Christiane Bühling-Schultz
Christiane Bühling-Schultz

Como a arte da Alemanha Oriental escapava da censura

Nos 30 anos da queda do Muro de Berlim, artistas da Alemanha Oriental voltam a chamar atenção

Redação, The Economist

09 de novembro de 2019 | 16h00

Uma nova tendência varreu a cena artística subterrânea da Alemanha Oriental nos anos 1980: persianas. Chamadas de “rollos” em alemão, as persianas comerciais dobráveis foram um sucesso instantâneo como alternativa às telas tradicionais. Elas eram baratas e disponíveis, algo considerado importante em uma economia socialista com poucos recursos. Eram visualmente interessantes e divertidas de pintar. E, crucialmente, eram perfeitas para escapar dos censores.

Artistas pintavam nas rollos, depois as desdobravam, em espetáculos espontâneos de grupos em igrejas ou casas. Então eles as guardaram novamente antes que as autoridades pudessem intervir. Depois que o Muro de Berlim caiu, em novembro de 1989, o frágil material permaneceu popular, capturando, como parecia, o espírito de revolta e transitoriedade. Alguns artistas guardaram rollos em branco, utilizando-as muito depois que a República Democrática Alemã (RDA) acabou.

A arte rollo é uma das muitas ousadas experiências criativas que desmentem a reputação da RDA como um deserto de austero realismo socialista. Há muito tempo ridicularizado como a propaganda obsoleta de um estado em colapso, a arte da era da RDA agora passa por um renascimento. Várias exposições importantes a apresentaram a um público mais amplo; os preços de obras de alguns artistas já estão em alta. Juntamente com os nomes que já eram celebrados na era socialista, aspectos menos conhecidos do legado criativo da antiga Alemanha Oriental estão conquistando atenção tardiamente. Ajuda o fato de os rebeldes da RDA, especialmente suas artistas, abordarem questões que continuam relevantes: vigilância, desigualdade de gênero, autodescoberta e libertação sexual. Suas pinturas, performances, gravuras, colagens e textos subversivos e muitas vezes divertidas não perderam nada de seu poder provocador.

“Fazer arte nós mesmas, isso foi uma tábua de salvação”, diz Gabriele Stötzer, uma das mais radicais escritoras e artistas da RDA, em sua casa na cidade de Erfurt, na Alemanha Oriental. “A arte precisa de um público, e nós éramos no mínimo o nosso próprio público.” Quando jovem, Stötzer foi presa por assinar uma petição em apoio a Wolf Biermann, um cantor dissidente. Após sua libertação, ela diz, não tinha mais medo de nada. Ela dirigia uma galeria subterrânea, que foi fechada pela Stasi, o serviço de inteligência da Alemanha Oriental. Ao seu redor, viu seus colegas artistas serem silenciados, exilados, levados à depressão ou ao suicídio. Por meio da arte, lembrou a si mesma que ela existia. Fez suas próprias roupas e seus próprios pratos e xícaras. Ela se cobriu com ketchup e pressionou-se contra a parede, “só para deixar um rastro, só para mostrar que estou aqui”.

Juntamente com outras mulheres, ela fez experimentos com filmes, fotografia, performances, livros sobre concertinas e as rollos. Em 1989, ela ajudou a invadir a sede local da Stasi em Erfurt, impedindo que seus camaradas destruíssem arquivos de vigilância. Ela conhecia o edifício, tendo sido mantida em confinamento solitário e interrogada ali. “Hoje em dia tenho me reabilitado um pouco”, diz Stötzer ironicamente. “Como artista, agora tenho uma mostra após a outra.”

Para muitos, esse reconhecimento demorou muito tempo. Depois que a Alemanha se reunificou, em 1990, não foram apenas os artistas apoiados pelo Estado na RDA que se viram à deriva. Muitos espíritos alternativos também lutaram para se adaptar ao competitivo mercado de arte individualista do Ocidente. “Eles pensaram: ‘Agora chegou a nossa vez’. Mas ninguém estava interessado nesses artistas”, diz Hilke Wagner, diretor do museu Albertinum em Dresden. O Albertinum recebeu as exposições de arte oficiais da RDA e colecionou artistas consagrados. Um museu sempre comprou arte de vanguarda da Alemanha Oriental antes e depois da queda do Muro: o Museu de Arte Moderna do Estado de Brandemburgo (BLMK), que possui instalações em Cottbus e Frankfurt an der Oder. Aqui, nas cidades provinciais próximas à fronteira polonesa, nas margens políticas e culturais, os curadores eram mais livres.

