compartilhada nas redes sociais. Sua lombada mirrada, analogamente, não se presta ao exibicionismo em estantes. Já o interessado no conteúdo do livro pode lamentar a ausência de qualquer posfácio ou prefácio; a rica trajetória de Denise Sales permitiria esperar um aparato crítico substancioso, que certamente iluminaria a leitura. Porém, se o critério for, simplesmente, a qualidade intrínseca do texto, não há do que reclamar: Ninho de Fidalgos é uma obra-prima, que se deixa desfrutar com imenso prazer. 

*IRINEU FRANCO PERPÉTUO É TRADUTOR E CRÍTICO

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