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Gael Turine/The New York Times
Gael Turine/The New York Times

Como a tinta a óleo foi a inovação tecnológica que permitiu o Renascimento

A pintura a óleo foi para a arte do século 15 o mesmo que a câmera dos celulares foi para os nossos dias: o catalisador de uma explosão de imagens

Jason Farago, The New York Times

05 de março de 2020 | 17h04

GANTE, BÉLGICA - Dizem que Deus está nos detalhes; mas algumas obras de arte são tão repletas de detalhes, cada fio de cabelo tão nítido, cada dobra do tecido tão fidedigna, que o resultado chega a ir além do divino. Na Bélgica, quase seis séculos atrás, o pintor Jan van Eyck usou uma novíssima tecnologia – a tinta a óleo – e tornou-se o pioneiro de uma arte de tal grau de precisão a ponto de quase negar sua função religiosa, ultrapassando a inspiração das preces e se convertendo em algo eterno em si. Ainda hoje, para o público secular, a rigidez formal de seus quadros pode parecer vinda de outro mundo.

Alguns artistas nos inspiram. Van Eyck nos deixa estupefatos. E a exposição Van Eyck: An Optical Revolution [Van Eyck: Uma Revolução Ótica], a maior reunião já feita das pinturas desse super-homem do início do Renascimento, que agora ocupa o Museu de Belas Artes da cidade belga de Gante, é uma máquina de maravilhamento contínuo.

Van Eyck nasceu em 1390 no leste daquilo que hoje é a Bélgica, e trabalhou e morreu na próspera Bruges. Mas é em Gante, a cidade universitária flamenca, que encontramos seu maior feito: o altar da Adoração do Cordeiro Sagrado pintado por ele em parceria com o irmão Hubert.

Ao longo dos dez anos mais recentes, os restauradores daqui têm trabalhado na restauração de duas dúzias de painéis – retratando Jesus e Maria, Adão e Eva e uma ovelha curiosamente humanoide – que inspiraram peregrinações, adorações, tumultos e pelo menos seis roubos. Napoleão roubou vários dos painéis, e os nazistas levaram a peça toda; os Caçadores de Obras-Primas devolveram o altar à Catedral de São Bavão em 1945, mas um dos painéis de Van Eyck continua perdido.

A expressão “oportunidade única na vida”, que costumo considerar um golpe baixo do marketing, realmente se aplica à exposição. Para essa ocasião singular, os oito painéis externos do altar, recentemente restaurados – incluindo uma Anunciação que traz Maria e Gabriel vestindo o chique cinza belga –, foram tirados da catedral, sendo expostos como pinturas independentes, o que significa que podemos nos aproximar delas como nunca antes. No fim de abril, serão levadas novamente à Catedral de São Bavo, de onde não devem mais sair.

Além do altar, sobreviveram apenas 22 pinturas assinadas por Van Eyck, e 12 delas foram trazidas para a exposição, bem como outras nove com autoria atribuída a Van Eyck e seus assistentes do ateliê. A elas se somam tapeçarias, estátuas de mármore, manuscritos com iluminuras e pinturas de outros flamencos como Petrus Christus e contemporâneos italianos como Fra Angelico, resultando em uma exposição verdadeiramente celestial.

O Museu de Belas Artes de Gante (conhecido pelas iniciais holandesas MSK) teve a sagacidade de liberar toda uma ala das galerias do seu acervo para abrir espaço para a mostra, contextualizando as mudanças trazidas pela arte ultrameticulosa de Van Eyck em seis salas introdutórias. Os Países Baixos da Borgonha eram uma das áreas mais urbanizadas da Europa no início do século 15. Conforme a região enriqueceu, e com a saída da corte de Bruxelas para Gante e finalmente Bruges, os homens notáveis da região disputavam a encomenda de obras de arte luxuosas e cultas – incluindo, pela primeira vez, a pintura de painéis.

Jan van Eyck (e seu irmão) anteviram a ascensão da Borgonha, e esse artista imigrante rapidamente conquistou a confiança do duque Felipe, o Bom, para quem trabalhou como pintor na corte, confidente e até mesmo espião. Desse epicentro artístico e cultural, Van Eyck desenvolveu um novo estilo de pintura sem precedentes, que fez o a iconografia planificada da arte gótica darem espaço às requintadas ilusões de corpos em espaços reais. Ele descobriu que, ao variar o quão rígida ou suavemente ele pintava uma árvore ou uma construção, ele seria capaz de reproduzir em uma superfície plana de madeira de álamo as profundidades dos campos flamengos ou o interior de um palácio.

