Henry Leutwyler/ECM Records
Henry Leutwyler/ECM Records

Como a obra de Keith Jarrett prova que ele é o músico total do século 21

Pianista foi menino-prodígio, equilibrou jazz e música clássica, tocou com Miles Davis e é um dos principais intérpretes de Bach

João Marcos Coelho*, Especial para o Estadão

02 de abril de 2021 | 15h00

Desconfio, ou melhor, tenho certeza e portanto faço uma afirmação ousada: o pianista norte-americano Keith Jarrett – que anunciou sua aposentadoria forçada por dois AVCs sofridos em 2018 mas somente revelados em outubro passado – é um daqueles músicos de gênio que terá o conjunto de sua obra cada vez mais valorizado nas próximas décadas. O AVC teve sequelas trágicas. Levou um ano para conseguir andar com bengala em casa. E está com seu lado esquerdo – o que inclui sua mão – paralisado. Diz que tentou tamborilar algo no estilo de Bach com a mão direita, mas que não se considera mais “como um pianista”. Lamentou ainda perda parcial de memória. 

De outro lado, reconforta saber que será cada vez mais visto, analisado e avaliado como músico-modelo de uma nova postura que terá se consolidado plenamente daqui a meio século: o de raro músico total do século 21. Como Franz Liszt, celebridade mundana que também foi decisivo ao inventar o recital de piano solo, em meados do século 19, improvisar no calor da hora sobre temas sugeridos pela plateia e ainda ser um farol em direção à música do futuro (como a pequena mas explosiva Bagatela sem Tonalidade, escrita em 1885, um ano antes de sua morte e mais de duas décadas antes de Schoenberg). Muitos torcem o nariz para suas exigências de silêncio absoluto da plateia nos recitais, proibição de fotos. E chamam sua música de entediante. Será por que exige uma escuta ativa, tão ativa quanto a da música clássica contemporânea?

O tempo dirá. No momento em que, aos 75 anos, Jarrett fecha a tampa de seu piano e dá por terminada sua obra, precisamos nos livrar de preconceitos, supostas verdades que foram se sedimentando na história da música a ponto de hoje nos deformar os ouvidos, acostumados a empilhar músicos e compositores em gêneros determinados. Simplesmente não dá pra fazer isso com Jarrett.

O menino nasceu em Allentown, na Pensilvânia, de mãe austro-húngara e pai húngaro emigrados, em 8 de maio de 1945, o festejadíssimo dia da vitória dos aliados na 2ª Guerra Mundial.  Mae pianista, pai violinista. Aos 18 meses, ele cantava Night Before Christmas inteira, depois de ouvi-la no rádio. O ouvido absoluto e um piano de armário de segunda mão fizeram o resto. Teve as primeiras aulas de  piano antes do terceiro aniversário. Aos 5, participou na TV do show de Paul Whiteman, o célebre maestro que estreara a Rhapsody in Blue de Gershwin em 1924. Naquela altura, já estudava a sério, e era esperto o suficiente para acrescentar notas num concerto de Mozart mas tocá-la como estava escrito diante do professor. Deu seu primeiro recital aos 7 anos, com entrada paga: peças fáceis de Mozart, Bach, Beethoven (variações sobre ‘nel cor più non mi sento’), um noturno de Grieg, Schumann, Mendelssohn, Mussorgsky. Ao todo 14 peças nas primeiras três partes. Na última, duas composições dele mesmo: Um Passeio no Zoo e Cena na Montanha

Era o autêntico menino-prodígio, tal como o célebre Wolfgang Amadeus no século 18. A futura carreira clássica gloriosa desmanchou-se quando seus pais se separaram. Ele tinha 11 anos. E dali em diante mergulhou no jazz e nas músicas populares.

Os estudos na Berklee, a audição de grandes grupos de jazz como o quarteto de Dave Brubeck e a big band de Stan Kenton; e, na sequência o trabalho com os Jazz Messengers de Art Blakey e o quarteto do saxofonista Charles Lloyd o levaram naturalmente para o grupo fusion de Miles Davis onde tocou piano elétrico. Daí em diante, fez história, como se diz por aí.

 Este pequeno perfil biográfico já continha em germe tudo que fez de magistral nas décadas seguintes. Os dois quartetos nos anos 70 – um mais radical, de vanguarda mesmo, na Europa, outro mais hard bop, mas igualmente incendiário, nos EUA –, o Trio Standards, ao lado de Charlie Haden e Paul Motian (depois Gary Peacock e Jack DeJohnette), e a invenção dos recitais de piano solo inteiramente improvisados, sem nenhuma melodia conhecida (aventura genial iniciada em 1974 com o mítico álbum The Köln Concert, que já vendeu mais de 3,5 milhões de cópias). Na década de 90, Keith sofreu com a síndrome da fadiga crônica que quase encerrou sua carreira. Em 1998 voltou à ativa com um delicadíssimo recital gravado em seu estúdio, o emocionante The Melody at Night.  O clímax desta segunda fase solo, combinando rigor e liberdade, começou a construir-se em Radiance, de 2005, onde chegou praticamente à abstração. E no triplo Paris-London Testament, de 2009.

