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Como Akira Kurosawa recria obra de Shakespeare no Japão medieval

'Trono Manchado de Sangue' é relançado em box especial do cineasta japonês

Donny Correia, O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2018 | 16h00

Exatos vinte anos após sua morte, Akira Kurosawa continua alimentando debates e reflexões em torno de dois aspectos marcantes de sua poética. Primeiro, o fato de ter colocado a produção japonesa no mapa internacional do cinema. Depois, pela forma como imbuiu seus personagens de uma psicologia que é universal, desenhando os traços sutis de comportamentos que dialogam com qualquer cultura.

Kurosawa estudou artes plásticas, mas logo virou assistente de direção e, em 1943, já assinava seus próprios filmes. A beleza plástica com que encenava cada plano, depois de tê-lo desenhado em minúcias, a decupagem cênica inovadora e a força de suas histórias, com personagens poliédricos, fazem da sua uma obra perpétua. São provas dessa perenidade relançamentos que trazem versões restauradas e complementadas de vários documentários.

Rashomon (1950), premiado com o Leão de Ouro em Veneza e, ao que se conta, responsável pela criação da categoria de Oscar para Melhor Filme Estrangeiro, é um trabalho que versa sobre a legitimidade no conceito de verdade. A trama nasce em Rashomon, uma propriedade devastada, durante uma tempestade. Três homens que se abrigam da chuva forte conversam sobre um processo para o qual dois deles tiveram de prestar testemunho. Trata-se da morte de um jovem samurai, cujo corpo havia sido encontrado na mata, sem pistas sobre o acontecido. Um padre e um lenhador contam a um camponês suas diferentes versões sobre como o samurai fora assassinado. Entre as oscilações de memória de ambos, em seus relatos, fica claro que a verdade está muito longe de cada narrativa reconstituída.

A figura central do ladrão Tajômaru (Toshiro Mifune) é o único consenso nas versões. Ele é o assassino que dera cabo do homem, que, na realidade, escoltava sua esposa a cavalo pelos bosques quando foi abordado e atraído para uma emboscada. Tajômaru amarra o samurai e estupra sua esposa, movido por uma lascívia animal que, ao longo das diferentes versões, apresenta nuances que vão da pura bestialidade primitiva a uma incontrolável paixão à primeira vista. Também saberemos que, numa determinada versão, o ladrão acaba se tornando a vítima da situação nas mãos da mesma mulher que violentara. Ela, sabedora da desonrosa situação em que agora se encontra, quer dizer, repudiada pelo esposo e disposta a fugir com o bandido, passa a ser o pivô da desgraça dos três.

Kurosawa de vale desta inovadora estrutura narrativa, escrita por Ryûnosuke Akutagawa, para analisar com lupa as mínimas motivações que regem conceitos morais e éticos em cada indivíduo. As mentiras e omissões a cada nova volta que a trama dá em torno do mote principal revelam almas frágeis, que reiteram uma observação feita a certa altura por um dos personagens: “Rashomon é o lugar que o demônio escolheu para se esconder das pessoas”. De fato, a velha propriedade é a metáfora absoluta da tempestuosa e errática existência de cada um. Não à toa ressoaria em obras de gerações posteriores. O homem influenciado pelos westerns de John Ford deixou sua marca em figuras do calibre de Robert Altman, Tarantino e, até mesmo, Nelson Rodrigues – a semelhança da estrutura de Rashomon com Boca de Ouro.

A todo momento, há um laivo de vaidade e soberba em Tajômaru quando ele mesmo decide contar sua versão do estupro. E é essa vaidade que se potencializa como tema central de outra obra de Kurosawa, Trono Manchado de Sangue (1957), também relançado em DVD.

No filme, Kurosawa se vale do teatro Nô, com alguma atualização deliberada, para recriar a tragédia de Shakespeare, Macbeth, no Japão, durante as intermináveis guerras civis do século 16. A estrutura da peça original foi mantida em sua forma quase total. Por esse motivo, o argumento do filme se torna familiar, embora nos apresente às figuras de dois distintos samurais, que Kurosawa reveste de contradições e põe por terra a imagem do guerreiro como apenas uma máquina de matar em nome de seu senhor.

Assim, voltando de uma batalha vitoriosa, Washizu (Mifune, novamente) e Miki deparam-se com uma feiticeira que profetiza a ascensão de ambos. Washizu se tornará senhor da segunda maior propriedade do feudo, enquanto a Miki caberá administrar a casa principal e gerar o próximo senhor absoluto daquelas terras. Lady Macbeth, transformada em Asaji, esposa de Washizu, tal qual a serpente das escrituras sagradas, atiça a vaidade do esposo, convencendo-o de que merece uma condição maior até que seu próprio senhor. Após a conhecida conspiração shakespeariana, que os levam a assassinar a grande autoridade do feudo, o inferno abre suas portas e o período de paz e tranquilidade termina com batalhas fratricidas em nome da ganância, no primeiro momento, e da extrema loucura, nos momentos finais.

Washizu encontrará seu fim inexorável pelas mãos dos próprios soldados que, cientes da loucura de seu novo amo, rebelam-se na fortaleza e punem o samurai com saraivadas de flechas, enquanto a vítima maldiz seus algozes e expira feito um Calígula, desacreditado por seu povo. Yoshiaki, filho de Miki, torna-se o grande senhor e honra a profecia da feiticeira.

Ambos os filmes mostram um Kurosawa atento às inovações técnicas do cinema e como elas influenciariam a percepção do espectador. Assim, com linguagem alicerçada nos planos longos, contemplativos, contrastados com sequências de cortes rápidos, panorâmicas e movimentos de câmera na mão, Akira Kurosawa sedimentou sua genialidade estética em perfeita sintonia com os novos movimentos cinematográficos do Ocidente, que surgiriam ao final daquela década e, pouco depois, prestariam reverência a este homem que mostraria mais de sua versatilidade e invenção ao longo das quatro décadas seguintes.

*Donny Correia é doutor em estética e história da arte pela USP. Publicou, entre outros, 'Cinematographos de Guilherme de Almeida, Antologia da Crítica Cinematográfica' (2016) 

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