Feng Li/Reuters
Feng Li/Reuters

Como a nova Rota da Seda torna a Eurásia o novo centro do mundo

Três livros argumentam que o equilíbrio da geopolítica muda com os investimentos da China para integrar o continente

Redação, The Economist

16 de fevereiro de 2019 | 16h00

Indagado como decidiu escrever O Senhor dos Anéis, J.R.R. Tolkien respondeu: “Eu sabiamente comecei com um mapa e inseri nele a história”. Portanto, diz Bruno Maçães, quando se imagina novas realidades é natural começar desta maneira. Hoje um mapa revisado do mundo deve ter um foco radicalmente diferente dos anteriores – porque um vasto e integrado subcontinente eurasiano vem provando ser a característica marcante de uma ordem global emergente.

Antes, quando Oriente era Oriente e Ocidente era Ocidente, o fosso entre os dois não era somente geográfico, mas também moral e histórico. “Ásia” foi um termo inventado pelos europeus para enfatizar sua própria especificidade; para os imperialistas da era Kipling, as sociedades asiáticas eram atrasadas, despóticas e imutáveis. A Europa, pelo contrário, havia registrado avanços decisivos ao adotar um enfoque científico para as questões humanas – o que justificou seu domínio sobre outros continentes. À condescendência a resposta foi a concorrência. Desde a Restauração Meiji do Japão, em 1868, a modernização da Ásia por muito tempo se tornou uma cópia do Ocidente, ou por admiração pelos europeus ou por repulsa a eles, ou ambas as coisas. As transformações econômicas desde a 2.ª Guerra Mundial foram moldadas em parte pelas necessidades dos mercados ocidentais. 

Mas hoje a modernização que a Europa levou no início para a Ásia vem seguindo o caminho contrário. O continente eurasiano hoje está em ebulição com novas conexões, graças aos cabos de fibra ótica, gasodutos, estradas, pontes e zonas de manufatura ligando Oriente e Ocidente. Há dois anos, um trem de carga iniciava viagem em Yiwu, no leste da China, e chegava a um terminal ferroviário a leste de Londres. A façanha foi amplamente simbólica. Ninguém mais duvida que Ásia e Europa estão no mesmo voo.

Esse processo é o pontapé inicial de três novos livros muito estimulantes, que deixam claro que o mapa da política mundial como foi traçado há sete décadas não é mais adequado. Do centro do antigo mapa, como descreve Maçães, o poder dos Estados Unidos irradiava para a Europa e os extremos orientais da Eurásia, agindo como “uma espécie de desenvolvimento futuro contra os perigos emanando do seu núcleo mais profundo”, ou seja, os desafios comunistas representados por Moscou e Pequim. 

Hoje a integração cada vez mais profunda do supercontinente eurasiano que emergiu da Guerra Fria, com todas as deslumbrantes cidades que brotaram nos desertos, os portos que vêm sendo construídos ao longo das costas indo-pacíficas, não deveria surpreender os estudantes do capitalismo e do desenvolvimento. Mas muitos especialistas ocidentais em previsões erraram ao imaginarem que esse mundo seria feito à imagem do Ocidente; que ele adotaria não só as teses econômicas ocidentais, mas também os valores políticos liberais, com seu suposto apelo e legitimidade universal. Basta olhar para a extensão de terra da China e da Rússia para ver a insanidade dessa suposição. Outras potências iliberais, particularmente a Turquia e o Irã, vêm usando as glórias históricas do passado para evocar um futuro renovado, projetando poder ao longo de novas rotas da seda.

A integração econômica não está dissolvendo tais diferenças em termos de valores, mas reforçando. E não está claro que América e Europa conseguirão fazer muita coisa a respeito. Difundir os ideais democráticos não é uma prioridade fundamental para os Estados Unidos; o país deseja cada vez mais exercer poder à distância. A Europa Ocidental está se voltando para si mesma – profunda ironia – em resposta às crises que eclodem na Eurásia e chegam até ela, como as ondas de imigrantes e a intromissão da Rússia nas regiões de fronteira da Europa e sua política interna.

