Instituto Moreira Salles
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Como a poesia de Antonio de Franceschi embaralhou referências

Poeta paulista morto este mês não foi nem concretista nem beat nem surrealista, mas traçou um caminho singular

Wilson Alves-Bezerra, Especial para o Estadão

08 de junho de 2021 | 07h00

Quem pensar num poeta paulista, circulando pela São Paulo no início dos anos 1960, pensará num concretista, ou pensará num beat-surrealista. Antonio de Franceschi, um jovem de vinte anos naquela época, e que acaba de nos deixar, embaralha essas referências. Nascido em Pirassununga, veio viver na metrópole e se tornou amigo de poetas que viriam a ser alguns dos mais importantes da geração dos Novíssimos – aqueles que se reuniriam em torno ao editor e artista gráfico Massao Ohno, responsável pela antologia e a coleção que deram visibilidade e vazão a toda uma geração, no início dos anos 60. Com Roberto Piva, Claudio Willer e Rodrigo de Haro, De Franceschi compartilhava o gosto pela cidade e pelas descobertas literárias: Federico García Lorca, San Juan de la Cruz, Jorge de Lima e Fernando Pessoa foram perscrutados com avidez.

Conta-se que, recém-iniciada a segunda década de vida, os amigos De Franceschi e Piva estavam a meio caminho entre a literatura e a filosofia. A influência do filósofo Vicente Ferreira da Silva e de sua esposa Dora os fez avançar na obra de Heidegger e parecia levar a balança pender a rumo certo. A inesperada remessa a São Paulo, por uma tia de Piva, de uma porção de livros da geração beat – publicados pela editora norte-americana City Lights – fizeram o aspirante a filósofo Roberto Piva tornar-se o poeta que hoje conhecemos por Paranoia (1961), obra que com felicidade cruza o legado do modernismo brasileiro à obra de Ginsberg e dos surrealistas.  

Para Antonio de Franceschi a beat não teve tal efeito. Poesia para ele era outra coisa. O que o seduziu naquele início de anos 60 foi mesmo a filosofia, que o levou a cursar o bacharelado na USP.  Nada que o tenha impedido de levar adiante a amizade visceral com Piva, Willer e Rodrigo de Haro, noites adentro, aquecidas – nas palavras do próprio – na alta gradação do Fogo Paulista. Os episódios memoráveis do grupo ficaram devidamente registrados no belo documentário Uma Outra Cidade, de Ugo Giorgetti (2000) e no livro reportagem Os Dentes da Memória, de Camila Hungria e Renata D´Elia (2010).

Curioso é pensar que o filósofo De Franceschi atravessou os anos 60 e 70 como poeta inédito; casou-se e foi trabalhar por anos a fio no mercado financeiro. Até que depois de mais de vinte anos cedeu – segundo diz – às pressões de Caio Graco (1931-1992), o então editor da Brasiliense. Lançou seu Tarde Revelada, em 1985: um livro maduro e surpreendente, composto por poemas em que a poesia, o livro e o próprio poema sendo escrito eram os temas: em Quatour fala o poeta que empaca na quarta linha de sua escrita, “linha de resistência / que nome dar à impotência / retorno inútil da frase / ao ponto de partida? // em vão assim a poesia / contra o fatal limite / o quarto / se continha / e tudo além era afasia”. Também a memória foi tema recorrente naquele volume e, em poemas a um só tempo filosóficos e imagéticos, lê-se: “A memória retém os que devem ficar. / Mesmo os que fugazes, teimam em partir. / Lembrar é fingir” ( Hora Memória).

Tarde Revelada instaura uma circularidade, com a reiteração de temas e imagens, em que o mar e a memória – assuntos fundantes de sua poética – se estabelecem: “Mas recupere-se sobretudo / antes que tarde / a memória perdida / do caminho / para que tudo possa / no eterno fluxo / a seu tempo e hora / recomeçar”. Tanta precisão e delicadeza renderam ao livro o prêmio Jabuti daquele ano de 1986. Como também lhe renderia um prêmio APCA seu livro seguinte, Caminho das Águas (1987).

