Mike Bink/Rembrandt House Museum
Mike Bink/Rembrandt House Museum

Como a arte holandesa do século 17 retratou os negros

Exposição em Amsterdã mostra que a era de ouro da pintura no país não foi uma arte apenas para brancos

Nina Siegal, The New York Times

21 de março de 2020 | 16h00

AMSTERDÃ - O quadro Dois Negros, pintado por Rembrandt em 1661 é uma das obras mais inescrutáveis do antigo mestre holandês. Um homem, trajando vestes ao estilo romano com um xale, parece fazer um discurso, enquanto outro se apoia no ombro deste, atento. A tela foi pintada com finas camadas de tons de terra e parece inacabada, mas traz a assinatura do artista. Por que Rembrandt a pintou, e quem eram os retratados? Essas eram algumas das perguntas que Stephanie Archangel fez em 2015 quando ficou algum tempo contemplando a tela no museu Mauritshuis, em Haia.

Formada em sociologia, ela procurava nos quadros “negros nos quais eu pudesse me reconhecer", disse Stephanie, nascida e criada em Curaçao, ilha caribenha que já foi colônia holandesa. Descrita no site do Mauritshuis como provável retrato de “homens livres que viviam em Amsterdã", a tela de Rembrandt parecia “humana e digna", disse Stephanie.

“Foi a primeira vez que vi negros do século 17 pintados por um mestre holandês, olhando para mim orgulhosamente", disse Stephanie, que agora trabalha como assistente da curadoria do Rijksmuseum. “Indaguei-me se isso seria mesmo verdade, ou se era apenas minha imaginação, ou minha esperança de encontrar uma representação orgulhosa como essa.”

Na época, Stephanie trabalhava no departamento de ensino do Museu Casa de Rembrandt, em Amsterdã. Entrou em contato com um membro da curadoria, Elmer Kolfin, também professor de arte na Universidade de Amsterdã, para perguntar se havia mais imagens como aquela produzidas na era de ouro da pintura holandesa. Ele respondeu que na verdade havia muitas, mas estas frequentemente eram ignoradas.

Foi daí que nasceu a exposição atualmente em cartaz na Casa de Rembrandt, HERE: Black in Rembrandt’s Time (AQUI: De volta à época de Rembrandt), resultado de um processo de pesquisa e investigação realizado por Stephanie, Kolfin e seus colegas do museu ao longo de quatro anos.

A exposição conta com 56 telas, impressões e objetos de arte da era de ouro holandesa, incluindo sete de Rembrandt (mas “Dois negros", que inspirou a exposição, não está entre elas; uma das condições da sua doação é jamais deixar a Mauritshuis). Além disso, a exposição inclui 15 obras de arte contemporâneas ligadas ao mesmo tema.

HERE: Black in Rembrandt’s Time é parte de uma mudança cultural paradigmática nos Países Baixos, onde a era de ouro holandesa é frequentemente associada aos feitos - e retratos - de uma elite branca e majoritariamente masculina do século 17. Essa chamada descolonização dos museus não é um movimento adotado por todos, mas, para aqueles que não viram sua história refletida nas exposições dos museus, a ideia parece um passo na direção certa.

Stephanie disse que o foco da exposição são as imagens que representam “os muitos papéis diferentes desempenhados pelos negros na sociedade, e os muitos papéis diferentes que eles desempenhavam nas pinturas para os artistas". De acordo com ela, “A exposição retrata mais do que aquilo que já sabíamos, com imagens que geralmente mostravam servos e escravos".

No século 17, os Países Baixos estavam muito envolvidos no comércio internacional de escravos, mas a escravidão era proibida em solo holandês. Os descendentes de africanos que viviam nos Países Baixos na época traziam famílias de imigrantes, disse o historiador Mark Ponte, do Arquivo Municipal de Amsterdã, principal pesquisador da exposição da Casa de Rembrandt.

Ponte e os curadores disseram que desejavam ligar os moradores negros do bairro em que Rembrandt vivia às imagens criadas pelo artista. No total, Rembrandt produziu pelo menos 26 imagens de negros, de acordo com a contagem de Kolfin (12 pinturas, oito gravuras e seis desenhos), e a maioria delas provavelmente foi feita a partir de seus vizinhos, seja posando para ele ou durante uma observação casual nas ruas.

“Os artistas holandeses gostam de pintar aquilo que está na sua frente", disse Kolfin. Entre as décadas de 1620 e 1660, foi notável o aumento da presença de negros em Amsterdã, acrescentou ele, como revelado pela pesquisa de Ponte. “Mas é impossível ligar os nomes aos rostos, o que é muito frustrante", acrescentou Kolfin.

É claro que Rembrandt não era o único mestre antigo que pintava negros. Milhares de imagens da diáspora africana na arte europeia, que remontam ao período da antiguidade, estão relacionadas na série de livros The Image of the Black in Western Art (A imagem do negro na arte ocidental), em 10 volumes, iniciada nos anos 1960 e atualmente publicada pela Harvard University Press.

Os negros podem ser encontrados “em um número considerável de imagens do século 17", disse Kolfin. “No entanto, sempre são menores, ou estão posicionados perto do fundo, ou do canto, sempre em papel coadjuvante.” Quando um pintor tinha em um negro a figura central de uma tela, este era habitualmente retratado como personagem bíblico, como Gaspar (um dos três reis magos), ou como eunuco.

A exposição também inclui os três únicos retratos de negros encomendados a um pintor holandês do século 17, de acordo com Kolfin. São telas de tinta a óleo de Jasper Beckx, mostrando o Emissário do Congo, Don Miguel de Castro, e seus dois servos, Pedro Sunda and Diego Bemba.

Castro, que trabalhava para o Rei do Congo, não era tão “digno” quanto Stephanie esperava. Durante uma negociação no Brasil, ele comprou 200 escravos como presente aos holandeses, destacou ela.

De acordo com Stephanie, é uma situação irônica. Quando temos um retratado “de rosto e nome definidos", disse ela, “o resultado é quase doloroso".

Independentemente disso, ela ficou feliz ao ver tantas imagens da época. “Depois que começamos a procurá-las, encontramos muitas delas", disse. “Há escolhas que fizemos e empréstimos que recebemos, e havia muito mais obras às quais pedimos acesso, mas não o conseguimos. Havia um universo de imagens muito maior do que eu supunha ao começar a pesquisa.”

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