Maçães, cientista político português e antigo ministro do Exterior, esboçou alguns dos seus argumentos no livro The Dawn of Eurasia (O Despertar da Eurásia), publicado no ano passado. Em Belt and Road (Cinturão e Rota) ele examina principalmente o papel da China na remodelação do mundo. Até agora o projeto que é a marca do país no campo da política externa, é a iniciativa conhecida como “Um Cinturão, Uma Rota”. Abrangendo diversos países e US$ 1 trilhão em investimentos prometidos em infraestrutura, o objetivo é criar uma nova economia global com a China no centro. Apesar das negativas, esse projeto é também uma peça importante de engenharia geopolítica. Reflete o desejo da China de moldar seu ambiente externo em vez de simplesmente se adaptar a ele. Algumas pessoas se antecipam que esta será a maneira de a China substituir uma ordem internacional liderada pelos Estados Unidos pela sua própria. 

Comece com o mapa e a história o acompanha, como fazia Tolkien. Mas não há nenhum plano ou trama, diz Maçães. O presidente Xi Jinping e seus acólitos não são adeptos do determinismo marxista. Lenin é o melhor modelo quando aproveitam a chance fugaz de mudar o curso da história.

Com diz Peter Frankopan, historiador de Oxford, em The New Silk Roads (As Novas Rotas da Seda), quando Mike Pompeo, secretário americano de Estado, anunciou em julho um projeto dos EUA em oposição à Iniciativa “Um Cinturão, Uma Rota”, a soma prometida foi de US$ 113 milhões em novos programas – pouco mais do que a renda combinada de Ivanka Trump e Jared Kuchner. Do mesmo modo que Belt and Road acrescenta ao trabalho anterior de Maçães, The New Silk Roads também atualiza o magnífico livro de Frankopan The Silk Roads (As Rotas da Seda), de 2015, que mudou a opinião de muitos leitores quanto a onde se situa o centro de gravidade histórico do mundo.

A China vem reprocessando uma velha doutrina. Segundo o antigo conceito do tianxia, ou “tudo sob o céu”, a China estava no centro do poder e da civilização. Preceitos morais governavam as relações entre Estados. Observamos ecos disto nas ideias de Xi Jinping de uma “comunidade de um futuro compartilhado para a humanidade” e na constante ênfase nos resultados em que todos ganham, na dependência e no respeito mútuos. As obrigações dos países dependem do seu lugar numa rede cujo centro é a China.

A gratidão e a dependência dos outros são convenientes para a China à medida que ela busca reciclar seu superávit de divisas externas, empregar seus trabalhadores em canteiros de construção no exterior, garantir matéria prima e impingir uma produção de baixa qualidade para outros de modo a manter internamente sua melhor manufatura e melhores serviços de alta tecnologia. O governo Trump qualifica essa abordagem de “diplomacia da armadilha da dívida”. Mas esta noção deixa de lado a atração que ela exerce para muitos beneficiários da generosidade chinesa. No momento ninguém se mostra tão generoso quanto ela.

Além disto, como afirma Parag Khanna em The Future is Asian (O Futuro é Asiático), em que faz uma avaliação otimista de uma Grande Ásia, outros países recebem com simpatia as incursões da China “porque elas dão cobertura para eles implementarem suas próprias agendas comerciais”. E o fato de Índia, Japão, Coreia do Sul e Turquia se lançarem numa corrida infraestrutural armamentista não implica um jogo de soma zero em que uns ganham e outros perdem. Para Khanna, geoestrategista indiano radicado em Singapura, a China está “dando o pontapé inicial num processo pelo qual os asiáticos sairão debaixo da sua sombra”.

Khanna mostra-se pouco preocupado com os inconvenientes do autoritarismo. Ele atribui muita habilidade tecnocrática às elites da região e analisa superficialmente as brutais dimensões do desenvolvimento, incluindo a repressão da China contra os uigures. Mas, num ponto importante, ele concorda com Maçães e Frankopan: o futuro da Eurásia deverá ser mais maleável e não imutável e hegemônico. Nesta nova ordem mundial, as ações ainda provocarão reações. O alinhamento crescente do Japão, Austrália e Índia, países democráticos, em resposta ao posicionamento mais assertivo da China é somente um caso em análise.

Inevitavelmente, a Eurásia será coesa, mas não com base na opressiva união baseada no conceito do tianxia. Em seus aspectos diferentes, esses livros servem como antídoto aos temores americanos de uma disputa maniqueísta com a China. E detalham as forças latentes que já são impossíveis de ignorar. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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