Paramount Pictures
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Como a China está transformando filmes americanos em propaganda

Filmes censuram críticas ao governo chinês e chegam a alterar cenas em troca de acesso a um mercado de 1,4 bilhão de espectadores

Sonny Bunch*, The Washington Post

29 de agosto de 2020 | 16h00

A cada seis meses ou mais, os americanos recebem um lembrete de quanta influência a China exerce sobre nossa cultura popular. A bandeira de Taiwan é removida da jaqueta de Tom Cruise em Top Gun: Maverick. A Marvel realiza seu truque sinistro para fazer um personagem tibetano de Doutor Estranho desaparecer. Michael Bay faz o papel de camarada do partido Comunista em Transformers: A Era da Extinção.

Às vezes, essas histórias têm um fim feliz, como quando Quentin Tarantino se recusou a editar cenas de Era uma vez... em Hollywood. De modo geral, porém, o partido Comunista consegue o que quer. Mas James Tager, autor do novo relatório da PEN America a respeito do poder cultural da China, observou recentemente em um podcast que os americanos tendem a se irritar um pouco com essas histórias e a esquecê-las em seguida. Já passou da hora de acabarmos com essa memória de peixinho dourado. Devemos deixar claro quais filmes foram feitos com investimento chinês e influenciados pela censura chinesa, para que os americanos reconheçam propaganda quando a virem.

Como Tager observou em nossa conversa e em seu relatório, a censura é mais sofisticada do que o estado simplesmente usando tesouras para cortar partes de rolos de filme  — ou removendo quadros digitais de arquivos enormes  — depois que um filme já foi rodado e editado. Esforços massivos, como a decisão da MGM de transformar digitalmente os vilões do remake de Amanhecer Violento de 2012 em norte-coreanos em vez de chineses, são raros. Em primeiro lugar, é o que nunca é feito  — e as ideias que são inseridas nos filmes durante a pré-produção — que são ainda mais preocupantes.

“Com o tempo, roteiristas e idealizadores nem mesmo concebem ideias, histórias ou personagens que infringem as regras, porque não há por que fazer isso”, escreveu Tager. "As ortodoxias pressionam imperceptivelmente e os parâmetros da imaginação são permanentemente limitados."

Como explica Tager, fazer e lançar um filme em Hollywood não é fácil, mesmo sem levar em conta os mercados estrangeiros. Mas, mesmo antes de a pandemia deixar os cinemas americanos em um limbo infinito, o público chinês tornou-se cada vez mais importante para os estúdios dos Estados Unidos.

O governo chinês tem uma cota de filmes estrangeiros que podem ser lançados todos os anos, e a competição por esses slots é tão acirrada que os estúdios evitam todo e qualquer erro potencial por medo de perder sua chance. Um grande filme de estúdio como Justiça Vermelha, thriller com Richard Gere de 1997 a respeito de um empresário acusado de assassinato pelo partido Comunista, é inimaginável hoje, muito menos um filme que homenageia ativistas pró-democracia em Hong Kong ou destaca os males da política contra os campos de contração de Uighur. Nenhum estúdio ousaria se arriscar a perder toda a possibilidade de ser exibido para 1,4 bilhão de clientes chineses. Seria suicídio comercial.

Essa dinâmica não apenas afasta as novas ideias dos consumidores chineses. Mas permitiu que um Estado-nação autoritário inserisse sua própria propaganda nos filmes americanos.

Considere o filme Looper: Assassinos do Futuro de Rian Johnson, que Chris Fenton discute em Feeding the Dragon(Alimentando o dragão, em tradução livre), seu novo livro sobre a cultura da China e dos Estados Unidos.

Fenton passou anos sendo pioneiro nos esforços de coprodução que formaram parcerias com empresas chinesas e americanas para ajudar os estúdios a contornar o sistema de cotas e manter uma fatia maior da bilheteria chinesa. Mas esses acordos vinham com todos os tipos de requisitos extras: escalar atores chineses, filmar em locações chinesas e esforços para acalmar os censores chineses.

