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Como a literatura usou e usa o circo como cenário

Contemporâneos como Genevieve Valentine voltam a tratar desse universo em seus livros, como no passado

Silvia Moreno-Garcia e Lavie Tidhar, The Washington Post

29 de maio de 2021 | 16h00

O circo, com sua natureza peculiar e característica, é um cenário ideal para romances de fantasia, terror e ficção científica. Os autores vêm ganhando dinheiro em cima disso há anos. Stephen King aterrorizou uma geração inteira com Pennywise, o palhaço, em It: A coisa, de 1986, e depois abordou um parque de diversões 27 anos depois em Joyland. Em 2011, Erin Morgenstern encantou os leitores e fez um grande sucesso com O Circo da Noite. Então, quais outras grandes histórias também se passam sob a grande tenda?

Silvia Moreno-Garcia : Existem muitos contos que se passam em circos e parques de diversões. O conto Spurs de Tod Robbins serviu de inspiração para o filme Monstros de Tod Browning (1932). Embora Robert Bloch seja mais conhecido por ter escrito Psicose (1959), ele também foi um produtivo escritor de contos. The Double Whammy, publicado pela primeira vez na coleção Cold Chills, é protagonizado por um funcionário de parque de diversões que tem pavor de "geek" - o artista que mata galinhas em uma atração de circo. O jovem protagonista de Robert Aickman fica fascinado por uma mulher que é perfurada por lâminas na apresentação de um mágico em The Swords, da coleção Cold Hand in Mine. E. Catherine Tobler, uma escritora de fantasia subestimada erroneamente, tem uma coleção inteira de histórias de circo intitulada The Grand Tour, abrangendo uma gama de temas que vão do perturbador ao agridoce. Há também Circus: Fantasy Under the Big Top (2012), antologia de Ekaterina Sedia com histórias de Jeff VanderMeer, Genevieve Valentine, Holly Black e Tobler, entre outros.

Eu não tinha ouvido falar de Circus World (1981), escrito por Barry B. Longyear, até começarmos a escrever esta coluna e fiquei encantada em descobri-la. Não é realmente um romance, mas uma série de histórias interconectadas com uma das premissas mais bizarras que encontrei: um planeta habitado por pessoas que saem de uma nave espacial repleta de artistas de circo. Sim, uma civilização de circo. O livro não foi reimpresso, o que é uma pena.

Lavie Tidhar: Estou tão feliz que você gostou de Circus World. É realmente um clássico perdido e precisa ser republicado. Assim como alguns dos melhores romances de ficção científica, foi publicado inicialmente como uma série de contos em revistas. Talvez eu seja suspeito para falar do tema - meu fascínio por palhaços fez com que escrevesse meu próprio livro sobre o tema - The Escapement-, que será lançado neste ano. Se você estiver em Londres, talvez aconteça - como aconteceu comigo um dia - de tropeçar no túmulo de Joseph Grimaldi, o pai dos palhaços, que está enterrado, de forma um tanto estranha, atrás de um parquinho infantil não muito distante da estação de trem King's Cross. Uma cerimônia fúnebre em sua homenagem ocorre anualmente perto da igreja dos palhaços, a Santíssima Trindade em Hackney, com a presença de palhaços de todo o mundo. A igreja também mantém o Clown Egg Register (coleção de ovos de cerâmica pintados com rostos de palhaços) e, sim, isso é verdade.

Mas falemos de ficção! Genevieve Valentine é sempre uma escritora interessante, e seu romance de 2011 Mechanique: A Tale of the Circus Tresaulti é um mosaico maravilhoso dos estranhos habitantes do circo, incluindo trapezistas com ossos de metal e um par de asas mecânicas para agarrar, a batalha por elas faz parte do enredo. Viajando por uma paisagem apocalíptica devastada pela guerra, a trupe do circo está cercada de problemas. Um tanto steampunk e um pouco new weird. E este ano, fiquei muito impressionado com Bacchanal, da escritora estreante Veronica G. Henry. Situado na região sul dos Estados Unidos durante a crise de 1929 e apresentando um misterioso parque de diversões itinerante, trata-se de um romance de história negra e magia que garante uma leitura incrível.

Silvia: A prosa de Angela Carter é sempre mágica, e Noites no Circo (1984) é um livro divertido e delicioso sobre uma trapezista alada e o repórter tentando publicar a história de vida dela. O texto flui, os personagens são variados e únicos, as situações são bizarras e divertidas. Há algo de Tim Burtonesco neste livro no melhor dos sentidos.

Por último, um dos meus favoritos de infância era Ray Bradbury e Algo Sinistro Vem por Aí (1962), e ele continua parecendo muito bom. Dois adolescentes exploram um parque de diversões misterioso que recentemente chegou à cidade. Há algo triste nesta história, mas a imaginação explosiva de Bradbury tempera a escuridão. Bradbury também utiliza um artista de parque de diversões como fio condutor em sua coleção de ficção científica O Homem Ilustrado (1951), com as tatuagens do artista ganhando vida e contando cada história.

Lavie: O misterioso parque de diversões está conosco desde pelo menos o clássico de Charles G. Finney de 1935, O Circo do Dr. Lao, e não dá sinais de que irá desaparecer tão cedo. Uma grande perspectiva recente é The Troupe, de Robert Jackson Bennett, um thriller cósmico de 2012 ambientado nos EUA do início do século 20. Em The Troupe, o jovem George foge para se juntar à trupe de artistas de vaudeville de Silenus para encontrar o homem que ele pensa ser seu pai. Lentamente, George descobre o segredo do grupo: eles devem recriar o mundo cantando, enquanto evitam as atenções de "lobos" assassinos que querem destruir a criação. Depois, há The Pilo Family Circus (2006) do australiano Will Elliott, um romance com toques de terror em que um jovem, Jamie, mergulha na vida de um circo sobrenatural quando atropela um palhaço com seu carro. Quando Jamie se junta ao circo, acaba se tornando um palhaço - mas o palhaço em quem ele se transforma quer Jamie morto. É outro livro (sombriamente) divertido.

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

Silvia Moreno-Garcia é autora de Gótico MexicanoGods of Jade and Shadow (Deuses de jade e das sombras, em tradução livre) e do a ser lançado Velvet Was the Night(A noite era de veludo, em tradução livre). Lavie Tidhar é autor de vários romances, incluindo The Violent Century (O século violento, em tradução livre), A Man Lies Dreaming (Um homem mente dormindo, em tradução livre), Central Station (Estação Central, em tradução livre) e, mais recentemente, By Force Alone (Sozinho à força, em tradução livre).

 

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