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Como a Rota da Seda fez do Oriente o centro do mundo, segundo este historiador

'O Coração do Mundo', de Peter Frankopan, trata da Rota da Seda como o sistema nervoso central do mundo antigo

Marcos Guterman*, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2020 | 16h00

O historiador inglês Peter Frankopan, uma das jovens estrelas da Universidade de Oxford, especializou-se no intercâmbio econômico, religioso e cultural entre o Ocidente greco-romano cristão e o Oriente multifacetado da Ásia Central, das estepes russas e do mundo islâmico. Desse interesse surgiu o livro O Coração do Mundo, recém-lançado no Brasil pela Crítica, que se propõe a jogar luz sobre essa complexa relação — e a partir dela, de maneira imodesta, oferecer uma “nova história universal”.

O eixo e ponto de partida do trabalho de Frankopan é a Rota da Seda, nome genérico que se deu às rotas comerciais que ligavam o extremo oriente à Europa no mundo antigo. Em seu início, servia para que os chineses vendessem sua preciosa seda aos europeus abastados. Em pouco tempo, a rota se prestou não somente ao comércio de muitos outros produtos, mas também às relações (e choques) entre dois mundos profundamente distintos.

Habilmente, Frankopan reconstitui as etapas mais importantes dessas relações, na melhor tradição da historiografia que privilegia a longa duração, para proporcionar ao leitor um ponto de vista radicalmente distinto da produção habitual, que tem como centro o Ocidente. É nisso que o historiador inglês se apoia para dizer que está a produzir uma “nova história” — o que é obviamente um exagero. Na verdade, o que Frankopan chama de “nova história” é uma tentativa de questionar as certezas ocidentais em relação ao Oriente. Ou, em suas próprias palavras, “uma alternativa de olhar a História”.

Trata-se de um objetivo plenamente válido, pois a História só renova sua importância quando se aventura fora da zona de conforto, em que as perguntas já vêm respondidas, a partir de convicções ideológicas. O risco, contudo, é trocar uma ideologia por outra. Ao longo das 571 páginas de seu impressionante livro, Frankopan não esconde sua simpatia pelo Oriente, seu objeto de estudo, e tende, em várias passagens, a exagerar virtudes de povos orientais apenas como meio de ressaltar o que enxerga como defeitos insanáveis dos povos ocidentais. “O mundo antigo era muito mais sofisticado e interligado do que costumamos às vezes imaginar”, escreve Frankopan, para em seguida dizer que “encarar Roma como progenitora da Europa Ocidental omite o fato de que ela em muitos aspectos era moldada por influências do Oriente”.

Nessa toada, o autor diz, a todo momento, que a Historiografia ocidental — especialmente a partir da expansão ultramarina no final do século 15 e começo do 16, que deslocou o centro do mundo para a Europa — manipulou o passado para encaixá-lo no seu discurso de superioridade e poder sobre o Oriente, dando à Grécia e a Roma o peso de berço da civilização. Frankopan dá a entender que pouco do que foi produzido sob esse espírito tem real valor como História. Trata-se de uma visão discutível.

A ser assim, deveríamos reservar ao lixo da história, por exemplo, a produção do Iluminismo, movimento intelectual dos séculos 17 e 18 que ganhou esse nome, por parte de seus orgulhosos contemporâneos, justamente para contrastar com a “idade das trevas” medievais. Hoje se sabe que nem as trevas da Idade Média foram tão trevosas nem as luzes do Iluminismo foram tão luzentes — Adorno e Horkheimer, em sua Dialética do Esclarecimento (1969), chegaram a dizer que o Iluminismo, ao reduzir todos os fenômenos do mundo a teorias alegadamente racionais, igualou-se à imaginação mítica medieval que pretendia superar. Nem por isso desprezamos a produção intelectual iluminista, que em grande medida continua em vigor e muito influente até os dias de hoje. Do mesmo modo, não parece sensato desqualificar a Historiografia ocidental em relação ao Oriente porque, em algum momento, serviu a propósitos políticos. 

Ainda assim, Frankopan presta inestimável serviço, como historiador, ao chamar a atenção para o problema da visão deturpada legada pelo pensamento imperialista europeu do século 19 , que justificou e ainda justifica toda sorte de agressões ocidentais na Ásia e na África como corolário da “inferioridade” e da “incivilidade” dos povos orientais e africanos — tão bem retratado no poema O Fardo do Homem Branco (1898), em que o poeta inglês Rudyard Kipling incitava os norte-americanos a travar “guerras selvagens pela paz”. Teria sido igualmente importante, contudo, que o autor lembrasse, como faz o jornalista holandês Ian Buruma em seu ensaio Ocidentalismo (2004), que a mentalidade imperialista é encontradiça igualmente no Oriente — a expansão do império japonês a partir do final do século 19, por exemplo, se deu à custa das “raças inferiores”. Para muitos orientais, o Ocidente, como mostra Buruma, é fonte de inquietação, decadência e caos cosmopolita, e por ameaçar a ordem religiosa com questionamentos científicos deve ser combatido inclusive com violência terrorista. Nesse aspecto, o nazifascismo, com seu anti-racionalismo radical, foi fonte de inspiração para muitos ideólogos nacionalistas japoneses e árabes.

