Laura Himmelstein/Estadão
Laura Himmelstein/Estadão

Como a obra de Svetlana Aleksiévitch narra o colapso da União Soviética

Premiada com o Nobel de Literatura, a escritora tem 'Meninos de Zinco' publicado no Brasil

Flávio Ricardo Vassoler*, Especial para o Estado

01 de fevereiro de 2020 | 16h00

Com a publicação de Meninos de Zinco (tradução de Cecília Rosas), a Companhia das Letras conclui a apresentação ao público brasileiro das cinco obras da escritora Svetlana Aleksiévitch, laureada com o Nobel de Literatura em 2015, que caminham entre os grandes marcos e escombros da finada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). 

Em A Guerra não Tem Rosto de Mulher e As Útimas Testemunhas, ambos traduzidos por Cecília Rosas, Aleksiévitch compila relatos de pessoas que, historicamente, estiveram alijadas das guerras – e, quando elas não puderam escapar dos combates e seus descalabros, invariavelmente sofreram suas consequências: mulheres e crianças que sobreviveram à Grande Guerra Patriótica (1941-45) – eis o nome que os russos dão à 2.ª Guerra Mundial (1939-45). Nessas duas obras, a foice e o martelo soviéticos despontam trágica e heroicamente como estandartes da vitória sobre as tropas invasoras do ditador alemão Adolf Hitler (1889-1945). Sobre os cadáveres de mais de 20 milhões de soviéticos, a URSS irradiou o Exército Vermelho para o Leste Europeu e disputou a hegemonia geopolítica do mundo com os Estados Unidos ao longo da segunda metade do século 20. 

Já em Vozes de Chernobyl (tradução de Sônia Branco) e Meninos de Zinco, os relatos compilados por Svetlana Aleksiévitch deparam com uma URSS combalida, como um enorme dragão que expele as últimas labaredas enquanto agoniza: do acidente nuclear catastrófico em uma usina situada na cidade ucraniana de Chernobyl, ocorrido em 1986, aos estilhaços narrativos legados por soldados, oficiais e parentes dos militares que participaram da guerra imperialista que os soviéticos moveram contra o Afeganistão, ao longo da década de 1980, os leitores entreveem o colapso do colosso socialista, cujos sentidos Aleksiévitch procurou acompanhar em seu livro O Fim do Homem Soviético (com tradução de Lucas Simone). 

Na esteira da derrota norte-americana na Guerra do Vietnã, em meados da década de 1970, e da revolução que alçou o aiatolá Khomeini (1902-1989) como líder religioso e político da República Islâmica do Irã, em 1979, a URSS invade o Afeganistão com um duplo propósito: estender ainda mais sua influência imperial sobre a Ásia Central e evitar que os ventos sediciosos após a vitória dos xiitas iranianos se propagassem por repúblicas soviéticas com grande contingente populacional muçulmano, tais como o Turcomenistão, o Uzbequistão e o Tajiquistão, países fronteiriços ao Afeganistão. 

À população soviética, no entanto, o governo contou a mentira de que as tropas estavam no Afeganistão cumprindo seu dever “internacionalista”: os soldados construíam hospitais e escolas e, de maneira geral, ajudavam os afegãos a construir seu Estado socialista. Svetlana Aleksiévitch nos revela que as cartas enviadas pelos militares aos parentes sofriam forte censura, e fotografias não eram permitidas. Os cadáveres dos soldados soviéticos, cuja idade oscilava entre 18 e 20 anos, eram mandados para casa em caixões vedados de zinco, seguidos por escoltas militares com ordens de que os caixões não fossem abertos. As famílias dos “meninos de zinco” jamais puderam ter certeza de que seus filhos, irmãos e maridos estavam mortos e de que seus corpos de fato estavam nos caixões. O Estado não fornecia quaisquer explicações para as mortes, e as lápides levavam a inscrição “Morreu cumprindo seu dever internacionalista”, um eufemismo para “morto em combate”. 

Nessa atmosfera de verdades amordaçadas, mentiras sórdidas como (des)razão de Estado e anatomia da violência, os olhares de Svetlana Aleksiévitch, que esteve no Afeganistão em pleno teatro de operações, capturam a seguinte história de um jovem que volta para casa: “Eu estava na sala de espera de uma estação de ônibus. Lá havia um oficial com uma mala, e, ao lado dele, estava um jovem bem magro, cuja cabeça raspada revelava sua identidade de soldado. O jovem cavava em um vaso de planta com um garfo. Duas mulheres interioranas se sentaram perto deles e, por pura curiosidade, perguntaram para onde estavam indo e quem eles eram. Elas logo descobriram que o oficial estava escoltando o soldado de volta para casa. O jovem ficara louco: ‘Ele está cavando nesse vaso desde que nós saímos de Cabul [capital do país]. Tudo de que ele se apodera vira material para começar cavar. Pás, garfos, bastões, canetas...’. O jovem elevou os olhos e murmurou: ‘Preciso me esconder... Eu vou cavar uma trincheira... Não vai demorar... Nós chamávamos as trincheiras de covas fraternais... Eu vou cavar uma grande trincheira para todos vocês’”. 

MENINOS DE ZINCO

AUTORA: SVETLANA ALEKSIÉVITCH 

TRADUÇÃO: CECÍLIA ROSAS

EDITORA: COMPANHIA DAS LETRAS

320 PÁGINAS

R$ 59,90 

*FLÁVIO RICARDO VASSOLER É ESCRITOR E PROFESSOR, DOUTOR EM LETRAS PELA USP, COM PÓS-DOUTORADO EM LITERATURA RUSSA PELA NORTHWESTERN UNIVERSITY (EUA). É AUTOR DE, ENTRE OUTROS, ‘DOSTOIEVSKI E A DIALÉTICA: FETICHISMO DA FORMA, UTOPIA COMO CONTEÚDO’ (HEDRA, 2018) E ‘DIÁRIO DE UM ESCRITOR NA RÚSSIA’ (HEDRA, 2019) 

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