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Como a Disney moldou a percepção de princesas no imaginário infantil

A ideia de crianças de diversos países sobre princesas não foge do estereótipo ariano difundido pelas produções da empresa

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2019 | 16h00

Descobri recentemente que o Brasil não se distingue da Suécia apenas no que é óbvio ou mensurável, como os indicadores sociais e econômicos, mas também pela maneira como percebemos e abordamos o universo de Walt Disney. Enquanto no Brasil a ministra Damares Alves encucava com as supostas preferências sexuais da rainha Elsa, no musical de animação Frozen, lá na Suécia uma jovem socióloga da Universidade de Karlstad, chamada Charu Uppal, divulgava uma pesquisa sobre algo mais palpável e consequente envolvendo as princesas disneyanas. 

Faz todo sentido que no Brasil, com seu raquítico PIB (emagreceu mais 0,2% entre janeiro e março), seus vexaminosos índices de analfabetismo, desenvolvimento humano, consumo de livros e qualidade de ensino, pensem e digam muita besteira e na Suécia, o país mais inovador da Europa, com ensino gratuito e 0,1% de analfabetos, alguém escolha examinar a predominância de princesas brancas e ocidentais no imaginário da Disney e os efeitos perversos desse estereótipo sobre as meninas de países tão diversos quanto a China, a Índia e as ilhas Fiji. 

Não é de hoje que pais e acadêmicos se incomodam com as princesas da Disney por sua excessiva dependência da beleza física e do braço forte de um homem. Com o presumido lesbianismo da rainha Elsa só a nossa delirante ministra-pastora gratuitamente implicou. Já as conclusões da socióloga sueca, envolvendo o supremacismo branco e o complexo de vira-lata, repercutem na Europa e nos EUA desde março, quando a revista Social Sciences as divulgou.

Nove anos atrás, Charu Uppal pediu a 140 garotas americanas, suecas, chinesas, indianas e fijianas, entre 8 e 15 anos, que lhe descrevessem, e depois desenhassem, uma princesa. Mesmo sem mencionar Disney, recebeu de volta descrições e desenhos de cinderelas, belas adormecidas, pequenas sereias, numa proporção de quase 100%. Na percepção das meninas, inclusive ou sobretudo das chinesas, indianas e fijianas, princesa só pode ser branca, bonita e vestir roupas ocidentais, nunca um sári ou qualquer outro traje típico árabe ou oriental. Nem a persa Sherazade impôs sua morenice nesse harém ariano.

“Os EUA, país sem realeza, colonizou a imaginação das crianças com um estereótipo que a própria Disney tentou diversificar, nos últimos tempos, com a entronização de princesas de pele bronzeada, como Jasmine, Mulan, Pocahontas, Moana e Tiana”, observou Rebecca Hains, autora de um ensaio sobre a obsessão das americanas pela realeza europeia, acrescentando: “Porém sem sucesso, a julgar pela pesquisa de Charu Uppal, feita quando Jasmine e Mulan já eram conhecidas de boa parte das meninas consultadas.” 

Talvez ainda seja prematuro apostar que a imagem de Meghan, a duquesa de Sussex cor de canela, irá sobrepor-se ao padrão nórdico-celta congelado pela Disney e favorecido pelo viralatismo da periferia. 

Quanto ao alerta homofóbico da ministra bolsonarista, fora daqui ninguém tomou conhecimento. E olha que qualquer polêmica em torno da Disney costuma repercutir ao som de tambores e trombetas. Especialmente as de natureza sexual, como aquela imperceptível ereção notada por alguns espectadores depravados em A Pequena Sereia, a sugestão para “tirar a roupa” que o príncipe de Aladin teria sussurrado ao ouvido de Jasmine, e a nuvem com as letras S-E-X passando por cima de Simba, em O Rei Leão, lobrigada por mais de uma Damares americana.

Nenhuma dessas controvérsias se compara à que a dupla Ariel Dorfman-Armand Mattelart semeou há quase 50 anos, com um livrinho de 135 páginas (na tradução brasileira, da Paz e Terra), intitulado Para Ler o Pato Donald, originalmente editado no Chile e hoje só à venda em sebos.

Dorfman, argentino de nascimento e há tempos radicado nos EUA, onde dá aulas na Universidade de Duke, na Carolina do Norte, e o sociólogo belga Mattelart dissecaram o mais célebre e irascível pato do planeta, apresentando-o como um agente do imperialismo cultural americano, cujas histórias, presumidamente inocentes e apolíticas, eram um prodígio de preconceitos racistas, classistas e sexistas. 

A dupla submeteu-as a um close reading e nelas detectou um estímulo sistemático ao dinheiro, à ganância, à avareza (paradigmaticamente encarnada pelo Tio Patinhas), à competição desvairada, a interesses mesquinhos, a ambições profissionais mediocrizantes, ao paternalismo, à obediência inquestionada e a um modelo impraticável de sucesso e afluência consumista. 

Influenciado por Umberto Eco, não é um tratado semiótico, árido, acadêmico, mas um ensaio ágil e divertido, bolado durante o governo de Salvador Allende, em que Dorfman e Mattelart atuaram como consultores culturais –ou “agentes do marxismo cultural”, na provável avaliação de nosso atual ministro da Educação. Proibi-lo, confiscá-lo e incinerá-lo, diante das câmeras de TV, foi uma das primeiras providências da ditadura militar instalada no Chile, em setembro de 1973, sob o comando do general Augusto Pinochet. 

Antes que o ditador assassino e ladrão (deixou mais de 3,2 mil vítimas e 38 mil torturados, desviou US$ 17 milhões) acrescentasse os corpos de Dorfman e Mattelart à sua pira inquisitorial, a dupla, ameaçada de morte por militantes da direita triunfante, fugiu para a Europa. O livro, traduzido em várias línguas e prestes a ser republicado em edição de luxo na Inglaterra, só agora sairá nos EUA. Em 1975, a alfândega de Nova York proibiu a entrada de 4.000 exemplares importados de Londres. Pressão dos advogados da Disney, que ganharam aquela batalha, mas afinal perderam a guerra.

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