Para Looper: Assassinos do Futuro  — sobre um assassino que viaja no tempo para impedir o nascimento de um chefão do crime — Fenton e sua equipe persuadiram o diretor Johnson a alterar seu roteiro substancialmente, fazendo com que as cenas que se passariam nos Estados Unidos e na França mudassem para Estados Unidos e Xangai. Várias cenas foram filmadas especificamente para uma versão chinesa do filme. Mas a coisa mais complicada foi contornar a proibição de tramas de viagens no tempo em filmes, que as autoridades chinesas dizem "desrespeitar a história". Na realidade, as autoridades chinesas temem o uso de viagens no tempo como uma forma de comentar os assuntos atuais. Como Fenton e Johnson evitaram essa armadilha? Bajulando os chineses, é claro.

"Eles mostraram uma poderosa China do futuro no filme", disse Fenton a um executivo do cinema ao tentar convencê-lo a trabalhar com os chineses. “Era música para os ouvidos do Politburo e uma delícia para os funcionários municipais do partido Comunista em Xangai ... A China era poderosa e o centro do mundo em Looper: Assassinos do Futuro. "

Assisti novamente a Looper: Assassinos do Futuro depois de ler essa passagem no livro de Fenton. Continua a ser um filme solidamente divertido e visualmente elegante que traz algumas das melhores coisas de O Exterminador do Futuro, De Volta para o Futuro e Akira, enquanto ainda consegue parecer original.

Ainda assim, o talento cinematográfico de Johnson e a habilidade de Jeff Daniels como ator tornam as inserções ainda mais traiçoeiras porque não se destacam. Quando Abe, um chefão do crime do futuro interpretado por Daniels, diz a um jovem assassino, "Eu sou do futuro: você deveria ir para a China", o espectador comum não percebe que está sendo propagandeado. Ele não percebe que essa fala é uma grande vitória para o governo chinês, um esforço para aumentar o status de um regime autoritário no país e no exterior.

Estamos oito anos mais próximos desse futuro agora. Quando Johnson faz com que um de seus personagens exalte o futuro chinês, ele provavelmente não imaginava que estaria exaltando um futuro de repressão violenta e campos de concentração para minorias religiosas. Mas esse é o perigo que vem com o xelim para uma autocracia.

Fenton escreve que está agindo no melhor interesse de ambos os países como uma espécie de embaixador cultural, tentando evitar uma perigosa guerra fria. Ele entrega o jogo no epílogo, porém, quando reconhece os bilhões de dólares que podem ser ganhos jogando o jogo de acordo com as regras da China. Não é de se admirar que figuras culturais como o astro da NBA e aspirante a magnata do cinema LeBron James calem a boca e façam dribles [para não tocar no tema] enquanto atrocidades continuam a acontecer na China, mesmo quando falam abertamente em relação à política nos Estados Unidos. Os cálculos são diferentes. As recompensas financeiras são as mesmas.

Mais assustador e cínico é o que Fenton afirma um pouco depois: "Pior ainda, o preço de cruzar a lacuna cultural na direção errada pode ser catastrófico - pense em homens armados islâmicos matando editores de Charlie Hebdo, ou os tumultos após um desenho animado dinamarquês de Maomé com uma bomba em seu turbante. Navegar nessas divisões requer consideração cuidadosa e um guia. "

Sublinhei essa passagem em seu livro e, com raiva, acrescentei um palavrão. Isso demonstra o que Fenton e aqueles que defendem uma maior "abertura" com a China e regimes semelhantes estão dispostos a tolerar em troca do dinheiro que ganham lá. Eles vão ter censura. Eles querem que os artistas evitem criticar certos grupos ou nações poderosas. Eles estão dispostos a tratar a violência assassina e a guerra econômica como uma oportunidade de negócios.

O mais importante, porém, é que esses artistas estão custando "bilhões" a pessoas atenciosas como Fenton e as corporações para as quais ele trabalha. Se esses executivos estão dispostos a vender as artes e nossos artistas para aplacar os censores estrangeiros, pouco se pode fazer a respeito. Durante nosso bate-papo, Tager sugeriu que talvez fosse hora de neutralizar o efeito peixinho dourado, fixando um rótulo permanente ao início de qualquer filme que aceite investimento chinês  — e, portanto, censura chinesa — para servir como uma espécie de advertência. A Motion Picture Association (MPA) já possui um mecanismo para levar esses avisos: praticamente todos os filmes lançados nos cinemas vêm com uma classificação da MPA, que informa o público quanto a males como "conteúdo sexual" e "tabagismo histórico".

Seria muito problemático avisar ao público americano que seu entretenimento está se tornando uma agitprop chinesa?

*Sonny Bunch é o editor-chefe do Cinestate.com e coapresentador do podcast Sub-Beacon.

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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