Agora Brandenburgo está colhendo as recompensas de guardar tesouros que outros negligenciaram. “Eu nem quero colocar esse rótulo de RDA em tudo. Nós vemos isso como arte”, diz Ulrike Kremeier, diretor do BLMK. Em um tour recente a um de seus edifícios, o Dieselkraftwerk em Cottbus, ela orgulhosamente gesticulou em salas cheias de rollos grandes e vibrantes. Quatro de Angela Hampel mostram uma sequência de mulheres em queda. Outra, de Sabine Herrmann, mostra uma mulher ajoelhada e inclinando a cabeça como se fosse sacudir os cabelos. O museu possui uma coleção única de fotografias da era da RDA, bem como seu acervo de rollos. Ele comprou pinturas antigas de A.R. Penck e Neo Rauch, atualmente conhecidos em todo o mundo, e obras de mulheres como Stötzer, Cornelia Schleime, Doris Ziegler e Sigrid Noack.

Muros têm olhos. Hoje em dia, instituições ostentativas tomam emprestado parte desse tesouro. Os trabalhos de Stötzer estão emprestados à Galerie für Zeitgenössische Kunst, em Leipzig. Outras peças serão mostradas em uma exposição no Albertinum no próximo ano. As notícias também se espalharam para bem mais longe. Em 2018, uma equipe do Museu de Arte Moderna de Nova York visitou Cottbus para estudar a coleção. Mulheres, artistas de países por trás da Cortina de Ferro, incluindo a RDA, estão no centro de uma exposição no Museu Wende, em Culver City, Califórnia, que abre hoje (10 de novembro, um dia após a queda do Muro). Susanne Altmann, a curadora, diz que essas mulheres assumiram riscos estéticos e políticos: “Pintar em filme, pintar em fotos, pintar em rollos, todas essas são transgressões estéticas que exigiram muita coragem”.

O trabalho resultante reflete as circunstâncias repressivas de sua criação. Quando Schleime foi proibida de exibir suas pinturas e desenhos, ela se voltou para a arte performática, usando o próprio corpo como material. Ela se despiu e pintou olhos em si mesma. Ela se enrolou em arame. “Você não pode arrancar um corpo de uma parede”, comentou, “da mesma forma que os oficiais chegaram arrancar um desenho meu”. Um certo pragmatismo também é característico da época. Christine Schlegel, cuja característica colorida das Rollos estão no Museu Wende, inicialmente começou a pintar as persianas para dar vida ao quarto de seu filho, diz Altmann. Quando ela partiu para o Ocidente, levou suas rollos com ela.

No entanto, apesar desse contexto histórico passado, muitos desses trabalhos parecem surpreendentemente oportunos. Uma foto de Schleime coberta com olhos pintados pode ser um comentário sobre privacidade e exposição na era da internet. Annemirl Bauer, Sem Título (Mulher e Criança Atrás de Grades e Arame Farpado), pintada em uma porta de um guarda-roupa descartado em 1985, é uma reminiscência de imagens dos últimos dias de famílias migrantes detidas na fronteira americana. Em Cottbus, a fotografia experimental da década de 1980 foi justaposta recentemente com uma nova série de fotos de ex-neonazistas que tiveram suas tatuagens removidas.

Os artistas rebeldes da RDA não mostram sinais de se aquietar. Uma persiana rollo que Hampel pintou em 2010 apresenta uma mulher ruiva e desafiadora estendendo a mão como se quisesse alertar o espectador. Décadas após a reunificação, ela continuou pintando nas persianas. Ela não precisava mais levar a melhor sobre os censores; ela simplesmente gostava das rollos, objetos do cotidiano que podiam ser transformados em arte. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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