Yaser Al-Khodor/Reuters
Yaser Al-Khodor/Reuters

Como a modernidade deu origem ao terrorismo, segundo uma especialista

'Terror e Modernidade', da professora italiana Donatella Di Cesare, analisa as raízes do terrorismo na atualidade

Martim Vasques da Cunha*, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2019 | 16h00

Das manifestações que a modernidade nos deu de presente, a única que não conseguimos administrar de forma razoável – e racional – é a do terrorismo, surgido tanto do Estado-Nação como das organizações subversivas que tentam ocupá-lo, custe o que custar. Não à toa que a professora de Filosofia na Università La Sapienza em Roma, Donatella Di Cesare, tenta resolver este enigma com seu pequenino tratado sobre o tema, intitulado justamente Terror e Modernidade (Ayiné, 258 págs., R$ 49,90).

Se ela consegue realizar tal feito, isto são outros quinhentos, como diria o vulgo. A princípio, tudo leva a crer que sim. Di Cesare faz um resumo histórico amplo, porém cristalino, para o leitor entender as diversas vertentes do que seriam as relações entre terrorismo e a modernidade. Seu relato começa in media res, com os trágicos ataques ocorridos no dia 13 de novembro de 2015 em Paris, quando um grupo de terroristas islâmicos massacraram 130 pessoas e feriram mais 360, todas espalhadas em diversos alvos públicos, como o Stade de France e o clube noturno Bataclan, marcando assim o evento “mais sangrento em solo francês desde a Segunda Guerra Mundial”. 

Depois, Di Cesare recua até o “Marco Zero” dos nossos tempos – a queda das Torres Gêmeas do World Trade Center, registrada no dia 11 de setembro de 2001 –, analisando a “Guerra ao Terror” promulgada pelo então presidente americano George W. Bush, uma resposta efetiva à atrocidade perpetrada por uma tribo que, de acordo com vários comentaristas políticos daquela época, era arcaica e estava distante das benesses do progresso moderno. Nada mais errado, segundo a professora italiana. Na verdade, os islâmicos radicais são um resultado direto da modernidade – e, mais, o próprio terror criado por eles para atingir a sociedade ocidental não passa da essência fundamental deste período que julgamos ser “o melhor de todos os tempos”.

Para provar o seu ponto, Di Cesare volta aos tempos da Revolução Francesa, entre 1789-1793 – e aqui começam os seus problemas. Apesar de reconhecer o componente terrorista nos trágicos governos de Robespierre e, posteriormente, de Napoleão, ela faz de tudo para descolar a essência do terror da revolução romântica imaginada por sua idiossincrática filosofia da História. Sim, para Di Cesare, a revolução não tem nada de aterrorizante; na verdade, foi um belo e edificante evento, cujo significado é de emancipação e, claro, de plena liberdade.

Ocorre que as vítimas concretas do terror das revoluções que se inspiraram na Francesa (entre elas, a Russa) indicam o contrário. Portanto, não seria um exagero afirmar que há de fato uma continuidade entre o fascínio dos jacobinos pela Madame Guilhotinne e a obsessão jihadista dos islamistas que desejam impor o seu califado global no resto do Ocidente. Contudo, ao retirar o componente revolucionário na sua análise do terror moderno, Di Cesare prefere se recolher em uma “melancolia de esquerda” (para usar a expressão de Enzo Traverso) e colocar a culpa na política de segurança dos Estados-Nações (em especial, os EUA), criando assim o conceito de uma “fobocracia”, uma política do medo na qual, para o cidadão escapar definitivamente do dilema entre segurança e liberdade, é fundamental ele entender que o terrorista que opta por explodir alguém em pedaços pretende apenas praticar um “novo modo de vida”.

Infelizmente, este raciocínio só existe para quem vive em um gabinete universitário, de preferência com ar condicionado. Na vida real, o “homem comum enfim” só pode optar ou pelo Leviatã do Estado que sufoca a sua consciência individual em troca de uma liberdade mínima, ou o Beemote que pisoteia a sua carne e os seus ossos com bombas, fuzis, misseis e os escombros dos prédios que caem sobre a sua cabeça. Trata-se de uma “vastidão dos espelhos”, cuja origem não deve ser encontrada na revolução encantada ou então nas teorias bem concatenadas de grandes pensadores da esquerda mundial, citados a mancheias por Di Cesare em seu livro, como Giorgio Agamben, Peter Sloterdijk e Slavoj Zizek.

Neste ponto, o lançamento conjunto de Terror e Modernidade com o antigo manuscrito da História do Doutor Fausto (É Realizações, 267 págs., R$ 54,90), que teria sido coligido pelo impressor alemão Johann Spies em meados do século 16, nos ajuda a entender como tudo começou. Ao contrário de Di Cesare, que não vê relação entre o terrorismo e a mentalidade revolucionária, o relato protestante articula, de maneira muito aguda, que, antes da revolução, o verdadeiro perigo a afligir a alma moderna é o da concupiscência ilimitada, o da curiosidade sem amarras que prefere ter o Diabo como aliado supremo. Eis aqui a raiz de qualquer revolução aterrorizante que desconhece a verdadeira modernidade a nos destruir a conta-gotas.

O Doutor Fausto do passado é o germe do terrorista do futuro porque ambos são, em seu núcleo imaginário, os revolucionários por excelência. Ambos são um novo tipo de ser humano que só a modernidade poderia ter criado: o “homem curioso”. Segundo o pensador brasileiro Mario Vieira de Mello, trata-se de “alguém que, em vez de se perder nos espaços do mundo exterior, perder-se-ia na interioridade de todo o mundo que evita a conquistar; é incapaz de entender que o mais importante é o domínio da sua interioridade, das suas paixões”. O mesmo acontece tanto com o Fausto da lenda alemã como o terrorista que pretende impor a sua “comunidade de sofrimento” por todo o globo terrestre. De maneira melancólica, os dois querem dominar o conhecimento deste mundo, mas são incapazes de dominar a si mesmos.

Ironicamente, na sua breve anatomia sobre este tópico gravíssimo e urgente, Donatella Di Cesare quis condenar a modernidade para salvar a revolução, mas acabou condenando o seu próprio trabalho. Apesar da sua inegável erudição, ela é restrita a pensadores da esquerda, quando, sem dúvida, também deveria se beneficiar com os estudos de scholars mais ousados (e desconhecidos do grande público), como Barry Cooper, Michael Burleigh, Richard Landes, Eric Voegelin e René Girard, entre outros. Ainda assim, Terror e Modernidade marca uma presença importante no debate contemporâneo, pois nos revela, mesmo que seja por meio das suas lacunas, um lado bem diabólico da nossa era repleta de temor e horror.

*Martim Vasques da Cunha é autor de Crise e Utopia – O Dilema de Thomas More (2012) e A Poeira da Glória (2015)

Tudo o que sabemos sobre:
terrorismoDonatella Di Cesare

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.