Academia Paraibana de Letras
Academia Paraibana de Letras

Como a poesia de Augusto dos Anjos lançou as bases do modernismo

Estudo inédito lança luz sobre aspectos pouco debatidos da obra do poeta paraibano

Donny Correia, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2020 | 16h00

A rigor, e cada vez mais, o poeta é um ser maldito. O senso comum faz troça daqueles que consideram “desocupados, sem talento para fazer algo que tenha serventia”. Os poetas, por sua vez, defendem a “liberdade da inspiração”, não sem antes digladiarem entre si mesmos. E há, ainda, aqueles que se comportam como “lobos solitários”. Elegem sua forma de acordo com observações própria e criam poéticas difíceis de serem qualificadas dentro de um movimento estético específico.

É precisamente este o caso de Augusto dos Anjos (1884-1914), poeta paraibano cujo trabalho mais importante – e único publicado em vida – Eu, de 1912 foi sempre um tabu nos estudos literários e, mesmo com a abordagem de alguns dos mais renomados pesquisadores, como Antonio Candido e Anatol Rosenfeld, cruzou o brevíssimo século 20 dividindo opiniões. Agora, o espólio criativo de Augusto volta a ser tema de um estudo inédito, Augusto dos Anjos: Um Moderno Entre os “Ismos” (Desconcertos), do também poeta e escritor Del Candeias, ensaio analítico derivado de sua tese de doutorado defendida na FFLCH/USP há cinco anos.

A proposta de Del é lançar luz sobre algo que permeia a verve de Augusto há algum tempo: sua relação com os primeiros passos para o modernismo brasileiro, uma ideia que parecia não ter consistência nos anos seguintes à morte do poeta, ou seus simpatizantes não tiveram disposição o suficiente para trazer maiores evidências à tona. Por isso, o autor do ensaio parte da pergunta crucial: o que faz de Augusto dos Anjos essa “singularíssima pessoa” no cruzamento da poesia romântica com o parnasianismo e demais tendências? Em primeiro lugar, Del nos aponta que o jovem estudante de Direito na Faculdade do Recife viu passar diante de seus olhos os mais impensáveis e traumáticos eventos da modernidade entre o final do século 19 e início dos anos 1900. A filosofia darwinista, o Positivismo, a expansão colonial no mundo – coincidente com a queda do Império no Brasil e o surgimento da República –, o fim da escravidão e a decadência dos engenhos de açúcar que afetaria diretamente sua vida e o sentimento de que toda a filosofia da História Humana não bastaria para explicar a posição desse homem moderno numa civilização fadada à autofagia.

Augusto dos Anjos, um inquieto, porém introspectivo, escritor, valia-se de sua pena para filosofar em versos e especular a partir de um universo que está nas moléculas, como se a primeira célula da vida humana já estivesse condenada à danação. Esta pretensa fé na ciência esconde uma angústia para com o fato de que a vida é tão efêmera que está subjugada até mesmo por serem monocelulares e invisíveis, segundo Del Candeias. E nada mais atual do que esta ideia.

Além disso, o estudo da obra de Augusto traz à luz um importante exame formal de sua obra. O poeta recorreu ao Romantismo, movimento sólido em seu tempo, para justamente negar os elementos que identificam esse estilo. A ideia do ser escolhido; do poeta como encarnação predestinada; da herança primitiva e bucólica cai por terra, como bem explicita o poema O Lázaro da Pátria, por exemplo: “Filho podre de antigos Goitacases, / Em qualquer parte onde a cabeça ponha, / Deixa circunferências de peçonha, / Marcas oriundas de úlceras e antrazes”. Del aponta que há uma “assimilação negativa” do Romantismo brasileiro em Augusto, que se coloca contra a reificação das fórmulas fixas comuns àquele tempo. A porção espiritual aparece como paródia na poesia do paraibano, sobretudo quando ele se vale de termos estritamente técnicos para se tornar um eu-lírico “filho do carbono e do amoníaco”.

Esta exuberância de uma linguagem tão estranha ao leitor de sua época, colocou Augusto dos Anjos em algum lugar entre o Romantismo tardio, o Parnasianismo, o Simbolismo, o Decadentismo e demais “ismos” pensados por falta de uma categorização mais clara. Mas, Del Candeias defende em seu livro que Augusto foi um poeta que semeou o germe do modernismo na literatura brasileira, provocando uma ruptura silenciosa. Tão silenciosa, que não foi ouvida pela geração de 1922 e teria desaparecido, não fossem os esforços de influenciadores que conheceram o raquítico e atormentado poeta, como foi o caso de Orris Soares, que já em 1919 já destacava a importância do falecido amigo, a despeito de alguns detratores que nunca compreenderam Eu, ou não leram com a devida lupa.

Conta uma lenda literária que Olavo Bilac, ao saber da morte de um tal de Augusto dos Anjos, foi aconselhado a ler alguns versos do poeta recém-vencido pela Tuberculose. Bilac o fez e teria proferido: “É este o tal poeta brilhante que vocês me recomendam? Ele fez bem em morrer”. O Príncipe dos Poetas que continue ouvindo estrelas em sua torre de marfim. Assim, podemos dar atenção aos vates de maior relevância em nossa vanguarda e recolocá-los nas instâncias de novos e urgentes estudos.

*Donny Correia é doutor em Estética e História da Arte pela USP, crítico de arte e cinema.

Tudo o que sabemos sobre:
literaturaAugusto dos Anjospoesia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.