Alan Proosa/The New York Times
Alan Proosa/The New York Times

Como a Estônia vem usando a cultura para fugir da influência russa

Cidade de Narva, na fronteira, se tornou um polo artístico com incentivo governamental

Carmen Gray, The New York Times

19 de janeiro de 2019 | 16h00

A conversão de uma fábrica em uma instalação cultural hoje não surpreende ninguém. Ocorre que o antigo Complexo Industrial de Kreenholm, em Narva, na Estônia, não é apenas uma relíquia da indústria: Kreenholm foi simplesmente a maior tecelagem de algodão do mundo, uma vitrine do poder soviético. O complexo fica numa ilha no rio que hoje marca a fronteira oriental da União Europeia. A Rússia está a uma pedrada de distância, deixando Narva – onde quase 90% da população é de etnia russa – espremida entre dois mundos.    

O ar imponente da Kreenholm impressionou Jarmo Reha, um diretor de teatro de 27 anos nascido em Tallin, a capital da Estônia. Ele recentemente requisitou as instalações para sua produção Oomen, que acorda os fantasmas da indústria com atores malhando ferro enquanto o Coral Infantil de Narva canta A Internacional Socialista.

A performance foi bem recebida por críticos visitantes, mas, segundo Reha, alguns moradores locais consideraram “blasfêmia” esse uso da Kreenholm. Ex-operários da fábrica se queixaram de que os eventos ali realizados são importados da capital e não estão ao alcance da população de Narva. Milhares de moradores da cidade perderam o emprego quando a tecelagem foi privatizada (ela acabou fechando em 2010). “É uma ferida aberta”, disse Reha.

Mas Narva já se acostumou a tensões desse tipo desde que se tornou o último fronte da velha guerra cultural do antigo bloco soviético. A Estônia está despejando dinheiro em Narva visando a atrair investimentos para a cidade e impedir que sua população russa continue sob a influência do Kremlin.

As artes são o ponto central dessa estratégia. A Kreenholm sediou no outono a edição inaugural do festival de música alternativa Estação Narva. Um programa cultural financiado pelo Ministério da Cultura também foi criado na cidade, trazendo artistas e exposições. Em dezembro foi inaugurado o teatro Vaba Lava Narva, montado numa antiga fábrica militar.

Há uma campanha em andamento para fazer de Narva uma das capitais culturais da União Europeia até 2024. Helen Sidna, que lidera a campanha, diz que há uma dimensão soft power na investida cultural: “Da perspectiva de defesa, construir uma comunidade próspera e feliz em nossa fronteira é crucial – e da perspectiva humana é o óbvio a se fazer”, argumenta.

Após anos como satélite soviético, a Estônia, um país de apenas 1,3 milhão de habitantes, está empenhada em preservar sua língua e sua identidade, o que incomoda a minoria de fala russa. A sinalização das ruas de Narva é em estoniano, uma língua aparentada com o finlandês que usa escrita latina. Muitos moradores locais, principalmente os mais velhos, não falam a língua. A maior parte do noticiário e entretenimento que recebem vem de canais de TV patrocinados pelo Kremlin. As rádios tocam música pop russa. 

Até recentemente, Narva vivia sob o estigma do crime e das drogas, o que a aproximava mais da Rússia não só em distância, mas em mentalidade. O restante da Estônia vive longe dessa realidade. Mas a anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014, foi “uma campainha que despertou os estonianos”, disse Jaanus Mikk, diretor da Narva Gate, uma imobiliária que investe na renovação da Kreenholm. “Os políticos começaram a prestar atenção em Narva e mais fundos e projetos estão chegando.”

A presidente da Estônia, Kersti Kaljulaid, admitiu numa entrevista que os moradores de Narva “veem canais de televisão russos, e todos sabem que não existe imprensa livre na Rússia – o noticiário é basicamente propaganda”. Mas ela salientou: “Nossa resposta não é restringir o acesso a esses canais ou combatê-los com contrapropaganda, porque o problema da contrapropaganda é que ela continua sendo propaganda.”

Em vez disso, o governo da Estônia investe em eventos como a Estação Narva, que levou 3 mil pessoas à Kreenholm e arredores. O carro-chefe do festival de música alternativa foi a banda punk britânica Echo and the Bunnymen, que se apresentou ao lado de astros locais como Mart Avi, uma estrela da onda inovadora da música pop estoniana, e a Shorparis, uma fulgurante banda “dark-eletro” de São Petersburgo.

Roman Boiko, dono do Art Club Ro-Ro, um bar com música, ressalvou que, embora parte dos moradores locais receba bem os investimentos do governo em cultura, “muitos ainda veem a iniciativa com suspeição”.

O Ro-Ro, ponto em que se misturam música e arte surrealista, é o único lugar na cidade a manter apresentações constantes de música alternativa durante o ano todo. “As atenções em Narva estão voltadas para nós e o movimento vem aumentando”, disse Boiko. “É importante que as pessoas acreditem que estamos interessados nelas, inclusive em seus problemas.” 

O financiamento e apoio para as artes em Narva também é benéfico para uma nova geração de artistas estonianos, que têm uma atitide mais aberta à colaboração com russos. O cantor Mart Avi, de 27 anos, aclamado por sua voz de barítono e presença de palco do nível de David Bowie, estava entre os show da Estação Narva. Ele disse em uma entrevista recente que o festival foi “algo grande. Era bem incomum algo desse tipo acontecer por lá.”

Ele acredita que artistas deveriam trabalhar em conjunto para atravessar as divisões de identidade da Estônia. “É muito fácil para mim encontrar uma linguagem em comum com os russos”, disse. “Não é sobre território. Se você consegue encontrar uma área de interesse em comum, então está tudo bem.”

Avi disse que ele não tinha a pulga atrás da orelha a respeito dos russos que muitos estonianos que viveram os tempos soviéticos têm. “Eu fui salvo pelo fato de que sou parte da primeira geração nascida em uma Estônia livre.”

Reha, a diretora de teatro que também é dessa geração, disse que a Estônia precisa de empatia, não de tribalismo.”

“Quando eu estava em Narva, parei de chamar os locais de russos. Eu comecei a me referir a eles como ‘nossos russos’”, disse. “Por que deveríamos excluir essas pessoas? Elas são uma parte de nós.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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