Nem ele nem nós sabíamos, mas o clímax real do recital solo é seu mais recente lançamento, o álbum duplo ECM Budapest, gravado ao vivo em 2016, dois anos antes de perder os movimentos da mão esquerda por causa do AVC. Nele há uma suíte em onze partes que ocupa pouco mais de uma hora. Os improvisos estão mais cerrados, a poderosa mão esquerda está lá, comandando ritmos intrincados e harmonias modernas. A primeira parte é puro Bartók; ou seria um Prokofiev mais atrevido? Isso até os 7 minutos, quando então pequenos episódios mais lentos e sombrios começam a se intrometer nas cascatas de notas anteriores mais brutais. Nos minutos finais, a mão direita toma conta de um tema que vinha pedindo passagem   sub-repticiamente desde o início. Os 6 minutos e pouco da segunda parte começam com pesados acordes “brigando” com a aparentemente cândida, mas melancólica e bela melodia da mão direita.

O que é isso? É uma peça de longa e intrincada arquitetura, em pé de igualdade com ciclos pianísticos que elogiamos sempre quando são assinados por Brahms, Bartok, Debussy, Scriabin, Ravel e outros compositores-faróis da chamada grande música, a música clássica. Foi o que compartilhei numa rara noite de abril de 2011, na Sala São Paulo. Os dois recitais dele, no Rio e em Sâo Paulo, como sempre foram meticulosamente gravados pela equipe da ECM, comandada por Manfred Eicher. Eicher lançou comercialmente apenas o do Rio. Afinal, Eicher possui milhares – milhares mesmo – de registros de apresentações do pianista neste último meio século, suficientes para abastecer os jarrettianos por décadas.

Este é o Jarrett mais conhecido. Mas há vários outros igualmente notáveis. E em vários níveis, ou gêneros, como se falava antigamente. 

 É preciso promover releituras e novas audições críticas de todas as facetas de seu imenso talento. Afinal, ele não é só um formidável pianista de jazz e improvisador emérito. Paralelamente ele também lapidou seutaletno com incursões incríveis em praticamente todas as formas da música dita clássica (exceto a sacra e vocal). 

Neste sentido, a década de 1980 foi fertilíssima. Concertos para piano? Num registro ao vivo daquela década, mas só lançado pela ECM em 2015,  Jarrett sola dois concertos de música do século 20: do norte-americano Samuel Barber (1910-1981), escrito em 1938 de tinturas pós-stravinskianas e com um belo Andante onde ele brilha de modo particular; e o terceiro e último concerto para piano de Bela Bártok, obra de 1945, menos exigente do que seus dois concertos anteriores, mas igualmente expressivo. No primeiro, é acompanhado por Dennis Russell Davies e a Orquestra da Rádio de Saarbrücken; no segundo, pela Nova Orquestra Filarmônica do Japão e Kazuyoshi Akiyama.

 Outras garimpagens magníficas: quase uma hora de improviso num órgão de tubos histórico em Estocolmo sem temas pré-conhecidos, como em seus recitais de piano; os concertos de Mozart a dois pianos com Chick Corea; Hinos e Esferas, onde adere ao misticismo de Gurdjieff; um lindo Adagio para oboé e cordas, gravado pelo oboísta sueco Marten Larsson em 2010 (no álbum From Bach to Jarrett).

Não perca a conta. Em 1985 encomendou ao compositor norte-americano Lou Harrison  um concerto para piano. Harrison (1917-2003), então com 68 anos, aceitou o desafio. Apesar de ter sido parceiro de John Cage na vanguarda radical norte-americana dos anos 1940, Harrison adotou um caminho totalmente diferente de Cage quando se apaixonou pelo som da orquestra de gamelões javaneses. Outros mundos musicais  se revelaram a ele. E dali em diante sua música passou a incorporar técnicas e instrumentos de outras culturas musicais do planeta. Neste concerto Harrison brinca misturando a harmonia natural dos instrumentos de cordas com a harmonia temperada do piano [no piano, as notas fá sustenido e sol bemol foram artificialmennte equalizadas para reproduzirem o mesmo som. Mas na harmonia natural as coisas não são assim. Fá sustenido e sol bemol indicam sons diferentes].  É esta riqueza perdida que Harrison visa recuperar. “O concerto”, disse ele, “explora as muitas belezas desta mistura”. Jarrett fez a estreia com a Nova Orquestra Filarmônica do Japão, regida por Naoto Otomo. No mesmo álbum, com a violinista Lucy Stoltzman, acompanhados pela mesma orquestra, interpretam a “Suíte para violino, piano e pequena orquestra”, uma gema de Harrison dos anos 1950 mergulhada nas sonoridades dos gamelões javaneses.

Voltemos ao Jarrett pianista solo digamos ortodoxamente clássico. Bastariam duas gravações estupendas: os 24 prelúdios e fugas opus 87 de Dmitri Shostakovich, o monumento que o compositor russo compôs impactado em 1950 pela execução do Cravo Bem Temperado por Tatiana Nikolaieva no Concurso Bach de Leipzig, do qual era membro do júri; e outro registro, ao vivo, de março de 1987 no Troy Savings Bank Music Hall em Nova York e só lançado comercialmente pela ECM no final de 2019.  O recital aconteceu um mês depois de Jarrett ter gravado o Cravo em estúdio (os álbuns saíram naquele mesmo ano). “Quando toco Bach”, declarou o pianista logo depois deste registro, “praticamente ouço o pensamento se processando. Qualquer acréscimo não tem nada a ver com este processo”. Atento à partitura, seu piano flui de modo natural. Como, talvez, Bach, emérito improvisador, soaria ao tocar estes prelúdios e fugas. De Bach, ele gravou quase tudo. 

Tá bom ou quer mais?, como martela o comercial de rádio que divulga a exposição de Leonardo da Vinci no MIS Experience. 

*João Marcos Coelho é crítico musical e autor de 'Pensando as Músicas no Século XXI' (Perspectiva)

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