Disney/Amazon/Netflix
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Como Adam Driver se tornou um dos melhores atores de Hollywood

Ainda jovem, ele consegue tomar conta de uma cena mesmo quando não a protagoniza

Sonia Rao, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2019 | 16h00

Assistindo a uma cena primariamente dedicada à dinâmica entre o protagonista de um filme e seu rival romântico, um espectador pode não esperar que o cara do canto, ao acaso, atraia muita atenção. E, no entanto, como os personagens de Oscar Isaac e Justin Timberlake em Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum, de 2013, gravam uma música inovadora implorando ao presidente John Kennedy para não os enviar ao espaço sideral. Não é apenas a harmonização ou as letras que fazem a bizarra música funcionar, mas a maneira pela qual seu parceiro de tela, Adam Driver, a pontua com ruídos cômicos e refrões – “Espaço...sideral” – apresentada com sua marca registrada de barítono.

Esse é Driver em poucas palavras, alguém que, em parte graças à sua grande presença e seu jeito geral de ser, não pode deixar de dominar a tela. A série Girls, da HBO, na qual ele estourou como o volátil Adam Sackler, ainda apresenta uma cena em que outro personagem observa que “de certa forma ele se parece um pouco com o homem original”. O episódio foi ao ar em 2012, no início de uma década que provou ser estelar para o ator indicado ao Oscar, e que ele culminou com uma robusta presença: ele estrela como protagonista em dois filmes, História de um Casamento e O Relatório, e interpreta um vilão no próximo grande sucesso de bilheteria de Star Wars: A Ascensão Skywalker.

Então, como foi a temporada de Adam Driver? Existe a intriga estética mencionada acima que uma vez levou o Guardian a indagar ao esbelto ator sobre o fato de “não ser o McHunk padrão de Hollywood”, ao qual ele respondeu com franqueza: “Já me disseram antes que tenho um rosto incomum. Mas meu rosto é o meu rosto.” Seu sucesso provavelmente se deve pela forma como esse sentimento de honestidade fundamentada se manifesta em suas performances.

Driver, que treinou na Juilliard depois de servir nos fuzileiros navais, transmite uma intensidade tranquila que pode capturar uma variedade de sentimentos, às vezes ao mesmo tempo. Nas primeiras temporadas de Girls, por exemplo, os maneirismos de Adam geralmente exibem uma mistura de alcance reprimido e vulnerabilidade emocional.

Driver já ganhou elogios por sua atuação em História de um Casamento, de Noah Baumbach, lançado sexta-feira na Netflix; ele conquistou o prêmio Gotham de melhor ator na noite de segunda-feira, reforçando sua posição de líder na corrida ao Oscar. Baumbach escalou Driver em outros três projetos antes deste, e fica claro enquanto se assiste História de um Casamento que, como foi o caso da co-estrela Scarlett Johansson, o personagem foi escrito com Driver em mente. Eles interpretam um casal - o diretor de teatro Charlie Barber e a atriz Nicole - cujo casamento desmorona por conta de prioridades desalinhadas. A empresa de Charlie fica em Nova York, onde os Barber criaram seu filho pequeno a maior parte de sua vida. Nicole, que há muito tempo se entregava ao ego de Charlie adiando seu sonho de voltar para casa em Los Angeles, volta ao trabalho quando se separam.

O que se segue é uma meditação sobre o divórcio, um olhar compassivo de como ele pode libertar duas pessoas, mas ainda dizimar seus espíritos quando eles reavaliam sua vida juntos. Baumbach impregna seu roteiro com comédia, mas é quando a tensão entre Charlie e Nicole atinge o clímax que os atores brilham mais. Quando uma tentativa de dissecar os detalhes de seu divórcio sem advogados evolui para uma troca de gritos, Charlie, com o rosto vermelho de frustração, grita com Nicole: “Todo dia eu acordo e desejo que você estivesse morta”. Ele imediatamente começa a chorar, caindo de joelhos e abraçando as pernas de Nicole.

