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Alfred Stieglitz
Alfred Stieglitz

Como a fotografia passou a ser enxergada como uma forma de arte

Livro de Andy Grundberg mostra percurso de uma tecnologia documental a uma forma artística prestigiada

Michael S. Roth, The Washington Post

23 de abril de 2021 | 10h00

Quando, nos anos 1960, Andy Grundberg quis fazer um curso de fotografia na Cornell University, ele teve de entrar numa escola de agricultura. Não fazia muito tempo, porém, que artistas de todos os lugares vinham explorando a fotografia como parte da sua prática criativa e na década de 1980 a foto já estava no centro da arte contemporânea e era o “impulsionador estético” dos mais empolgantes trabalhos encontrados em galerias e estúdios. Foi nesse período que Grundberg chegou, adulto, a Nova York - trabalhando primeiro como especialista de câmera e redator técnico e depois como freelancer a caminho de se tornar um crítico de fotografia do The New York Times. Seu livro intitulado How Photography Became Contemporary Art: Inside an Artistic Revolution from Pop to the Digital Age, é uma reflexão crítica e pessoal.

Naturalmente, fotógrafos e artistas reconheceram a estética da fotografia antes dos anos 1970. Alfred Stieglitz começou a expor suas fotos em Nova York no início de 1900 como parte do seu projeto de introduzir o modernismo na América. Ansel Adams investiu na pureza da imagem fotográfica quando usou sua câmera para capturar paisagens de uma maneira exclusiva para o meio. Após a Segunda Guerra Mundial, contudo, a pintura e a escultura se tornaram primordiais e os esforços dos artistas para expressarem o mundo interior, mais do retratar o exterior, deixaram pouco espaço para o trabalho mecânico das câmeras. Quando Grundberg chegou a Nova York em 1971, isso já começava a mudar. Andy Warhol já era famoso; artistas como Robert Rauschenberg usavam técnicas da fotografia em trabalhos de mídia mista há algum tempo; a retrospectiva póstuma em 1972 das obras de Dianne Arbus no Museu de Arte Moderna foi um evento histórico.

E algo novo vinha ocorrendo com a fotografia e a vanguarda. As chamadas artes da terra e artes performáticas exigiam uma documentação para o público saber a respeito, digamos, do Spiral Jetty de Robert Smithson, ou a mais recente intervenção provocativa de Adrian Piper, como Mythic Being.

Grundberg mostra, contudo, que artistas como seu amigo Gordon Matta-Clark estavam cada vez mais interessados na imagem das suas performances ou suas intervenções na paisagem. A fotografia não era mais usada como ferramenta para permitir que outros soubessem a respeito da criação de um artista; ela possuía suas próprias propriedades que eram inseparáveis do trabalho criativo do artista. Grundberg é hábil em mostrar esse avanço através das reações pessoais: em particular sua percepção de que “esta sensação de estar no mar com minha própria experiência” foi “um indicador infalível de que uma pessoa pode vivenciar a verdadeira arte”.

Os anos 70 são conhecidos como a década do pluralismo artístico, e Grundberg astutamente transmite a atmosfera excitante de uma Nova York acessível o bastante para ser o lar de artistas e galeristas experimentais. Era também um tempo de pobreza e de crime, ele observa, trazendo à mente a tese de Jacob Burckhardt segundo a qual a arte floresceu na Renascença italiana porque a política era uma desordem cruel. Grundberg vai a Buffalo e Rochester para ver mostras, encontrar-se com fotógrafos e nadar nas águas inexploradas do que ficou conhecido como pós-modernismo - sob a influência afetiva e conceitual de William Wegman e especialmente John Baldessari.

A arte conceitual foi chave para a mudança da fotografia para o status de arte e o debate sobre arte com frequência era inseparável da experiência das imagens. A fotografia para Susan Sontag e Roland Barthes era arte, artefato e sintoma cultural, ao passo que outros argumentavam que na cultura contemporânea não havia nenhum escape de uma realidade já impregnada de imagens. Na verdade, graças ao crítico Douglas Crimp, a palavra “imagens” - que foi também o título de uma exposição que ele organizou em 1977 - era carregada de significado, mostrando como os artistas desdenham a pureza retratada em favor dos enquadramentos e cotações desconstrutivos.

Na década de 1980 a prática volátil de Cindy Sherman transformou-a no exemplo de pós-modernismo. A artista se retratou em tantos disfarces convencionais (e chocantes) que era quase impossível saber onde o real acabava e a imagem começava. Sherman esteve sempre um passo à frente dos seus críticos e público “desaparecendo na miríade de identidades disponíveis para ela”, escreve Grundberg, “no estilo por excelência do pós-moderno”.

Também nos anos 1980 vimos a ascensão dos “novos documentaristas” e o livro apresenta aos leitores os artistas alemães que procuravam uma objetividade fria, como também artistas afro-americanos que usavam a narrativa para transmitir um significado político. Grundberg se mostra especialmente interessado na Ballad of Sexual Dependency, de Nan Goldin, que segundo ele é para os anos 1980 o que The Americans de Robert Frank foi para a década de 1950. Goldin documentou sua vida como artista urbana com “uma atenção obcecada por quase todas as transformações da interação humana”. A triste mensagem que ele encontra no trabalho dela é de que a intimidade pessoal não é a cura para o isolamento social, mas as “performances” alegres dessas imagens por meio de exibição de slides em clubes pelo menos atenuam a solidão documentada.

Grundberg leva os leitores para as guerras culturais dos anos 1990 - desde o uso da pornografia na obra de Robert Mapplethorpe aos debates sobre originalidade e comercialismo na prática fotográfica nos últimos 20 anos. Ele observa que acabamos por aceitar que as câmeras remodelam o mundo em vez de apenas apresentar uma fatia dele para nossa consideração, embora, na minha opinião, ele subestimou o quão forte é o anseio pela verdade de uma imagem. Sabemos que as imagens alteram, mas isso não significa que estamos satisfeitos com a mera alteração.

O amadurecimento de Grundberg como crítico renomado coincide com o amadurecimento da fotografia como forma de arte e a sua conquista do mercado de arte. Com este excelente livro, ele nos oferece uma narrativa pessoal, mas equilibrada, de como as imagens definem alguns de nós e como definimos algumas delas. / Tradução de Terezinha Martino

Michael S. Roth é presidente da Wesleyan University. Seu livro mais recente é: "Safe Enough Spaces: A Pragmatist's Approach to Inclusion, Free Speech, and Political Correctness on College Campuses."

 

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