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Como 'A Hora da Estrela' satiriza relação entre intelectual e a população excluída

Crítico defende que Lispector faz Rodrigo S.M. transgredir todas as regras de pieguice e utopia sociais que sustentaram o mito literário do nordestino na literatura modernista

Italo Moriconi*, Especial para o Estado

27 de junho de 2020 | 16h00

O seguinte ensaio, inédito, faz parte da antologia Literatura, Meu Fetiche: Ensaios sobre Literatura Brasileira Contemporânea, do crítico Italo Moriconi a ser publicado em julho pela editora Cepe.

A Hora do Lixo de Clarice Lispector

Escrito em 1976, publicado um mês antes da internação que levou a autora à morte em dezembro de 1977, A Hora da Estrela faz parte de um grupo de textos de Clarice Lispector que não apenas constituem mas também encenam o final, assim como o final enquanto dissolução. Final da vida, final da carreira, final da obra. Uma etapa de sua escrita que ela mesma chamou de “hora do lixo”, ao responder às críticas feitas ao livro de contos A Via Crucis do Corpo (1974).  Hora da estrela, hora do lixo. As críticas a Via Crucis diziam respeito ao caráter esquemático de suas narrativas e à suposta crueza no tratamento da questão sexual. Hora do lixo, hora da morte. Morte de Macabéa, estrela de cinema ao avesso, personagem não trágica, protagonista de uma não vida. Morte física da autora, que talvez já soubesse de sua doença quando começou a escrever A Hora da Estrela.

Nesse livro, já não mais se trata de atingir pela palavra uma realidade existencial primeira, como na obra anterior da escritora. O triângulo da comunicação se dá agora entre o narrador masculino (chamado Rodrigo S. M.), o leitor e a personagem Macabéa, cuja história se reduz a mínimos acontecimentos biográficos: orfandade, emprego de datilógrafa, namoro fracassado, roubo do namorado pela colega de trabalho, ida à cartomante e a cena final da morte por atropelamento. 

    O plano narrativo mais importante no texto é aquele em que o narrador comenta com o leitor o seu processo de criação de uma personagem ficcional que lhe é completamente estranha. O motivo central de A Hora da Estrela é a sequência dos sentimentos conflitivos do narrador em relação à personagem que ele quer criar, esforço que nunca se afasta de um simples esboço caricatural. Já não se busca mais a simultaneidade entre escrita e sensação e sim entre escrita e leitura. O que se lê é a autorreflexão do narrador sobre sua relação com a personagem. Entre os fascinantes efeitos produzidos por essa operação discursiva, destaca-se o desnudamento do caráter de simulacro do próprio leitor. Radicalizando a experiência feita por Machado de Assis com o Bentinho de Dom Casmurro, Clarice cria um Rodrigo que é S. M. (sádico e masoquista) tanto em relação à personagem quanto ao leitor.

    Mas a personagem Macabéa não é qualquer uma, tanto assim que praticamente toda a fortuna crítica sobre A hora da estrela, e também o filme de Suzana Amaral baseado no livro, concentram nela sua atenção. Macabéa é uma caricatura de nordestino. E “nordestino” não é uma categoria inocente na cultura brasileira. Nordestinos na literatura brasileira são pobres, excluídos, periféricos, seres provenientes de um Brasil arcaico em relação ao país surgido desde fins do século 19, cultural e economicamente dominado pelo poderoso Sudeste. Na ideologia da ordem do discurso hegemonizada pela civilização do Sul, o estereótipo do nordestino é o de “raça subdesenvolvida”, “sub-raça” pela falta de recursos. Num paralelo com o discurso racista norte-americano, talvez Macabéa equivalha a whitetrash, embora ela seja descrita nos termos de uma ideia muito especificamente brasileira e elástica de “raça branca”, pois sua cor de pele é dita parda.

    Rodrigo S. M. retrata uma nordestina já urbanizada, não uma nordestina flagrada no seu sertão original, nem a nordestina deslocando-se pelo país como retirante da pobreza de sua região, duas imagens bem modernistas. A nordestina de Rodrigo S. M. é a imigrante já estabelecida na periferia das grandes cidades do Sudeste, a nordestina pós-moderna que, no cinema, foi pioneiramente mostrada em O Amuleto de Ogum, de Nelson Pereira dos Santos (1975). Nesse cenário contemporâneo, posterior aos anos 70, nem mesmo o sertão pode mais ser encenado na linguagem substancialista da origem autêntica. Como no filme Central do Brasil, de Walter Sales, o lugar sertão já não é mais um cenário de cactos espinhentos e caveiras de vacas e sim, apenas, área periférica suburbana ocupada por um conjunto habitacional semelhante aos das metrópoles do Sudeste. Além de nordestina, a Macabéa criada por Rodrigo S. M. como símbolo de pobreza é a representação grotesca e caricatural de uma subjetividade totalmente definida pela faixa mais imediata do consumo: ela se alimenta de Coca-Cola e seu único passatempo é ouvir a Rádio Relógio.

    Lispector faz Rodrigo S.M. transgredir todas as regras de pieguice e utopia sociais que sustentaram o mito literário do nordestino na literatura modernista. Nesse sentido, a relação entre o narrador e Macabéa é a representação alegórica da relação entre o intelectual modernista e a população pobre e excluída. Nas versões mais populistas desse modernismo, os escritores pensaram redimir-se de sua culpa social através da salvação do pobre pelo texto-denúncia. Entre os autores mais consagrados da geração surgida nos anos 1920/30, apenas Graciliano Ramos, em Memórias do Cárcere, e Carlos Dummond de Andrade, em alguns momentos de sua desconstrutiva poesia dita “social”, ousaram aludir àquilo que A Hora da Estrela apresenta de maneira tão brutal: toda a hipocrisia e o sadismo inerentes à relação entre o intelectual e o pobre na tradição cultural brasileira.

