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Como 'A Ilha do Tesouro' de Robert Louis Stevenson moldou o imaginário da pirataria

Livro clássico consolidou elementos de outras obras e criou novas convenções que se consagrariam

Ana Rüsche*, Especial para o Estado

04 de janeiro de 2020 | 16h00

Piratas existem desde o momento em que a humanidade fez dos mares novas estradas. Na literatura, até Odisseu enfrentou os bandoleiros dos horizontes azuis. Entretanto, foi A Ilha do Tesouro a obra responsável por cunhar o imaginário definitivo sobre a pirataria na cultura popular. O clássico de Robert Louis Stevenson, lançamento da editora Antofágica, encontra-se hoje mais vívido do que nunca, com um perigo a cada página.

Em uma noite chuvosa, o escritor escocês e seu jovem enteado desenharam juntos o mapa da imaginária Ilha do Esqueleto, com enseadas, brejos, riachos, morros e um tesouro assinalado com um “X” – lançadas estavam as bases do livro, publicado em edição definitiva em 1883. Cunhou-se a figura familiar do cinema e do bloco de carnaval: o pirata imponente, sem uma das pernas, com o chapéu de três pontas, garganta pedindo por rum, alfange na cintura, uma pistola em cada bolso do casaco gasto e, no ombro, um papagaio xingando aos palavrões.

Para compor as aventuras, Stevenson vale-se de uma gama variada de referências – talvez um dos méritos do livro seja exatamente recolher criações antigas, unindo-as num livro de fôlego só. Por exemplo, o autor muito assimila de Robinson Crusoe, de Daniel Defoe (1719), e de O Pirata, de Walter Scott (1822).

Central, entretanto, é referência a uma obra de não ficção com título sensacionalista, cujo início é História Geral dos Roubos e Assassinatos dos Mais Conhecidos Piratas (1724), assinada pelo Capitão Charles Johnson, pseudônimo misterioso, muitas vezes atribuído a Daniel Defoe. Esse livro pretendia denunciar os crimes que tal “bando de ladrões” cometeu em época de combate severo à pirataria. Apesar da intenção, o livro apresenta a biografia de vilões famosos, incluindo as duas piratas, Anne Bonny e Mary Read, terminando por cristalizar esses nomes. 

Da História Geral, Stevenson retirou elementos reais, a exemplo do timoneiro Israel Hands, menção a Edward England e John Bartholomew e a bandeira Jolly Roger, com seus dois ossos cruzados e a caveira. Também são fatos históricos o naufrágio de galeões com cargas valiosas – o conhecido Urca de Lima afundou em 1715 no Golfo da Flórida, atingido por um furacão e, hoje, o local dos destroços consta no catálogo de localidades históricas dos EUA. Entretanto, o livro não se propõe ser fiel à História e sua a popularidade terminou não só por criar piratas, mas tecer ainda uma mitologia a respeito. Os fictícios Billy Bones, Capitão Flint e Long John Silver são invenções tão bem-sucedidas que se eternizaram.

Ao compor sua ode ambígua a piratas, Stevenson vale-se também da herança gloriosa do período elisabetano, quando o corsário Francis Drake foi condecorado cavaleiro, herói contra os espanhóis. Na ficção, mesmo que Billy Bones e Long John Silver sejam cruéis e traiçoeiros, seu magnetismo é inafastável. Durante as aventuras, o pirata John Silver está para o fidalgo John Trelawney assim como Mefistófeles está para o Fausto: é atrás do primeiro que todos querem ir. Fascinante e de inteligência ímpar, é capaz de mancomunar bêbados, guerrear em terra ou mar, compactuar com nobres e, sem pestanejar, trair a todos sem remorso.

A narrativa, aparentemente simples, é atraente para jovens leitores, que logo podem se identificar com o protagonista, Jim Hawkins, rapaz curioso, cuja falta de juízo e a aparência inofensiva lhe conferem importantes vantagens. Leitores adultos irão decifrar, no tombadilho do Hispaniola, escuna de duas toneladas, lutas por poder e ascensão social entre a nobreza de sangue e os cavaleiros de fortuna, eufemismo para piratas, fricções que o grumete Jim, filho de um dono de estalagem, observa ora do lado dos menos favorecidos, ora do lado privilegiado.

A ambientação vívida traz até a maresia da ilha para quem lê a obra, técnica que Stevenson irá empregar depois em seu O Médico e o Monstro (1886). Não irão faltar esqueletos, tiros, velas rasgadas. Nessa literatura endereçada a rapazes só faltam mulheres: a única aparição é da mãe de Jim e menção à companheira de Silver. Um traço interessante é confrontar o capacitismo: tanto Pew, que perdeu a visão em combate, quanto Silver, que perdeu uma perna, são extremamente ágeis e lutadores valorosos.

Ler A Ilha do Tesouro é ainda decifrar referências da cultura pop. Adaptações são inúmeras, desde o cinema mudo de Sidney Franklin, o spaguetti western de Girolami, o ator Orson Welles como Silver até Planeta do Tesouro, da Disney. A série Black Sails (Starz) apresenta uma prequela do livro, com Silver e Bonnes em seus anos de formação, e a inserção de piratas históricos, como Anne Bonny, Jack Rackham e Charles Vane – a série mostra como a pirataria caribenha reuniu homens das mais distintas nacionalidades em democracias brutas, afinal, elegiam os próprios capitães na periferia dos impérios coloniais.

O clássico é ainda fonte de inspiração para muitos livros, como Piratas de Dados, romance cyberpunk de Bruce Sterling (Aleph); a trilogia Liveship Traders, de Robin Hobb; e A Cicatriz, de China Miéville (a ser publicado em 2020 pela Boitempo).

A edição da Antofágica, editora especializada em clássicos, não deixa nada a desejar, com ilustrações de Paula Puiupo, tradução e notas de Samir Machado de Machado (também autor de Piratas à Vista, FTD), prefácio de Jim Anotsu e posfácio de Marina Beltran. Um livro de capa preta e papagaio dourado, pronto para raptar o próximo que passar por perto da estante.

*ANA RÜSCHE É ESCRITORA, AUTORA DE ‘A TELEPATIA SÃO OS OUTROS’ (MONOMITO, 2019)

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