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Como a leitura se transformou em proteção na quarentena

O inventor do alfabeto pôs à disposição de cada um uma minúscula fábrica, capaz de conter todos os pensamentos dos homens de ontem e de amanhã

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2020 | 05h00

Devo a este coronavírus um efeito inesperado: é uma felicidade, quase uma festa, saber ler, sofregamente. Desse modo, posso, à minha maneira, esquecer dos desconfortos da solidão obrigatória e bronzear-me em uma praia do Nordeste, participar da epopeia guerreira de Bonaparte, ou penetrar sorrateiramente nas alcovas repletas de senhorita e rendas do século 18.

No entanto, na minha infância, a coisa começou mal. Eu era uma criança dócil, mas me sentia pouco atraído pela leitura. Não via necessidade nenhuma em ler. No colégio, tive de engolir como um ganso uma literatura francesa ultrapassada. Fui obrigado a decorar Racine e Corneille. Eu achava que escreviam mal. Os seus tormentos me pareciam fúteis e sua linguagem pretensiosa.

O único que me agradava, neste aspecto, era La Fontaine,  porque eu gostava das raposas que falavam com corvos. No entanto, preferia os desenhos animados daqueles tempos distantes. Achava que “Bibi Fricotin” se expressava melhor do que Andrômaco ou Athalie. Os meus preferidos eram “Les Pés Nickelés” (Filochard, Croquignol e Ribouldingue) malvados e malandros, brincalhões, um pouco ladrões, inimigos da polícia e anarquistas, e gostava também de Madame de Grand Air, que na tira de quadrinhos “Bécassine”, se expressa com palavras que têm mais graça do que as de la Bruyére.

Minha mãe me comprava livros mais adequados à minha idade, Jack London, Curwood, ou mesmo Júlio Verne ou Alexandre Dumas. Começava um ou dois, e então ficava entediado, e me refugiava em Bibi Fricotin. Depois, mamãe mudou de velocidade. Ficou decidido que todo fim de tarde, eu faria uma hora de leitura. 

Ela me instalava em uma poltrona, ao meu lado, um relógio despertador Jazz, cujo toque estridente me libertava. Não se poderia encontrar uma maneira melhor de detestar os livros. Mas eu amava muito  minha mãe, teria gostado de lhe agradar. Era uma tarefa insuperável, mas um dispositivo suplementar transformou esta penitência  em prazer. Na sala onde eu fazia a minha hora de leitura havia também uma moça que passava a roupa e ao mesmo tempo teria de verificar se eu lia de fato os livros. Era uma mulher linda, jovem, coquete, sorridente e pouco interessada na cultura e na leitura.

Enquanto ela trabalhava com o pesado ferro de passar, eu a entretinha com a leitura. Ela me vigiava com alegria. Eu aproveitava, disso. E colocava embaixo do livro que deveria ler (Júlio Verne, Alexandre Dumas, Alphonse Daudet) um “Bibi Fricotin” e um “Pieds Nickelés”. Juliette passava roupa assobiando umas árias espanholas, porque Oran, onde morávamos, era uma cidade muito espanhola. Trocávamos algumas palavras, algumas risadas, e ela voltava às suas tarefas. E eu também. O que consistia em deixar silenciosamente de lado os Dumas ou os Júlio Verne para ler por baixo deles, sempre de olho atento, os “Pieds Nickelés” ou “Bibi Fricotin”.

Esperava que Juliette fizesse uma pausa, dizia que ela tinha uma bela voz, e retomava a minha leitura dos “Pieds Nickelés”. Graças a Juliette, esta hora de leitura  tornou-se uma hora deliciosa porque ela era realmente bonita. Acho que ela acabou percebendo o meu estratagema, meu ardil, mas nunca me denunciou. Eu me pergunto aliás  se não tinha me apaixonado um pouco. Ou mesmo loucamente. Aconteceu que após algumas semanas, deixei meus “Bibi Fricotin” para ler livros de verdade. Mamãe ficou encantada e felicitou Juliette. Foi assim que o meu melhor professor de leitura foi uma espanhola que passava as camisas em Oran, seguramente em 1937, quando eu tinha 14 anos.

Comecei a ler. Sem entusiasmo, porque Juliette não estava mais lá. Anos mais tarde compreendi que um livro é um milagre. Estava passando as férias na casa de um tio,  em sua casa no Var. Volta e meia subia no sótão. Um dia, vi um pequeno volume amarelo de Arthur Rimbaud de quem havia ouvido falar na classe. Folheei o livro. Fiquei perdido. Estava não sei mais onde. Via as letras que, diante dos meus olhos, se arranjavam fazendo um milagre.

“A mim. A história de uma das minhas loucuras. Há muito tempo me gabava de possuir todas as paisagens possíveis, e achava risíveis as celebridades, as pinturas e a poesia moderna. Gostava de pinturas idiotas, frontões de portas, enfeites e de telas de saltimbancos, tabuletas, miniaturas populares, de literatura ultrapassada, do latim da igreja, livros eróticos sem ortografia, dos romances das nossas bisavós, refrãos simplórios, ritmos ingênuos...”

Tive de ler noites adentro, sem compreender grande coisa, mas cercado por paisagens, com sois, luas, ruínas, escombros, a música bruta de Rimbaud. Uma viagem, uma formidável viagem, em rincões longínquos, ou próximos, a meu pedido, debaixo de chuvas, pelas manhãs e nas noites. Mas o que  me fascinava antes de tudo era que as 26 letras do alfabeto que Rimbaud juntara pudessem obter o resultado vertiginoso de me doar o mundo.

Desde aquele dia, a escritura, os livros, a impressão, me enredaram, me prenderam, me fecharam, entregaram e despacharam aos quatro cantos do mundo. Eu não sabia quem era o inventor do alfabeto, sem dúvida um cameleiro fenício, mas o homem era um gênio. Ele concebeu e pôs à disposição de cada um uma minúscula fábrica, capaz de conter todos os pensamentos que foram produzidos pelos homens de ontem e pelos homens de amanhã. É destas reflexões que data o meu amor imoderado pela leitura, porque parece-me compreender o ruído silencioso das válvulas e das molas que me transportam do outro lado do espelho, junto dos matemáticos do século V antes de Cristo, nas trincheiras de 1914 ou nos esplendores e nas desordens da Renascença, ou dos Aztecas, ou para uma cena familiar entre um homem e uma mulher do século IX. Em suma uma página de escrita, é um formidável funâmbulo que me envia ao fim de todas as memórias arranjando algumas letras.

Desde então, os meus encantamentos jamais cessaram, nem a lembrança dessa leitura de Rimbaud. Sem esquecer de Juliette. Ainda hoje, cada vez que fecho um livro, ouço o eco do despertador Jazz que me diz que está na hora de terminar minha leitura. / Tradução de Anna Capovilla

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