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AMANDA PEROBELLI/ESTADAO
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Como Cásper Líbero criou a São Silvestre

Livro do jornalista Dácio Nitrini conta que o empresário, dono da Gazeta, se inspirou em corrida que viu em Paris, em 1925

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

31 de dezembro de 2020 | 05h00

A 96ª. edição da tradicional Corrida Internacional de São Silvestre, que deveria acontecer hoje, 31, foi adiada para 11 de julho de 2021. Em 95 anos de história, é a primeira vez que a prova não será realizada. No próximo ano, a corrida terá duas edições, em julho e outra no dia 31 de dezembro. A decisão pela transferência foi motivada pela instabilidade do cenário atual provocado pela pandemia do covid-19. A corrida é um dos capítulos mais interessantes do livro Cásper Líbero, Jornalista que Fez Escola, de Dácio Nitrini, da Editora Terceiro Nome, que reproduzimos abaixo. Ele traduz a ousadia de um empresário cheio de ideias, um pioneiro que promoveu a primeira transmissão ao vivo de um jogo de futebol, durante o Campeonato Sul-Americano de 1922, usando equipamento avançado para a época, o “telefone alto-falante”.

A inspiração para a Corrida de São Silvestre veio de um evento parecido que Cásper Líbero testemunhou em Paris, em 1925. Bon vivant, ele gostava de passar temporadas na capital francesa e trouxe de lá a ideia de realizar uma corrida de rua no último dia do ano. Realizada pela primeira vez em São Paulo, em 1925, com 62 atletas inscritos, a competição recebeu em 2019 nada menos que 35 mil inscrições de atletas de várias partes do mundo.

O livro de Dácio Nitrini acompanha a trajetória de Cásper Líbero (1889-1943) desde que o jovem, formado em Direito, se envolveu com a imprensa, comprando, em 1918, em plena epidemia da gripe espanhola, um jornal falido, a Gazeta, transformando-o num dos grandes veículos de informação nos anos 1920. Um dos líderes da Revolução Constitucionalista de 1932, Líbero é analisado com objetividade por Nitrini em seu livro com mais de duas centenas de páginas, em que não faltam episódios embaraçosos como o alinhamento do jornalista à ditadura de Getúlio Vargas.

Por outro lado, sua Gazeta atraiu nomes de intelectuais como Mário e Oswald de Andrade, mentores da Semana de Arte Moderna de 1922, que colaboraram c0m seu jornal.

TRECHO DO LIVRO 'CÁSPER LÍBERO, JORNALISTA QUE FEZ ESCOLA, DE DÁCIO NITRINI

Em uma noite parisiense qualquer de 1925, Cásper está sentado com amigos ao redor de uma mesinha de um café na Île de la Cité, em Paris, quando vê passar um pelotão de atletas corredores empunhando tochas para iluminar as pedras do calçamento do percurso. Era uma prova muito mais interessante do que as que tinha assistido em Londres e em Berlim, além de deixar simplória a “Voltas de São Paulo”, que ele acompanhou desde a primeira, em 1919.

A data da corrida francesa que o encantou é incerta, mas não há dúvidas de que a cena glamourosa da madrugada clareada pelas tochas de fogo inspirou o jornalista a criar seu próprio evento na noite paulistana de Ano Novo. Cásper era persistente. Quando se entusiasmava com uma ideia, ela passava a ser obsessão e as coisas aconteciam muito rapidamente. Naquele mesmo ano de 1925, em plena festa do réveillon, a Gazeta pôs nas ruas do centro paulistano sua primeira corrida “São Silvestre”. Alguns dias antes, a reportagem que apresenta a nova maratona aos leitores chamava a atenção para detalhes incomuns, jamais vistos em disputas pedestrianas, como se falava então.

O show que Cásper idealizou iria bem além das chamas que o fascinaram na Île de la Cité. A Gazeta anunciava que à frente dos atletas que empunhariam “archotes sempre acesos, acima dos ombros”, sairia em disparada um pelotão de bicicletas enfeitadas com pequenas lamparinas coloridas, abrindo o caminho para os corredores. Puro devaneio de Cásper, que não se concretizou. No dia 30, na página 5 da Gazeta, reservada ao noticiário de Esportes, um parágrafo seco informava simplesmente que “os corredores não empunharão lanternas japonesas como a princípio se decidira”. Mas os chamados juízes indicadores de percurso portariam fogos de cor verde, e os demais, de cor rubra...

