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Como a ficção retratou a cidade de Mumbai ao longo dos anos

'Sacred Games', da Netflix, faz parte de uma longa tradição de filmes, séries e livros sobre a cidade indiana

The Economist

06 Outubro 2018 | 16h00

Neste verão, os olhos de Ganesh Gaitonde em chamas, penetravam através da névoa das monções dos outdoors espalhados pela metrópole. O gangster da ficcão, interpretado com um tom de ameaça sedutora por Nawazuddin Siddiqui, é um dos heróis de Sacred Games (Jogos Sagrados) emblemática série dramática indiana do Netflix. O programa é baseado é um romance épico de Vikram Chandra, um testamento de 900 páginas para o romance de Mumbai - a maior cidade, a pior da Índia, com 18 milhões de pessoas e ainda inchando, abarrotada de estratagemas, sexo e assassinato.

Publicado em 2006, o livro de Chandra forma na realidade uma trilogia com duas outras obras que capturam a ideia que Mumbai tem de si própria na virada do novo milênio: Cidade Máxima, retrato de não-ficção de Suketu Mehta de Bombaim (como era chamada até 1995 e ainda agora por alguns), e Q&A (Perguntas e Respostas), de Vikas Swarup, que foi adaptado para o cinema como Quem quer ser um milionário? Nos anos seguintes, Mumbai revelou-se um corajoso epítome glamuroso da vida urbana moderna, uma capital noir para o mundo inteiro admirar ou vilipendiar.

No entanto, o cinema, a ficção e a imundície perseguem um ao outro pelas ruas da cidade há décadas. Seus contadores de histórias estiveram enredados em seu drama; os contos de Mumbai refletiram seu abrupto crescimento, as cenas e os temas evoluindo com sua imprevisível economia de promiscuidade criminosa.

Capital empresarial da Índia e lar de sua população mais poliglota, Mumbai sempre foi um bom lugar para se fazer um acordo sigiloso. Durante a maior parte do século 20, a cidade portuária colonial no Mar da Arábia era tanto o centro do crime organizado no subcontinente quanto o coração do cinema hindu. Bollywood fez filmes que denunciavam a máfia local, produções financiadas por mafiosos e a vida noturna unia os dois.

Sem estrondo

No alvorecer da independência, as figuras do escritor errante e marginal uniram-se no Saadat Hasan Manto que Siddiqui interpreta em um filme biográfico lançado na Índia em 21 de setembro. Escrito e dirigido pela também atriz Nandita Das, Manto entrelaça a vida e histórias de seu personagem tema, revelando suas lutas com a censura e alcoolismo e a separação da Índia do Paquistão.

Como os próprios Das e Siddiqui, Manto migrou para a cidade cosmopolita vindo das províncias do interior, trabalhando de forma intermitente como roteirista. Inspirado em Victor Hugo e Anton Chekhov, ele escreveu sobre a vida. Ele acreditava que quanto pior a companhia, melhor para sua arte; prostitutas costumavam ser suas heroínas, um constante ponto de discórdia com as autoridades. Pode ser impossível dizer quais casos foram inventados e quais lhes foram relatados. Em um dos mais conhecidos, um personagem que também é chamado de Manto envolve-se com um gângster de Bombaim com um coração de ouro. O raciocínio do gângster para carregar uma adaga em vez de uma arma de fogo pode servir de credo para o estilo de prosa de Manto:

Com isso, não há qualquer estrondo. Você pode simplesmente varar um estômago assim. É tão suave que o bastardo não vai nem saber o que está acontecendo.

O Manto daquela história amava a bandidagem e o Manto da vida real ama Bombaim. Mas tais amores eram complicados; a sujeira e a beleza estavam inextricavelmente entrelaçadas, da mesma forma que os artistas de Mumbai hoje em dia. Como pergunta o personagem: “Quem em Mumbai se importa com alguém? Ninguém dá a mínima se você vive ou morre.” Depois de sua partida para Lahore e antes de sua própria morte prematura - Manto continuou a situar suas histórias em Bombaim, criando assim um precedente nostálgico para Os Filhos da Meia-Noite de Salman Rushdie e Um Delicado Equilíbrio de Rohinton Mistry.