Frankopan parece inclinado a uma certa complacência com o Oriente, relevando-lhe a violência ou colocando-a na perspectiva de uma resposta quase natural ao colonialismo ocidental. O autor faz comparações e traça paralelos no esforço de demonstrar que nossa percepção sobre a superioridade econômica e cultural do Ocidente ante o Oriente é construída, não é natural, e que houve momentos na história em que o contrário foi verdadeiro. Diz, por exemplo, que, na Idade Média europeia, “enquanto o mundo muçulmano deleitava-se com inovações, progresso e novas ideias, boa parte da Europa cristã atrofiava-se na melancolia, incapacitada pela escassez de recursos e falta de curiosidade”. Naquela época, ironiza Frankopan, os fundamentalistas eram os cristãos, e não os muçulmanos.

É um tanto infantil essa tentativa de “virar o jogo” a favor do Oriente, que também construiu uma poderosa historiografia contrastando sua suposta superioridade cultural com a decadência ocidental. Ora, a leitura dos vestígios históricos sempre sempre serviu a discursos políticos, e uma historiografia que não salienta esse aspecto, ainda mais uma que se pretende “nova”, não cumpre a função essencial de encontrar no passado as raízes do modo como pensamos no presente.

Fiel ao propósito de recolocar o Oriente no centro da História, Frankopan qualifica a antiga Rota da Seda como o “sistema nervoso central do mundo”, responsável por transformar a região num lugar infinitas vezes mais próspero e desenvolvido que o Ocidente. Apesar dessa importância, diz o historiador, trata-se de objeto de estudo ignorado pela historiografia ocidental graças à visão de que o Oriente é uma região periférica. Nesse sentido, diz corretamente que “o presente varreu o passado”. Contudo, é fato também que tal riqueza não foi capaz de produzir progresso efetivo, ao contrário do que aconteceu na Europa, em que houve enorme impulso tecnológico a partir da ascensão da burguesia — classe inexistente ou irrelevante nas sociedades fortemente hierarquizadas de grande parte do Oriente. Esse aspecto também escapa à análise de Frankopan, embora seu próprio trabalho tenha abundantes elementos para que ele pudesse fazê-lo, se quisesse.

O livro de Frankopan atravessa séculos de relação entre Oriente e Ocidente tendo como foco particular a economia, desde o encantamento romano diante das riquezas e do prazer que as distantes terras orientais inspiravam. Foi esse comércio que estabeleceu as bases para o cruzamento de religiões e culturas — estar ao lado do “deus certo” significava assegurar prosperidade, num jogo com múltiplas implicações políticas e sociais, todas abordadas com brilhantismo e erudição por Frankopan. Nessa relação acidentada, havia tanto paixão quanto repulsa: enquanto uma parte do mundo medieval cristão, por exemplo, nutria genuína admiração pela cultura e pela erudição do Oriente, outra parte, movida por ambição, agia de maneira selvagem — como “animais”, na definição de um cronista da época ao relatar o avanço dos cruzados.

Esse padrão de relacionamento ambíguo se consolidaria com a corrida colonial europeia a partir do século 19, passando pela disputa, especialmente durante a guerra fria, pelas riquezas geradas pelo petróleo, até chegar à abordagem norte-americana de promoção da democracia em países oprimidos e devastados por ditaduras — sempre, como mostra Frankopan, tendo como leitmotiv a tentativa de remodelar o centro da Ásia para garantir os interesses dos Estados Unidos na região.

Hoje, nesse longo processo, assiste-se ao vivo à reemergência asiática como foco das atenções globais. “O centro de gravidade do mundo (…) volta ao local onde esteve por milênios”, diz Frankopan, razão pela qual é preciso se questionar, como faz o historiador, se o Ocidente está ciente de que sua hegemonia histórica pode ter chegado ao fim.

O coração do mundo

Autor: Peter Frankopan

Tradução: Luis Reyes Gil

Editora: Crítica

688 páginas

R$ 136,90

*Jornalista e doutor em História pela USP, autor do livro Nazistas entre Nós (Editora Contexto)

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