Jeenah Moon/The Washington Post
Jeenah Moon/The Washington Post

Como a pandemia de covid-19 transformou a crítica de arte

Críticos foram libertados de alguns de seus velhos hábitos, que não pareciam mais particularmente úteis e ficou tão fácil escrever sobre arte virtualmente do mundo todo quanto era cobrir um show do outro lado da cidade

Philip Kennicott, The Washington Post

05 de dezembro de 2020 | 16h00

Como muitos de meus colegas que escrevem sobre artes, entrei em pânico quando a pandemia fechou museus, galerias, teatros e salas de concerto em março. Sobre o que eu iria escrever? Alguma coisa sobre a qual eu escrevesse poderia ser relevante quando o país enfrentava hospitais lotados, um número crescente de mortes e uma economia destruída?

Oito meses depois, nunca estive tão ocupado. É uma bênção profunda, considerando a quantidade de gente que perdeu seu meio de vida. Mas também sinaliza mudanças significativas na maneira como a crítica foi transformada pela crise e o motivo pelo qual talvez nunca volte a ser a mesma.

A pandemia e as fissuras sociais que ela exacerbou, como as gritantes divisões ao longo das linhas de classe e raça, embaralharam as categorias usuais da vida americana, até mesmo aquelas que outrora governavam as artes. As regras antigas foram deixadas de lado, em alguns casos porque surgiram necessidades urgentes que superaram o valor da tradição e muitas vezes porque não pareciam mais fazer sentido. A pandemia ajudou a abalar algumas de nossas conversas mais dolorosas e persistentes, derrubando as normas usuais.

Depois de décadas de angústia e discussão sobre monumentos a pessoas que usaram seu poder e privilégio não para o bem público, mas a serviço da supremacia branca, de repente essas estátuas começaram a cair em cidades como Richmond, onde antes eram consideradas históricas e sagradas demais para serem tocadas. As orquestras sinfônicas, atrasadas em quase todos os aspectos no que diz respeito à mudança social, não eram mais as guardiãs quando se tratava de defender o velho “cânone” contra a música de mulheres, negros e compositores de fora da tradição ocidental.

Os críticos também foram libertados de alguns de seus velhos hábitos, que não pareciam mais particularmente úteis. As programações não eram ditadas pelas principais instituições de arte e, sem espetáculos acontecendo em algum lugar “da vida real’, ficou tão fácil escrever sobre arte virtualmente do mundo todo quanto era cobrir um show do outro lado da cidade.

Livres da obrigação de seguir um calendário regular de aberturas de exposições, uma programação de concertos ou uma marcha semanal de estreias teatrais, os críticos passaram a escrever mais sobre sua experiência pessoal da arte do que sobre o conteúdo específico de alguma arte em particular. Talvez a pandemia tenha deixado as pessoas, entre elas os críticos de arte, mais sensíveis também para a arte, mais cientes dos processos intelectuais e emocionais que nos ajudam a entendê-la e mais capazes de descrevê-la.

Este momento mais reflexivo e mais pessoal na crítica de arte pode ampliar o público da escrita sobre a arte. Como os críticos lidam com arte diariamente, às vezes eles falham em comunicar algo mais fundamental: a experiência vívida de ter arte na vida cotidiana, o “por que é importante” que faz você voltar, vezes seguidas, ano após ano. Um ano atrás, minha leitura diária era determinada pelo que os curadores consideravam importante e relevante, ensaios de catálogo e artigos acadêmicos relacionados às próximas exposições. Agora, sigo minhas paixões e é sempre mais fácil comunicar as próprias paixões do que as paixões dos outros.

As redes também foram transformadas. Existe uma forte dimensão social na crítica que, vista de fora, pode parecer indistinguível do pensamento de rebanho. Vista de dentro, parece mais uma luta constante para se manter atualizado com uma linguagem comum, para estar atualizado com uma lista sempre em evolução de nomes e tópicos – quem todo mundo está acompanhando e pelo que nos interessamos?

