The Economist
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Como as mulheres italianas fizeram oposição a Mussolini

Até então cidadãs de segunda classe, as mulheres foram mensageiras, espiãs, guerrilheiras e enfermeiras na luta contra o fascismo

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2020 | 16h00

A boca de Benito Mussolini. Nada tinha de marcante, mas é quase sempre ela que primeiro me vem à cabeça quando revejo as fotos da execução pública do duce italiano, dependurado como um porco na viga de um posto da Standard Oil, na Praça Loreto, em Milão, às primeiras horas de 29 de abril de 1945, il giorno della vendetta. 

Quase invisível nas imagens, aquela boca que tantas delícias e carícias experimentara finou-se da forma mais ignominiosa imaginável: abrigando um rato morto, sorrateiramente enfiado por um dos linchadores do ditador. 

Podia ser, mas não é de regozijo ressentido o sentimento que aquelas imagens me provocam. Pois nem todas as proezas epicuristas e sexuais do duce, numericamente impressionantes, eram dignas de inveja. Cerca de 400 diferentes amantes ao longo da vida, não sei quantas enquanto dava as ordens no país, alguns estupros, como Mussolini encontrava tempo e energia para dar conta de tamanha concupiscência? 

Tempo arranjava-se. Benito papava as moças — louras e morenas, magras e cheinhas, altas e baixas, maiores e menores de idade — nos momentos e locais disponíveis; com alguma frequência sobre a escrivaninha de seu gabinete, no Palácio Veneza. 

Energia? Chamava-se Hormovin e vinha da Alemanha o Viagra consumido pelo Casanova fascista, que nem depois de oficializar a união com Claretta Petacci amansou seu furor erótico. 

Oito anos atrás, Robert Olla escreveu e a Rizzoli editou uma biografia sexual do fauno, Dux (líder, em latim), com muitas das histórias que agora creio recontadas por Antonio Scurati em M: O Filho do Século, que ainda não li. A reputação de macho guerreiro, conquistador da Etiópia (Abissínia) e restaurador das glórias e ritos coletivos do antigo império romano, transformou Mussolini menos num “pai da pátria” do que no “amante da pátria”, a encarnação plena do sexo como símbolo do poder político. 

Mito da potência fascista, fundado sobre a masculinidade camponesa, o líder careca, parrudo, fanfarrão, 6 cm mais baixo do que Hitler (que media 1m75) e heroicas cicatrizes causadas por estilhaços durante a 1ª Guerra, corneou, simbolicamente, boa parte dos machos italianos. Mas nem todas as mulheres da Itália renderam-se ao seu carisma. Por mais paradoxal que pareça, a guerra por ele perfilhada muito contribuiu para a emancipação feminina no país.

Em mais um ensaio sobre o fascismo italiano, a historiadora e jornalista britânica Caroline Moorehead, crescida e parcialmente educada na Itália, acaba de reforçar essa tese com documentação inédita e testemunhos surpreendentes. A House in the Mountains (Uma casa nas montanhas) entrega o jogo no subtítulo: As mulheres que libertaram a Itália—dos invasores alemães e do mussolinismo.

Com milhares de soldados e civis presos, mortos ou despachados para campos de trabalhos, fábricas e minas na Alemanha, a Itália ocupada pelos nazistas ficou entregue aos cuidados, à tenacidade e à esperteza de suas mulheres. Até então cidadãs de segunda classe, com limitadíssimo acesso à educação, escravas e parideiras servis aos maridos, condenadas a cuidar sozinhas da cozinha e das crianças, elas acabaram sendo as mais destacadas figuras da Resistência italiana.

Diligentes como mensageiras, espiãs, guerrilheiras e enfermeiras, aprenderam a roubar mapas e suprimentos, produzir panfletos em gráficas clandestinas, dinamitar pontes, matar inimigos, esconder e tratar de partigiani feridos, recolher, limpar e enterrar os mortos, com a mesma frieza com que se enfiavam em cavernas e fugiam por esgotos. Muitas das Rosas, Teresas e Adas que aparecem no livro morreram depois de presas, encarceradas e, quase sempre, violentadas. 

Repleto de atrocidades e atos de bravura, A House in the Mountains também tem, como era praxe nos filmes de guerra antigos, um interlúdio poético. Com a guerra definhante, à espera da rendição oficial, uma brava ragazza de 21 anos, chamada Mathilda Pietroantonio, cruza numa estrada com sete jovens fascistas, os braços erguidos em rendição. O companheiro de Mathilda faz menção de executá-los, ela o impede. “Não. A guerra acabou. Você não vai matar ninguém a sangue frio”, diz ela ao companheiro, ordenando aos jovens: “Vão pra casa. Vão. Corram”. Bravissima Mathilda.

No cinturão de arroz que envolvia quatro regiões do país surgiram as “modines”, mulheres que zelavam pelos arrozais e os desinfetavam, de maio a julho, debaixo do maior sol. Com as pernas enfiadas na água por horas a fio, molestadas por mosquitos transmissores da malária e expostas a outras doenças, as modines tiveram sua faina comparada a um círculo que Dante não criara em seu Inferno. 

Ainda assim, arrumavam tempo para atuar na clandestinidade, bancar pombos-correios e malocar partigiani durante os 20 anos de fascismo. O duce as respeitava e concedeu-lhes inúmeras regalias, inclusive viagens de férias, não só porque a economia do país dependia à beça da exportação de arroz, mas sobretudo porque elas eram muito organizadas e conscientes de sua força política.

Um filme de 1949, Arroz Amargo, projeto de um grupo de artistas ligados ao Partido Comunista, dirigido por Giuseppe De Santis e rodado em terras gentilmente cedidas pelo magnata Gianni Agnelli, projetou mundialmente a figura das modines, em clave neorealista ma non troppo. Sua mensagem social e política acabaria ficando em segundo plano, ofuscada pelo par de coxas fenomenais de Silvana Mangano, na flor dos 18 anos. Mas será que isso não configuraria uma nova vitória feminina? 

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