Estadão Acervo
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Com 'Paradeiro', crítico literário Luís Bueno estreia no romance

Livro mistura literatura epistolar com elementos de metalinguagem

Ieda Lebensztayn*, Especial para o Estado

30 de março de 2019 | 16h00

Para saber se um escrito é bom, basta relê-lo e ver se a admiração resiste sob estados diversos – dor de dentes, calor, frio, fome, alegria, ciúme. Tal critério, espirituoso e consistente, empresto de Graciliano Ramos, membro de diversos júris literários no fim dos anos 1930. Justamente seu “romance desmontável” Vidas Secas, retomando aqui a expressão de Rubem Braga, figura como desencadeador da crise central do romance de estreia do crítico, historiador literário e professor Luís Bueno. Uma História do Romance de 30 e Capas de Santa Rosa, obras desse pesquisador apaixonado pelas nossas letras, constituem bagagens fecundas rumo ao recém-lançado Paradeiro, romance também singularmente desmontável, que intercala os passos de três histórias paralelas, amarradas por impasses entre as limitações da realidade e a vontade de compreendê-las e de viver.

Imagine-se tuberculoso aos 23 anos, obrigado a internar-se para tratamento em São José dos Campos, em 1938. Se o quadro é aterrador, por outro lado você dispõe de tempo para escrever cartas e, sendo um crítico literário, tem a honra de contar com a amizade de Graciliano Ramos, Mário de Andrade, Octavio de Faria, Carlos Lacerda, Moacyr Werneck de Castro, Murilo Miranda. Esse é o perfil de Pedro Marques, um dos protagonistas de Paradeiro, cuja história conhecemos por meio de cartas que ele endereça a esses intelectuais. 

Com a garra do crítico literário cedendo voz à do ficcionista, Luís Bueno conhece e nutre os estudos de epistolografia, ao oferecer aos leitores, a partir da criação de cartas, a biografia do personagem Pedro e as faces do contexto histórico e intelectual dos anos 1930 e 40. Presentificando o debate da época sobre as vertentes sociais e introspectivas do romance brasileiro, embora respeitando o diferente e partilhando reflexões sobre ética e arte, a rica escrita epistolar de Pedro ao mesmo tempo acompanha sua experiência com a doença, para cuja cura a literatura é decisiva.

Ao agradecer a Graciliano a remessa do recém-publicado Vidas Secas, Pedro destaca a vontade de viver de Fabiano e família, apesar da miséria a que estão submetidos: abala-o em sua acomodação de intelectual tuberculoso, dono de totais condições de tratar-se. A força de Vidas Secas impele-o a escrever ao médico, e a resposta do dr. Nélson D’Ávila desperta comoção e ímpeto de cura no paciente e nos leitores, ao evidenciar no médico um antigo doente, vítima da injustiça, depois redimida, de um industrial que o julgou mercenário. É o “fator econômico”, cobrado por Graciliano, presente em Paradeiro. Ele sobressai também na (auto)ironia do poeta Hag, o operário do grupo de interessados em literatura com que Pedro se depara em São José depois da crucial conversa com o médico: Hag gosta da tuberculose porque, democrática, ela pega “tanto um ricaço feito o senhor como um pé-rapado como eu”. 

E o feliz contato de Pedro com tal grupo o leva a esta inquietação fundamental: Quantos talentos se perdem num país de iniquidades e analfabetismo? O que garante a primazia da elite intelectual para além do privilégio econômico? 

Se conhecemos Pedro aos poucos, o mesmo se dá com as duas narrativas entremeadas à dele. Bibiana, que perdeu um filho tuberculoso em São José, é uma portuguesa trazida criança ao Brasil: a mãe pobre a abandonou ou a tia a arrancou da terra natal e a fez casar-se aos treze anos com o amante dela? O delírio da mulher aos 81 anos lembra o de Angústia, de Graciliano: com sua sede de entender os gestos alheios e os próprios, apontando e relativizando culpas, a morta-viva brasileira-portuguesa embaralha presente e passado, paralisando em loucura o futuro. Elaborada por Luís Bueno, sua sintaxe sem pontuação tem lógica: a revolta contra a hipocrisia das convenções. 

Também a outra protagonista, que busca o suicídio na Dutra, quer viver. Persegue-a o cheiro do câncer que a consome, atuante embora invisível, como as obrigações que ela cumpriu a vida toda para os outros. Silenciosa e gritante, sua dor aponta a de muitos, essenciais como explorados e invisíveis. E a fome de quem saiu sem carteira para matar-se? Como roubar ou pedir um pão? Não dizer seu paradeiro é pré-morrer, mas há a família.

Composição brilhante, o livro combina escrita epistolar e reflexão metalinguística sobre o paradeiro do romance brasileiro com a configuração de várias faces da angústia existencial e da revolta contra a exploração. Retomando, pois, o critério do jurado Graciliano, não faltam doenças sociais que sejam ocasião para se apreciar o original e denso Paradeiro, convite para ler, compreender as vozes pessoais e resistir às incongruências da realidade com vontade de viver. Em terra de estagnação, sem sentido e cheia de sentidos, qual Paradeiro, a literatura bem poderia atingir todas as classes, significando as dores e a cura, sobrevida clássica.

*IEDA LEBENSZTAYN É CRÍTICA LITERÁRIA, COM PÓS-DOUTORADO NA USP. AUTORA DE ‘GRACILIANO RAMOS E A NOVIDADE: O ASTRÔNOMO DO INFERNO E OS MENINOS IMPOSSÍVEIS’

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