Como a inteligência artificial está revolucionando a música e a arte

Como a inteligência artificial está revolucionando a música e a arte

Softwares geram figuras e imagens automaticamente com base em sons e fotos pré-existentes

Cade Metz, The New York Times

19 Agosto 2017 | 16h00

Em meados dos anos 1990, Douglas Eck trabalhava como programador de dados em Albuquerque, Novo México, e à noite fazia bico como músico. Depois de passar o dia digitando códigos de computador num laboratório do Departamento de Energia, Eck assumia o palco de um barzinho tocando o que chama hoje de “bluegrass com influência punk”, um “cruzamento de Johnny Rotten com Johnny Cash”. Mas o que ele queria mesmo era juntar a atividade do dia com a da noite e construir máquinas musicais que criassem o próprio som. “Meu único objetivo na vida era misturar inteligência artificial (IA) e música”, diz Eck.

Era uma pretensão ingênua. Entretanto, como fazia pós-graduação na Universidade de Indiana, em Bloomington, não longe de onde crescera, Eck levou a ideia para Douglas Hofstadter, cientista da cognição que ganhou o Prêmio Pulitzer com o livro Gödel, Escher, Bach: An Eternal Golden Braid, sobre mentes e máquinas. Hofstadter esquivou-se lembrando a Eck que mesmo as técnicas de IA então mais recentes ainda estavam em um nível muito primitivo. 

Pelas duas décadas seguintes, Eck continuou perseguindo a ideia, e IA acabou prevalecendo sobre suas ambições. 

Meses atrás, trabalhando como pesquisador no Google, Eck voltou à ideia que havia apresentado a Hofstadter havia tantos anos. O resultado é o Projeto Magenta, trabalho de uma equipe de pesquisadores do Google que está ensinando máquinas a criar não apenas música própria, mas várias outras formas de arte, incluindo esquetes, vídeos e textos de humor. 

Com seu império de smartphones, aplicativos e serviços de internet, o Google já está no negócio da comunicação, e Eck vê o Magenta como extensão natural desse trabalho. 

“Trata-se de criar novos meios para o povo se comunicar”, disse ele numa recente entrevista no pequeno prédio de dois andares em Mountain View, Califórnia, quartel-general das pesquisas do Google em IA.

O projeto é parte do crescente esforço de se produzir arte com uso de novas técnicas de IA que só amadureceram recentemente. Chamados de redes neurais profundas, esses sistemas matemáticos complexos permitem que máquinas aprendam um comportamento específico por meio da análise de uma vasta quantidade de dados. 

Por exemplo, ao procurar padrões comuns em milhões de fotos de bicicletas, uma rede neural aprenderia a reconhecer uma bicicleta. É assim que o Facebook identifica rostos em fotos online, que os telefones Android reconhecem ordens dadas em celulares e que o Skype da Microsoft faz traduções. E esses sistemas complexos também podem criar arte. Ao analisar um conjunto de canções, por exemplo, eles aprendem a produzir sons semelhantes. 

Como diz Eck, esses sistemas estão no mínimo se aproximando do ponto – ainda muitos e muitos anos distante – em que uma máquina consiga fazer instantaneamente uma nova canção dos Beatles, ou talvez trilhões de novas canções dos Beatles – cada uma lembrando muitas músicas que os próprios Beatles gravaram, mas ao mesmo tempo um pouco diferente. 

Mas esse jogo – tanto um modo de fazer arte quanto de destruí-la – é o que Eck buscava: há muitos caminhos a se explorar além da mera imitação. A ideia final não é substituir o artista, mas dar-lhe meios de criar de modos totalmente novos. 

Nos anos 1990, naquele bar do Novo México, Eck combinava Johnny Rotten com Johnny Cash. Hoje ele cria softwares que fazem quase a mesma coisa. Usando redes neurais, Eck e equipe estão cruzando sons de instrumentos muito diferentes – digamos, fagote e clavicórdio – e criando instrumentos capazes de produzir sons que ninguém jamais ouviu.

Como uma rede neural pode aprender a identificar um gato analisando centenas de fotos de gatos, ela pode aprender as características musicais de um fagote analisando centenas de notas do instrumento. A rede cria uma representação matemática, ou um vetor, que identifica um fagote. Assim, Eck e equipe alimentaram uma rede neural com notas de centenas de instrumentos, construindo um vetor para cada um. 

Agora, apenas movendo um botão através de uma tela, eles podem combinar esses vetores para criar novos instrumentos. Um pode ser 47% fagote e 53% clavicórdio. Outro, pode inverter as porcentagens. E assim vai.

Há séculos, os regentes de orquestra mixam sons justapondo vários instrumentos. Mas isto é diferente. Mais que mixar, Eck e seu pessoal estão combinando sons para formar algo que não existia, abrindo novos caminhos para os artistas trabalharem.

“Estamos fazendo a nova filmadora, a nova guitarra elétrica”, disse Eck. 

Chamado de NSynth, esse projeto em particular está apenas decolando. Mas, tanto no universo da arte quanto no da tecnologia, muita gente está já estão se entusiasmando pela nova arte feita por meio de redes neurais e outras técnicas de inteligência artificial. 

“Esse trabalho explodiu nos últimos anos”, afirmou Adam Ferris, fotógrafo e artista de Los Angeles, na Califórnia. “Essa é uma estética completamente nova.”

Em 2015, uma outra equipe de pesquisadores do Google produziu o DeepDream, uma ferramenta que usa redes neurais para criar paisagens perturbadoras e alucinógenas, a partir de fotos já existentes, o que semeou essa nova arte dentro e fora do Google. 

Se a ferramenta analisar a foto de um cão e encontrar um tufo de pelos que lembre vagamente um globo ocular, ela vai realçar esse tufo e então repetir o processo. O resultado será um cachorro coberto de agitados globos oculares.

As ferramentas são novas, mas não a atitude. Allison Parrish, professora da New York University que faz softwares geradores de poesia, ressalta que artistas vêm usando computadores desde os anos 1950. “Assim como Jackson Pollock descobriu uma nova forma de pintar apenas abrindo a lata e espalhando a tinta sobre a tela”, ela disse, “essas novas técnicas computacionais criam uma paleta mais ampla para os artistas”. / Tradução de Roberto Muniz

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