Sobre sua poesia, disse Piva: “é hermética, muito mágica, muito cheia de mistérios, são meandros que percorrem esta vivência urbana e cósmica dele, de uma forma espantosa. Ele consegue sintetizar em um poema curto toda uma experiência de mundo.” É esta experiência que em seu livro Sal (1989) se mostra plena: logo no primeiro texto, a voz poética assume a persona de Sinbad, o marujo, para narrar sua jornada vital como navegação: “e tão breve foi o dia / pelas astúcias da vida / que me fiei sem receio / no imponderado percurso / era sul? / era norte? / era noite e eu não sabia”.

    Em sua trajetória poética, De Franceschi, o filósofo, está sempre presente. Questões epistemológicas são elaboradas, poemas confrontados geram paradoxos. Certa feita diz: “que nomear é assombro / roçar delicado / susto e faro / no âmago / como pegadas no chão” (“Pneuma”). Noutro momento, como no poema “Algo” (incluso no livro-reportagem “Os dentes da memória”) tangencia o inominável, dando-lhe contorno.

No livro Fractais (1990), oferece ao leitor, em espelho, epigramas sobre cada um dos termos de pares mínimos: quente/frio, mole/duro, céu/inferno, transparente/opaco etc.; ao final, um posfácio de Antonio Houaiss, define não apenas o livro, mas a poética de seu autor: “De Franceschi como que nos avisa: como Ali Babá, eu sabia que o caos verbal – o tesouro – existe; como ele, quis o ‘abre-te, Sésamo’, mas não queria roubar, pois só queria um fóton cuja ausência na gruta ninguém notará mas poderá – quem sabe? – enriquecer a colina...”

Ao se consultar os sete livros de poemas que compõe sua obra lírica, lançados ao longo de três décadas,  entre 1984 e 2010, revela-se uma trajetória de coesão impressionante, construída de modo singular, em um percurso em nada circunstancial. 

Foi com essa postura discreta que ele ajudou a conceber o projeto do Instituto Moreira Salles, de 1990  até 2008. Foi ainda o artífice e diretor de alguns projetos literários fundamentais às letras brasileiras, como os Cadernos de Literatura Brasileira, que tanto recolocaram em evidência autores importantes, como Hilda Hilst e Raduan Nassar, quanto reordenaram materiais de outros canônicos, como Guimarães Rosa e Drummond, editados com maestria pelo jornalista Rinaldo Gama.  Todos os cadernos tornaram-se bibliografia fundamental de consulta a pesquisadores.

Quando o conheci pessoalmente, em 2014, aposentado do Instituto e já tendo posto um ponto final à sua obra lírica, ele falou emocionado ao público numa palestra sobre sua obra na Universidade Federal de São Carlos, do quão decisivo fora para ele a leitura do poeta italiano Eugenio Montale. De como no poema “Os limões” seus ideais de poesia se realizavam à maravilha. Custei a entender o quanto eram a simplicidade e a marginalidade do eu lírico que topava não com as plantas raras, mas com o cheiro o brilho simples dos limões sicilianos, o que o seduzira. Como que pelas bordas se chegava ao âmago. 

Copio o trecho inicial do poema, na tradução de Renato Xavier: “Escuta-me, os poetas laureados / movem-se tão somente entre as plantas / de nomes pouco usados: buxos ligustros e acantos. / Eu, por mim, gosto de caminhos que levam às agrestes / valas aonde em poças / já meio secas rapazes apanham / alguma enguia miúda: / as veredas que seguem junto às bordas, / descem por entre os tufos de canas e chegam até os hortos, no meio dos limoeiros. // (...) Aqui das distraídas paixões / por um milagre cala-se a guerra, / aqui até a nós pobres cabe nossa parte de riqueza / e é o aroma dos limões.” (“Os limões”, Eugenio Montale. Trad. Renato Xavier)

Por aqueles tempos, a memória – tema tão caro à sua vida e à sua poética – começava a lhe trair. Antonio de Franceschi escrevia seus poemas finais e ao fixar a falta, a contornava. Fiquemos com esse poema de 2015 à maneira de homenagem final do poeta:

ANTIMEMÓRIA

            Voltar ao seio da memória dura

            E se perder como primeiro passo

            Sabendo sem saber ardido

            Pensar caída a pedra a que peguei

            Nem outra a que pudesse escura

            E não me armei

            Dias perdidos a que se saibam

            Embora assim o nada cala

            E armar nem isso é o vazio

            Joguei os dados entre os dedos

            Incerto e não do que pedia:

            Voltar à vida é coisa fria

 

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