Em uma recente entrevista ao Hollywood Reporter, Driver disse que, com essas cenas, “você não pressiona pela emoção. Ela acontece ou não”. Ele credita sua capacidade de retratar de forma tão transparente sentimentos conflitantes como os de Charlie à qualidade de um roteiro, o que parece verdadeiro - várias de seus desempenhos mais fortes estão ligados a escritores aclamados, incluindo Lena Dunham, Jim Jarmusch, Spike Lee e Martin Scorsese.

O esforço da equipe é especialmente evidente nas cenas mais discretas de Driver. Seu episódio final de Girls, com o título desajeitado O Que Faremos Desta Vez a Respeito de Adam? começa com o desejo de Adam de provar à sua ex-namorada Hannah Horvath (Dunham), que ele descobre estar grávida, que ele amadureceu e se transformou num homem que pode ajudar a criar seu filho. Após a reunião, há uma sequência onírica que desaba quando eles se sentam frente a frente em uma lanchonete. Embora continuem discutindo a logística de morar juntos - Adam até sugere que se casem - percebe-se que o relacionamento não vai dar certo. Os olhos de Hannah se arregalam quando Adam sorri melancolicamente, gaguejando até que suas palavras parem. Eles ficam em silêncio por um tempo. Ele comenta sobre a qualidade de sua sopa.

O papel de Driver como funcionário do Senado Daniel J. Jones em O Relatório é igualmente voltado para dentro, desta vez uma representação relativamente controlada de raiva, enquanto ele passa anos investigando o uso de tortura pela CIA após o 11 de setembro. Driver enfrenta a difícil tarefa de ancorar um filme que envolve pesadamente examinar documentação em um espaço confinado, mas ele realiza isso, como o New York Times afirmou, expressando essa fúria “não em confrontos explosivos, mas em uma resolução gradualmente mais difícil de resolver para proteger e divulgar suas descobertas”.

“Com o Driver, sempre há uma sensação de que algo está acontecendo, e seus personagens parecem estar operando em um avião acima e adiante de todo mundo”, continua a crítica Jeannette Catsoulis.

É verdade sobre seu papel indicado ao Oscar no filme Infiltrado na Klan de Spike Lee como Flip Zimmerman, um policial judeu melancólico que se disfarça para derrubar a Ku Klux Klan. Isso vale também para seus personagens em dois filmes de Jim Jarmusch: um motorista de ônibus dedicado à poesia em Paterson, um filme tranquilo sobre os rituais idílicos da vida cotidiana; e um policial de cidade pequena na comédia absurda e horrorizada Os Mortos Não Morrem, que afirma a partir do momento em que as coisas começam a ficar de cabeça para baixo que os zumbis são os culpados. (Ou ghouls, como ele impassivelmente brinca).

E é claro que isso vale para Kylo Ren, o vilão de Guerra nas Estrelas que exerce força, e opera em outro plano no sentido mais literal. Star Wars: O Despertar da Força introduziu Kylo como um Darth Vader 2.0, filho implacável de duas lendas - Han Solo (Harrison Ford) e da General Leia Organa (Carrie Fisher) - que, em sua busca pelo poder, luta para extinguir a luz dentro dele. O maior talento de Driver é provavelmente a capacidade de manter as emoções mais ferozes de um personagem sob a superfície, liberando-as em explosões grandes e pequenas.

Ele evita fazer de Kylo um vilão de ficção científica, aproximando-se dele como faria em qualquer projeto de “prestígio”. Olhando para trás, há um tipo estranho de parentesco entre sua conflituosa atuação em Star Wars: Os Últimos Jedi, que permitiu uma exploração mais profunda da interioridade de Kylo, e as reações de Charlie Barber às tensões do divórcio, ou mesmo a batalha de Adam Sackler com suas tendências mais primitivas. A temporada de Adam Driver, uma exibição compactada dos talentos do ator, que continuará a animar o público quanto às premiações apenas até fevereiro, levou quase uma década sendo criada. / Tradução de Claudia Bozzo

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