Não é uma coisa totalmente cínica, porque muitas redes de pessoas funcionam de maneiras semelhantes. Mas com os críticos dispersos, as galerias fechadas, os artistas trabalhando isolados e o aparato social que normalmente serve como o éter comum do mundo das artes em suspenso, me sinto muito mais livre para gostar das coisas sem pedir permissão, sem nenhum indício de estratégia ou cálculo. Quando passo um tempo fora do Twitter, é quase como se tudo que eu odiava no lado sombrio do mundo das artes nem existisse mais.

A pandemia também deixou claro que os artistas existem em categorias bastante diferentes do que imaginávamos. Antes do lockdown, a concepção comum sobre os artistas – uma visão que não era particularmente precisa e parecia amplamente determinada pelos estereótipos deixados pelas “guerras culturais” do século passado – era que eles pertenciam às chamadas elites costeiras. Eram mais vistos como intelectuais do Brooklyn ou tecnocratas do Vale do Silício do que, digamos, como alguém que desempenha funções necessárias dentro de uma economia de serviços em pequenas comunidades de todo o país.

Os velhos estereótipos ruíram diante da devastação da economia das artes e da privação pessoal de artistas, performers, pequenos empresários que administram galerias e líderes de organizações sem fins lucrativos que lutam para manter os grupos artísticos comunitários à tona. Os artistas podem ser muito mais criativos do que muitas das pessoas que são agrupadas nessa velha e cansada categoria – a classe criativa – mas sofreram muito mais com esse período de desconexão forçado do que as pessoas que passam a maior parte de seus dias movendo dados nas telas.

O que está óbvio agora deveria ter sido óbvio antes: a dispersão geográfica das artes e a vulnerabilidade econômica de muitas pessoas no campo das artes. Esses fatos deixarão mais difícil – mais escandalosamente vergonhoso – difamar as artes como algo elitista, fora de alcance ou apartado da vida americana.

Uma das velhas regras mais rigorosas que está caindo agora é a divisão tipo igreja-estado entre artistas e críticos, uma linha vermelha que muitas vezes fazia com que parecessem antagônicos. É um assunto delicado e, até certo ponto, para que os críticos sejam justos, a antiga independência precisa ser respeitada. Mas, desde que a pandemia libertou os críticos de seus padrões usuais, o mundo das artes parece maior, mais rico e mais amplo. E, quanto mais coisas sobre as quais escrever, menos amargas ficam as velhas batalhas e disputas. O crítico pode seguir seu próprio gosto, de obra em obra, de entusiasmo em entusiasmo, não mais obrigado a julgar coisas que não lhe interessam. Um pintor figurativo russo trabalhando com carvão e aquarela? Um artista conceitual que vive inteiramente fora do sistema acadêmico ou de galeria? Nunca ouvi falar deles? Quem se importa? Por que não?

Acho que, desde o início da pandemia, as artes parecem mais desesperadamente importantes do que nunca – e não tenho mais tempo para nada que não importa. Escolho os livros que leio com mais cuidado e os leio mais devagar. E me vejo disciplinando minha mente da maneira que os professores às vezes fazem com os alunos rebeldes: se você não vai prestar atenção, faça outra coisa. Talvez isso seja mais evidente para mim em minha vida social, muito circunscrita e radicalmente transformada. Não é só que vejo menos pessoas e por menos tempo: quando vejo pessoas, não perdemos tempo. As conversas chegam mais rapidamente à essência, parecem menos performativas e ritualizadas.

Para os críticos que tiverem a sorte de ter empregos e acesso ao público depois da pandemia, esta talvez seja a essência da crítica pós-pandêmica: mais pessoal, mais direta, mais empática, mais aberta e menos formal. Se os críticos ainda quiserem trocar estocadas e manter as pessoas em padrões mais elevados, será para exigir a mesma autenticidade das instituições que um dia determinaram tanto de nossa vida cultural. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Tudo o que sabemos sobre:
artes plásticascoronavírus

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.