Estate of Roy Lichtenstein
Estate of Roy Lichtenstein

Como a internet facilitou a venda de obras de arte falsificadas

Gravuras de Lichtenstein, Warhol, Picasso e Paul Klee são algumas das mais visadas pelos falsários

Milton Esterow, The New York Times

06 de fevereiro de 2020 | 15h43

Autoridades suíças estão processando um marchand da Basileia que vendeu centenas de gravuras falsas anunciadas online como trabalhos de Roy Lichtenstein, Andy Warhol, Paul Klee, Pablo Picasso e outros, durante os últimos dez anos. 

Em Nova York, Adrienne R. Fields dedica muito de seu tempo a procurar na internet gravuras falsas que vem pipocando em inúmeros sites. Ela chefia o departamento jurídico da Sociedade de Direitos de Artistas, que protege direitos autorais e obras de artistas. “Todo dia, Adrienne manda um aviso de ‘tire isso da rede’ para um site”, disse Ted Feder, presidente da SDA. 

Basileia e Nova York, situadas a mais de 6 mil quilômetros uma da outra, estão na linha de frente da luta contra a venda de gravuras falsas. 

Desde o início da internet, o problema da venda de arte falsa só fez crescer. O carro-chefe desse império da contrafacção são as gravuras falsas – relativamente fáceis de se criar, difíceis de detectar e tipicamente oferecidas a preços baixos o bastante para atrair compradores iniciantes.

Mas agora o problema parece estar aumentando de proporção, segundo policiais dos Estados Unidos e da Europa. “Nos últimos anos confiscamos centenas de falsificações que forjadores e vendedores diziam ser de gravuras de Lichtenstein, George Baselitz, Picasso e outros, vindas da Itália, Espanha e Portugal”, disse Elena Spahic, agente da polícia da Baviera, em Munique, que se especializou em descobrir arte falsificada.

Timothy Carpenter, agente do setor de combate à falsificação de arte do FBI, disse que a proliferação das vendas online agravou o problema. “Antes, o vendedor tinha de encontrar um jeito de entrar no mercado, mas o e-commerce facilitou isso”, disse ele. 

As obras mais falsificadas são aquelas supostamente de Lichtenstein e Warhol, segundo especialistas. Mas os falsários também inundaram o mercado de falsas gravuras de Picasso, Klee e Gerhard Richter, bem como de falsificações de Marc Chagall, Joan Miró, Salvador Dalí e Henri Matisse. 

O aperfeiçoamento das técnicas de reprodução fotomecânica ajudou muito a produção de gravuras falsas. “Uma falsificação realmente boa pode enganar muitos especialistas”, disse John Szoke, marchand de Manhattan que vende gravuras de Picasso e Edvard Munch. Detectar as boas falsificações não é nada fácil, acrescentou. “São precisos testes rigorosos sobre a cor do papel, a qualidade da impressão, as condições da peça. E, principalmente, anos e anos de experiência.”.

O problema não está limitado à venda em sites. Susan Sheehan, marchand de Nova York especializada em gravuras do pós-guerra, disse que há um ano e meio comprou o que acreditava serem duas gravuras de flores de Andy Warhol por US$ 100 mil numa grande casa de leilões alemã.

“Comprei-as depois de ver fotos online em alta resolução”, disse ela. “A procedência era excelente, mas quando recebi as gravuras, suspeitei. O papel era brilhante. Os números das gravuras eram muito grandes. A superfície das impressões parecia nova demais.”

“Procurei opiniões de profissionais”, continuou Sheehan, “e levei as gravuras a duas das maiores casas de leilões de Nova York. Eles confirmaram que as gravuras eram falsas. Fiquei chocada, mas depois de uma luta de seis meses consegui meu dinheiro de volta.”

O termo “gravura” tem amplo significado, mas tradicionalmente é usado para descrever reproduções em edição limitada de arte visual original como gravura, litografia e entalhamento. Em cada caso, o artista cria uma imagem e trabalha com um editor ou impressor para produzir o número estipulado de cópias, destruindo com frequência após a impressão a placa, pedra ou outra matriz em que a obra foi feita.

Frequentemente, o artista assina cada impressão e enumera, por exemplo, 12 de 200 (12ª cópia de 200 produzidas). As falsificações, por outro lado, são tipicamente reproduções fotomecânicas dos originais. Elas são feitas por pessoas sem conexão com o artista e vendidas como se fossem obra desse artista. Geralmente vêm acompanhadas de certificados de autenticidade falsos. 

Sheehan disse que as reproduções mais falsificadas de Warhol são as de duas edições limitadas que ele fez, uma de Marilyn Monroe e outra de flores. Uma reprodução original de Marilyn pode custar até US$ 300 mil, segundo a marchand. “Dizem que há mais reproduções de Warohl falsas que originais, e algumas são tão boas que levo dois ou três dias para decidir se compro”, afirmou ela.

Especialistas afirmam que o grande problema com muitas reproduções vendidas como Picassos é que elas têm assinaturas falsas. Picasso fez cerca de 2.400 reproduções de gravuras, mas não assinou um grande número delas. Assim, algumas são Picassos verdadeiros, mas com uma assinatura falsa acrescentada.

Entre as reproduções de Picasso mais cobiçadas estão as de cem gravuras Vollard Suite, encomendadas a Picasso por seu marchand Ambroise Vollard. Picasso as fez entre 1930 e 1937 e Vollard pagou-o com quadros de Renoir e Cézanne que possuía. Um set completo de Suite assinado por Picasso foi vendido em novembro na Christie’s por US$ 4,815 milhões.

“Em Picasso, a assinatura é relevante, mas o que adiciona mesmo valor é a qualidade da reprodução”, disse Marc Rosen, ex-vice-presidente da Sotheby’s e hoje marchand autônomo. “Quem compra um Picasso só pela assinatura é idiota.”

Grandes plataformas de venda online como Amazon, eBay e Etsy disseram ter protocolos para impedir a venda de obras falsas e que continuam adotando salvaguardas adicionais. 

Mas Adrienne Fields, da Sociedade de Direitos de Artistas, disse que muitas reproduções falsas são encontradas em vários sites. “É como empurrar uma pedra morro acima”, disse ela. “Uma falsificação pode ser anunciada em muitos sites e não se sabe qual é o provedor.” Os preços, acrescenta, vão de US$ 10 a dezenas de milhares de dólares.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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