Carlos Chicarino/Estadão
Carlos Chicarino/Estadão

Como a poesia de João Cabral de Melo Neto buscou o extremo da linguagem

Obra completa do poeta pernambucano é organizada pelo imortal Antônio Carlos Secchin

Rodrigo Jorge Ribeiro Neves, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2021 | 15h00

Em determinada cena do documentário Recife/Sevilha (2002), o poeta João Cabral de Melo Neto recorda um espetáculo de flamenco a que assistiu acompanhado de uma bailarina da Andaluzia, na Espanha. Pergunta a ela se gostava do cantor, e a moça responde que não, pois o artista não se expõe. João Cabral, então, na entrevista, ressalta que tanto o toureiro quanto o artista flamenco estão sempre no extremo. Estar no extremo do gesto ou da voz é se colocar sob risco. E para se manter nos limites, sem permitir que tudo se perca, é necessário ter consciência, empenho e rigor, virtudes indispensáveis não apenas dessas duas atividades, mas também da poética cabralina. 

O extremo, neste caso, não se atinge por excesso, e sim pela busca incessante em alcançar os limites da linguagem poética no que ela tem de substancial e concreto. “Escrever é estar no extremo/ de si mesmo”, já dizia o poeta em seus versos em Museu de Tudo (1975). O extremo do rio é a margem que controla a direção e o fluxo das águas, o extremo da faca é o fio da lâmina que atravessa as superfícies e reparte os objetos, e o extremo da plataforma de embarque ou desembarque é o portão que adia, por um instante, a despedida ou o reencontro. Na poesia, o extremo é a palavra explorada e reconfigurada em suas dimensões, do som ao sentido, da forma à imagem. 

Raros poetas modernos em língua portuguesa conseguiram atingir as potencialidades dessas dimensões como João Cabral, em um esmerado e consciente processo construtivo do poema. E a nova edição de sua Poesia Completa, lançada pela Alfaguara no ano em que celebramos 100 anos do nascimento do poeta pernambucano, reafirma seu lugar único na poesia brasileira e o prestigiado espaço na lírica ocidental. A organização da edição, o estabelecimento do texto, o prefácio e as notas são do grande especialista na poesia de João Cabral de Melo Neto, o poeta e imortal da ABL Antonio Carlos Secchin. Ele é autor de diversos estudos sobre a obra cabralina, dos quais se destaca João Cabral: Uma Fala só Lâmina (2014), em que reúne seu clássico ensaio João Cabral: A Poesia do Menos (1985), revisto e ampliado, e outros estudos sobre o poeta. Secchin já havia reunido toda a obra de Cabral em Poesia completa e prosa (2008), pela Nova Aguilar. Colaborou nessa edição da Poesia Completa a professora e pesquisadora Edneia R. Ribeiro, que defendeu pela UFMG, em 2019, a tese Um Museu de Duas Faces: Poesia de Circunstância em João Cabral de Melo Neto.

A edição de Poesia Completa reúne os 20 livros publicados por João Cabral, de Primeiros Poemas, escritos entre seus 17 e 20 anos, mas apenas editados em 1990, a Sevilha Andando (1990), tributo de seu amor à cidade espanhola e à mulher. A novidade em relação às coletâneas anteriores é o que traz o “Apêndice”. São duas publicações póstumas, Ilustrações para Fotografias de Dandara (2011), com poemas escritos quando esteve no Senegal, em 1975, a partir das fotografias recebidas da neta, e a inacabada A Casa de Farinha (2013); mais uma série de 62 poemas distribuídos entre “Dispersos” e “Inéditos”, estes obtidos por meio de minucioso trabalho de pesquisa no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, da Fundação Casa de Rui Barbosa. As notas aos textos estabelecidos com base nos manuscritos restituem os caminhos e impasses da criação. Aliás, é preciso destacar, ainda mais nestes tempos, a importância dos arquivos: não apenas repositório protocolar de documentos, pessoais ou não, eles são instrumento dinâmico de resgate e valorização da nossa cultura. 

Os poemas de João Cabral de Melo Neto, principalmente a partir de O Engenheiro (1945), surgem do empenho construtivo no estabelecimento de uma relação entre as coisas e os seres, em um arranjo meticuloso dos signos linguísticos, resultando em uma poesia de aspereza sintática e de grande contenção verbal. Ele se afasta do mergulho em uma subjetividade caudalosa e da inspiração como métodos de criação, próprios de uma lírica de tradição romântica. Portanto, sua poesia se caracteriza como antissentimental e antilírica, o que não significa ausência de emotividade, afinal, conforme justamente a epígrafe de O Engenheiro, citação do arquiteto francês Le Corbusier, sua intenção era criar uma “machine à émouvoir” (“máquina de comover”). É como uma lira severa. 

A abertura à comunicabilidade também é um aspecto importante a ser evidenciado na poesia de João Cabral. No “Prefácio” de Poesia Completa, Secchin esclarece a intenção do poeta quando denominou de Duas águas a primeira reunião expressiva de sua obra, em 1956. Cada “água” representaria uma “dicção” ou modo de “fazer poesia”: uma de “comunicação imediata” e outra de “leitura reflexiva”, com algumas confluências entre elas. No entanto, salienta que a “grandeza de João Cabral só se revela na consideração de ambas, e não no endosso unilateral da água ‘mais fluente’”, pois é fundamental submergir tanto no “oceano, comunicativo” quanto se banhar, pacientemente, no “minguado riacho nordestino, seco e exíguo”. 

Em uma época como a nossa, a poesia de João Cabral de Melo Neto se torna ainda mais essencial, pois nos conduz, a contrapelo do imediato e da vertigem, através do fluxo dessas águas, sem tirar do caminho aquilo que nos aniquila e faz tropeçar, confrontando-nos com o extremo da linguagem e do que falta em nós: “Vou na mesma paisagem/ reduzida à sua pedra./ A vida veste ainda sua mais dura pele./ Só que aqui há mais homens/ para vencer tanta pedra,/ para amassar com sangue/ os ossos duros desta terra./ E, se aqui há mais homens,/ esses homens melhor conhecem/ como obrigar o chão/ com plantas que comem pedra./ Há aqui homens mais homens/ que em sua luta contra a pedra/ sabem como se armar/ com as qualidades da pedra” (O rio, ou relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife).

*Rodrigo Jorge Ribeiro Neves é crítico literário e doutor em estudos de literatura pela UFF, com pós-doutorado no IEB-USP

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