    Rodrigo S.M. busca o que parece impossível no Brasil: falar de exclusão social sem fazer demagogia. O texto de Lispector na verdade é publicado no momento mesmo em que se inicia a profunda transformação na cultura política brasileira, ocorrida na virada dos anos 70/80: a conquista de voz pública pelos próprios setores excluídos, independentemente da tutela dos velhos partidos, políticos e intelectuais populistas de classe média. Rodrigo S.M. sabe que sua motivação é completamente exterior ao drama efetivamente vivido pelos modelos inspiradores de sua Macabéa. “Por que escrevo?”, pergunta ele no início de sua narrativa. E responde: “Antes de tudo porque captei o espírito da língua e assim às vezes a forma é que faz o conteúdo. Escrevo portanto não por causa da nordestina mas por motivo grave de ‘força maior’, como se diz nos requerimentos oficiais, por ‘força de lei’”.

    A partir daí, o leitmotiv do narrador será dado pelos contraditórios sentimentos provocados por seu esforço hercúleo de identificação com Macabéa, oscilando entre a repugnância e a empatia, a indiferença cruel e a piedade, reatualizando o jogo entre sadismo e sentimentalismo que Gilberto Freyre detectara, nos anos 30, como constitutivo das relações entre a classe patrimonial branca ou parda e a escravidão negra no Brasil. Para ilustrar minimamente meu argumento, transcrevo a seguir o parágrafo em que Rodrigo S.M. faz uma primeira apresentação de Macabéa:

Ela nascera com maus antecedentes [...] No espelho distraidamente examinou de perto as manchas no rosto. Em Alagoas chamavam-se “panos”, diziam que vinham do fígado. Disfarçava os panos com grossa camada de pó branco e se ficava meio caiada era melhor que o pardacento. (...) Nada nela era iridescente, embora a pele do rosto entre as manchas tivesse um leve brilho de opala. 

    Rodrigo S.M. repete clichês do discurso do preconceito racial e social contra os nordestinos (sujeira, doença, inconsciência), levando suas descrições ao extremo perigoso do clownesco (cf. Wilma Arêas), como parte do esforço de evitar uma identificação demagógica e artificial com Macabéa. No entanto, é impossível escrever sobre um outro sem o mínimo de empatia, sem o mínimo de projeção subjetiva. Essa empatia, porém, vai aparecer no seu texto também de maneira paródica. Eis o que se lê logo em seguida ao trecho acima citado: “Só eu a vejo encantadora. Só eu, seu autor, a amo. Sofro por ela. E só eu é que posso dizer assim: ‘que é que você me pede chorando que eu não lhe dê cantando?’” 

    Apenas num aspecto Rodrigo S.M. consegue construir um eixo de identificação não paródica com Macabéa, embora ainda farsesco devido à heterogeneidade radical entre criador e criatura. Trata-se da solidão. Esse é o único elo que possibilita a construção de um discurso conectando diferentes tão diferentes. De maneira também completamente exterior e artificial, Rodrigo S. M. estabelece um paralelo entre a solidão irremediável do ego scriptor e o anonimato mudo de Macabéa. A solidão faz com que o escritor pertença a uma esfera residual dentro do ordenamento das coisas e é como resíduo, é pela ideia de resíduo, que Rodrigo S. M. pode estabelecer um fiapo de identificação com a nordestina. Identificação, porém, que carrega ainda um outro elemento crucial de diferença, pois o escritor possui o bem inestimável da palavra, ao passo que Macabéa dela se encontra desprovida:

 (...) Quisera eu tanto que ela abrisse a boca e dissesse:

— Eu sou sozinha no mundo e não acredito em ninguém, todos mentem, às vezes até na hora do amor, eu não acho que um ser fale com o outro, a verdade só me vem quando estou sozinha.

Maca, porém, jamais disse frases, em primeiro lugar por ser de parca palavra. 

    A cena final do atropelamento de Macabéa por um carro de marca Mercedes-Benz, em lugar do noivo louro que a cartomante lhe tinha prometido, acentua a vitória do artificialismo da escrita sobre a piedade social como móvel da criação artística. “O final foi bastante grandiloquente para a vossa necessidade? ”, pergunta ao leitor o mais cínico dos narradores jamais criados por Clarice Lispector. Na sarjeta, a cena do corpo morto de Macabéa alegoriza não apenas um certo conceito de ego scriptor, mas, sobretudo, fornece uma imagem impiedosa de si mesma feita por Clarice na hora final, pela boca de Rodrigo, seu travesti sadomasô:

Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado [...] e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui.

*Italo Moriconi é poeta e crítico, além de sociólogo. Professor aposentado da Uerj, atualmente visitante senior na Unifesp-Guarulhos (Letras). Escreveu e organizou livros sobre autores dos anos 70 (Torquato Neto, Ana Cristina Cesar, Caio Fernando Abreu). Antologista, curador, editor. Organizou e publicou no ano passado os '35 Ensaios selecionados de Silviano Santiago' (Cia das Letras). 

 

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