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Com o possível fim do DVD, jovens cineastas perdem referências

Irmãos Duff, autores de 'Stranger Things', e Sara Colangelo, premiada em Sundance, contam como os extras dos DVDs os ensinaram a filmar

Fabrice Robinet, The New York Times

14 Abril 2018 | 16h00

Na década de 2000, descobri um prazer oculto que me manteve ocupado quando eu tinha 20 anos: adquiri um entusiasmo insano por DVDs que traziam cenas adicionais além do filme original, como uma versão estendida do filme, os cortes feitos pelo diretor etc. Mas isso significava ouvir também os estranhos grunhidos de Hunter S. Thompson sobre comentários a respeito de Medo e Delírio (Fear and Loathing in Las Vegas) – experiência mais psicodélica do que o filme propriamente dito – ou então ver um corte extra de Amnésia (Memento), em que as sequências distorcidas no tempo são colocadas em ordem cronológica.

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Enquanto eu passava o tempo deitado no meu sofá, uma geração de jovens cineastas analisava detalhadamente essas cenas extras contidas nos DVDs para aprender mais sobre a profissão à qual aspiravam.

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Matt e Ross Duffer, criadores da série da Netflix Stranger Things, cresceram na Carolina do Norte, região muito distante dos estúdios de Hollywood, e como escreveram em um e-mail, “as cenas extras contidas nos DVDs eram a única maneira de adquirir a experiência de um set de filmagem – ver como a mágica de um filme era realizada”.

Vídeos dos bastidores do filme deram aos irmãos uma visão de dentro do processo de filmagem. Eles mencionaram os curta-metragens na edição de DVD ampliada de O Senhor dos Anéis, acompanhando Peter Jackson em todas as etapas da trilogia, da pré à pós-produção.

E isto me fez pensar: de que maneira, em 2018, um garoto da Carolina do Norte poderia seguir esse caminho? Com os DVDs se juntando aos cassetes em VHS como tecnologias extintas, no que se converteu essa miscelânea divertida e elucidativa que os fãs de cinema chamavam de “bonus features”? Eles consistiam de comentários em áudio, cenas de bastidores, erros divertidos, breves documentários dos bastidores, cenas apagadas e finais alternativos de um filme.

Algumas dessas cenas adicionais mudaram para as lojas digitais e plataformas de streaming. Mas os cinéfilos não conseguem acessá-las tão facilmente como quando videolocadoras prosperavam em cada bairro.

Recentemente cruzei com Rafael Perez, ex-proprietário da Mister Video III, no Brooklyn, Nova York, videolocadora hoje fechada. Ele me disse que os fãs vão acabar se cansando de explorar a Internet para analisar um filme e começarão a procurar cópias antigas, como ocorre hoje com o vinil, que foi ressuscitado.

“Há tantas coisas diferentes que você pode encontrar nesse pequenino disco”, disse Perez, que guardou consigo mais de mil DVDs do antigo estoque de sua locadora. “Às vezes as coisas têm de desaparecer para as pessoas sentirem falta delas”, acrescentou.

Sara Colangelo, que conquistou o prêmio de direção no Sundance Film Festival deste ano, tem saudades dos tempos em que estudava cinema na Universidade de Nova York e que passava vasculhando as prateleiras, em busca de DVDs japoneses raros, na Kim’s Video & Music, em East Village, fechada em 2014.

“Nós, alunos, fazíamos debates sobre os comentários do diretor”, disse ela. Era reconfortante ouvir diretores famosos relatando suas próprias dificuldades, como Francis Ford Coppola, quando se referiu à caótica filmagem de Apocalipse Now.

Mas a Netflix, que adquiriu os direitos de The Kindergarten Teacher, de Sara Colangelo, não deverá incluir as cenas extras da filmagem quando lançar o filme.

Como muitos serviços de streaming por assinatura, a Netflix produz pouco conteúdo adicional. Assim, os jovens cineastas hoje não têm mais a chance de aprender com as experiências e atribulações que Colangelo viveu quando ela produziu seu filme.

As primeiras apresentações de cenas adicionais eram documentários dos bastidores, que ficaram populares no final dos anos 1970 com a ascensão dos blockbusters.

Curtas como The Making of Star Wars, em 1977, e The Making of Thriller, em 1983, definiram esse critério de padrão de dissecar os efeitos especiais do gênero, visitas ao setor de maquiagem e entrevistas exclusivas. Mas foi somente quando o DVD dominou o mercado de vídeo doméstico, na década de 1990, que os estúdios começaram a encarar esse conteúdo extra como uma oportunidade de aumentar as vendas.

Segundo Patrick Brereton, autor de Smart Cinem:DVD, Add-Ons and New Audience Pleasures (Cinema Inteligente: DVD, Extras e Novos Prazeres do Público), os estúdios começaram a adicionar esse conteúdo extra como um chamariz de venda quando relançaram seus clássicos. “Por exemplo, alguns DVDs de filmes antigos de John Wayne continham anúncios de cigarros dos anos 1950”, disse. Mas quando as vendas de DVD despencaram nos anos 2000, muita gente no setor achava que os grandes estúdios reduziriam o dinheiro gasto para produzir esse conteúdo adicional.

Hoje, com muitas videolocadoras fechadas, esse conteúdo também está indisponível, tanto no campo físico como no digital. No iTunes Extras, lançado em 2014, os “bonus features” são acessíveis apenas para clientes.

O FilmStruck, um serviço de streaming de nicho que exibe filmes “cult” e clássicos, dá acesso a muito conteúdo adicional. “É a única plataforma de streaming que conheço que permite mudar rapidamente da trilha sonora de um filme para os comentários em áudio”, disse Peter Backer, presidente da Criterion Collection, sócia da Film Struck, junto com a Turner Classic Movies.

Mas até os cinéfilos podem oferecer resistência. Greg Oxenberg, um estudante de cinema na Universidade de Nova York, disse que ama os títulos da Criterion, mas não era atraído pelo streaming. “Eu uso a Biblioteca Pública de Nova York, porque você pode pedir os DVDs que está buscando pela internet”, disse o autointitulado nerd de cinema, que dos comentários de diretores dissecando as obras para estudar.

Jonathan Foster, 36 anos, roteirista iniciante, disse apreciar muito esse conteúdo extra, mas deixou de comprar DVDs por razões financeiras. Para analisar algum filme, hoje ele recorre a websites como o Playlist, o IMDb ou o RogerEbert.com. “Mas não é tão conveniente como ter tudo no disco e assisti-lo”, admitiu.

O comentário feito por ele me deixou melancólico sobre o tempo que passei na Mister Video III. E, pensei, talvez os DVDs guardados no porão de Perez pudessem compensar.

Porém no momento, do mesmo modo que a videolocadora de Perez – e meus 20 anos improdutivos – a impressão que fica é de que o acesso, pagando pouco, a horas de análise de um filme feita por um diretor, ficou no passado. / Tradução de Terezinha Martino 

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