Dos 62 atletas inscritos, 48 se apresentaram, entre eles o já famoso Rei do Fôlego, Alfredo Gomes, recordista nacional do difícil percurso de São Paulo a Santos. Exatamente às dez e meia da noite foi dada a largada em frente ao Parque Trianon, na avenida Paulista, e o grupo seguiu pela avenida Brigadeiro Luiz Antônio, rua Santo Amaro, Vale do Anhangabaú, avenida São João e rua Líbero Badaró – passando (é claro!) em frente ao prédio da Gazeta exatamente na hora da virada do ano, quando a sirene do jornal tocava longamente. O percurso, depois, continuaria pelo Largo de São Bento, rua Florêncio de Abreu e avenida Tiradentes, sendo a linha de chegada e comemoração da vitória a Praça dos Esportes, na Ponte Grande, hoje Ponte das Bandeiras, perto dos clubes Tietê e Espéria.

Em meio ao improviso natural da época, o trajeto de 8,8 quilômetros foi concluído em 33 minutos e 21 segundos. Alguns corriam de pé no chão, mas a maioria calçava meias e sapatilhas de couro com sola fixada por pequenos pregos, as tachinhas. Camiseta e calção eram de algodão, tecido que empapava com as costumeiras chuvaradas das noites do réveillon paulistano, o que fazia a prova ser mais árdua.

O primeiro campeão da São Silvestre foi mesmo o Rei do Fôlego, Alfredo Gomes, jogador de futebol do Clube Espéria, paulistano de 36 anos que, no ano anterior, havia carregado a bandeira brasileira na cerimônia de abertura dos jogos Olímpicos de Verão, em Paris, onde disputou a prova de cross-country sem conseguir terminar o percurso. O sempre presente catolicismo de Cásper ficou gravado na escolha do nome da prova: 31 de dezembro é dia dedicado à devoção de São Silvestre, papa que, por volta dos anos 300, estabeleceu a paz na Igreja após o imperador romano Constantino acabar com a perseguição aos cristãos.

O sucesso foi maior no ano seguinte, quando 147 atletas se inscreveram para entrar em 1927 disputando troféu e medalhas oferecidos pela Gazeta. Os tempos eram economicamente bicudos e nas páginas do jornal já se discutia a possibilidade de mudar a moeda, o velho réis dos tempos do Brasil Colônia. Mas Cásper manteve a pompa como sempre fez desde que comprou a Gazeta sem um tostão no bolso. E foi apresentado ao público como “o diretor honorário da prova que não mediu dificuldades e se declarou pronto a arcar com tudo o que fosse preciso para abrilhantar o certame”.

Nem revoluções que assolaram São Paulo nem a 2ª. Guerra apagaram a chama da competição que lentamente cativou primeiro os paulistanos, depois o país. Ao longo de décadas, famílias cultivaram a tradição de se reunir ao pé do rádio na expectativa do disparo da sirene da Gazeta à meia-noite, durante a corrida, para se abraçar e brindar o novo ano. O evento arrebatou o Brasil a partir de 1948, com a aquisição de dois carros de reportagem equipados com rádio transmissor que possibilitaram emocionantes narrações ao vivo de todo o percurso.

Com o passar do tempo, a São Silvestre ganhou fama internacional, mas sofreu várias mudanças impostas por seu crescimento, o que a fez perder o romantismo ‘old fashion’ impregnado por Cásper. Passou a ser diurna a partir de 1988 e a ter 15 quilômetros de percurso em 1991.

Atualmente, com transmissão simultânea pelas televisões Gazeta e Globo, é disputada nas manhãs do dia 31 por milhares de adeptos, com provas separadas para atletas femininas e masculinos, sempre tendo como marco a frente do prédio da Gazeta na avenida Paulista, 900, sede da fundação legada em testamento por Cásper Líbero aos funcionários. No réveillon de 1925, noite da primeira corrida, viviam 850 mil pessoas em São Paulo. Hoje, são mais de 12 milhões de habitantes. 


FICHA TÉCNICA

CÁSPER LÍBERO, 

JORNALISTA

QUE FEZ 

ESCOLA

Autor: 

Dácio Nitrini

Editora: 

Terceiro Nome

Preço: R$ 46

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