Os cineastas mapearam o submundo. Em 1955, Shree 420 contou sobre um pequeno artista trapaceiro que vem a Bombaim e aprende tarde demais suas lições sobre a destruição da alma. Como muitos filmes posteriores, Deewaar, lançado em 1975 foi baseado em um célebre gângster, o primeiro da cidade – um imigrante do sul que, numa época em que em que as relações econômicas da Índia com o mundo eram frágeis, tornou-se um contrabandista e, finalmente, assumiu o controle de distritos inteiros da metrópole.

A Mumbai noir transformou-se em um local ainda mais sombrio e mais frenético, refletindo os acontecimentos das ruas. Em 1991, a liberalização econômica do país foi anunciada com um carregamento noturno de ouro, transportado para o aeroporto (e daí para os mercados internacionais) de Mumbai em um comboio fortemente blindado dos cofres do Banco Central da Índia. Em 1992, motins provocados por nacionalistas hindus resultaram na morte de mais de 900 pessoas, principalmente da minoria muçulmana, nas favelas de Bombaim. Em resposta um chefe muçulmano do crime, coordenou uma série de explosões que mataram 257 pessoas em toda a cidade. De sua parte, Arun Gawli, um “padrinho” hindu e modelo para Gaitonde em Sacred Games, assumiu o manto do vingador. As próprias gangues, até então como os habitantes do mundo do cinema, foram segregadas. Bombaim se tornou Mumbai, ostensivamente batizada em homenagem a uma deusa hindu local.

Suas calçadas eram escorregadias por causa do sangue dos assassinatos diários entre gangues, além dos “encontros” dos quais a polícia se tornou adepta: execuções extrajudiciais, cinicamente apresentadas como tiroteios. Esses tempos ruins para a cidade foram, durante algum tempo, um apogeu para os assassinos e seus chefes e seus trovadores também. Este era o mundo de Satya um brutal filme sobre crimes que foi um sucesso em 1998. Meenal Baghel, agora o editor do Mumbai Mirror, o tabloide mais lido da cidade, lembra-se de ver no filme que ele “capturou tudo que nós publicávamos no jornal, todos os dias”.

Tudo pode acontecer

Se um ato de terrorismo inaugurou o império da máfia de Mumbai, as atrocidades terroristas os encerraram: primeiro os ataques de 11 de setembro de 2001. Depois aqueles de novembro de 2008, quando guerrilheiros com base no Paquistão invadiram Mumbai por barco e mataram 164 pessoas. Novos controles financeiros e melhor policiamento acabaram por derrotar as quadrilhas de contrabando e extorsão (afinal, na economia globalizada, há melhores formas de ganhar dinheiro, de qualquer maneira). Até mesmo os bares de dança dos gângsteres foram fechados.

E hoje em dia Mumbai não é mais a única porta de entrada da Índia para o mundo. Os novos ricos moram em todo o país, assim como os novos criminosos. Delhi e Bangalore têm os piores índices de assassinato; a polícia em Uttar Pradesh tem seus especialistas em “encontros”. Golpes remanescente, como enganar os americanos para fazer pagamentos de impostos por meio de call centers suburbanos, são muito menos cinematográficos. Os cineastas da cidade perderam sua proeminência, assim como escassearam os mafiosos que eles retrataram. Filmes de outras partes do país agora rivalizam com Bollywood; dublagem e legendagem são grandes negócios.

O enredo do submundo de Sacred Games é na verdade um anacronismo. Ainda assim, talvez seja melhor que a cidade que inspirou as mais fervorosas rememorações tenha desaparecido, mesmo que a arte perdure. Como Gaitonde, o gângster, rosna para qualquer pessoa em um dispositivo de streaming (em hindi, mas com legendas em 20 idiomas): "Esta é a cidade de Mumbai. Tudo pode acontecer aqui “. / Tradução de Claudia Bozzo

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