Ele usou efeitos de luz para simular a maciez da carne que, mesmo em pequena escala, fazia santos parecerem seres humanos reais. Considere sua Madonna na Fonte, na qual a Virgem Maria paira em três dimensões diante de um tapete brocado, mantido no alto por dois anjos de asas multicoloridas. Em sua moldura é possível ler a marca registrada do autor, uma tirada brilhantemente arrogante: “Als Ich Kan,” or “Tão bom quanto pude.” 

O que alavancou o repetino naturalismo de Van Eyck – a sensação incrível, como o historiador da arte Ernst Gombrich escreveria, de que ele segurava “o espelho da realidade com todos os seus detalhes”? Para começar, novos conceitos científicos a respeito da ótica, reflexões e pontos focais. Coordenação motor que faria um arqueiro olímpico invejá-lo. Sobretudo, a inovação da pintura a óleo, que seca mais lentamente que a têmpera, e que pode ser misturada ainda úmida para produzir contornos, sombras e contrastes luminosos.

A pintura a óleo foi para a Flandres do século 15 o mesmo que a câmera dos celulares foi para os nossos dias: o catalisador de uma explosão de imagens. Os retratos se tornaram mais robustos e vívidos; podia-se passar um dia inteiro observando o retrato que Van Eyck fez do ourives Jan de Leeuw (emprestado pelo Kunsthistorisches Museum de Viena), sentado em posição angular, aparentemente projetando-se da moldura.

E a tinta a óleo, acima de tudo no altar dos irmãos Van Eyck, deu origem a uma nova arte religiosa de tal exatidão que os fiéis poderiam olhar para além deste mundo, para o mundo etéreo. No painel do altar que retrata Adão nu, transferido para o MSK, podemos ver os pelos escuros de suas pernas brancas, e até as unhas dele são meticulosamente curvadas. Nas asas de Gabriel vemos cada pena, em uma graciosa coloração que vai do verde ao dourado até chegar ao rosa.

A Anunciação da Virgem, habitualmente ofuscada pelos painéis mais coloridos do altar, aparece aqui como peça avulsa. O rosto tem uma textura que lembra a madrepérola. O cabelo macio é retratado com pinceladas borradas e enevoadas que antecipam em décadas a maestria do sfumato vista em Leonardo. Eu já tinha visto a peça à distância no MSK, onde o restauro foi feito. Mas esse painel de Maria me pareceu ser uma nova obra de Van Eyck: e uma das obras de arte mais lindas que já vi.

A concentração não facilita as coisas na Catedral de São Bavão, no centro histórico de Gante, onde os painéis interiores do altar estão em exposição. São mostrados em uma salinha abarrotada, e ainda que a igreja proíba a conversa e as fotos no interior, isso não ajuda quando ouvimos a cacofonia de dezenas de audioguias portáteis (a catedral vai abrir um novo centro de intérpretes no segundo semestre, e tenho um pedido a fazer: por favor, audioguias com fones de ouvido).

Nessas condições, e com as obras de Van Eyck a uma distância de mais de um metro e meio, atrás de um vidro espesso, tive dificuldade para formar uma opinião em relação ao restauro – especialmente em relação ao rosto do Cordeiro de Deus, que em janeiro deu origem a milhares de memes mais dignos dos ruminantes do que dos descendentes de Adão.

O altar parece mais claro e nítido do que da última vez que visitei Gante. Maria reluz, os anjos cantam. Mas é difícil apreciar a beleza do altar aqui como algo além de uma joia rara que precisamos conhecer antes de morrer. Foi algo que me fez pensar na tela do meu iPhone, que emite luz em cada pixel, e não sei se isso é bom ou ruim.

Se as inovações de Van Eyck são difíceis de ver na catedral, mais um motivo para aproveitar a oportunidade de ver os painéis externos em exposição no MSK. Pense nisso: vemos mais imagens em um mês do que os fiéis de Flandres do século 15 viam durante toda a vida. E até nós, em meio à nossa enxurrada de memes, sentimos algo parecido com o maravilhamento que eles devem ter vivenciado diante dessas pinturas de 600 anos atrás, nas quais a invenção humana se estende rumo ao sagrado. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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