Como dar com os porcos n'água

OMS admite ter superestimado a gripe suína, elevada a moderna Peste Negra antes de ser oficialmente debelada no último dia 10

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

21 de agosto de 2010 | 14h51

 A Organização Mundial da Saúde informa: sai o vírus H1N1, entra o Aedes aegypti. Na Europa, onde o mosquito da dengue não zumbia há mais de 50 anos.

 

O epicentro desta vez foi a Holanda. Ela perdeu a Copa do Mundo, está passando um sufoco para alinhar-se à política antidrogas da União Europeia, só faltava um Aedes aegypti pousado em sua sorte. Pânico zero, por enquanto; ainda bem. A histeria coletiva é um dos maiores aliados de toda e qualquer epidemia. Aprendemos essa lição com as doenças infecciosas que nem precisaram esperar a chegada do calor para virar epidêmicas e pandêmicas, nos últimos cem anos, começando com a gripe espanhola e terminando com a suína, ressurrecta em 2009 e oficialmente debelada pela OMS no último dia 10.

 

Retorno. Estudante belga chega a Bruxelas saída do México, país golpeado em seu turismo e economia pela paranoia da H1N1 

 

A própria OMS admitiu ter dado com os porcos n’água ao superestimar a gravidade da gripe. Com a colaboração da mídia, de governos desatinados e laboratórios farmacêuticos unicamente interessados em vender vacinas, acrescente-se. Embora muito mais pessoas tenham morrido de gripe corriqueira ou pneumonia nos primeiros meses do ano passado, não houve como conter a paranoia de que a H1N1 era uma versão moderna da Peste Negra, a gripe espanhola revista, aumentada e, como a outra, hablando castellano.

 

Se a histórica influenza de 1918, com seus quase 50 milhões de vítimas fatais, não merecia ter nacionalidade ibérica (só virou espanhola porque a Espanha, neutra na 1ª Guerra Mundial, portanto sem a censura vigente nos países em litígio, permitiu desde o início a livre circulação de notícias sobre a infecção), a do ano passado não precisava ter feito da vida no México um inferno.

 

Foco inicial da pandemia, sobre ter como vizinhos os nosofóbicos americanos, o México sofreu o diabo a partir de abril de 2009. Isolado por um cordão sanitário, obrigaram-no a fechar tudo, de escolas a casas noturnas, cancelaram-se viagens de fora para dentro e de dentro para fora do país, medidas desproporcionais e ineficazes que enorme prejuízo deram à sua economia, e sobretudo ao seu turismo.

 

No segundo semestre, o pânico atravessou o Atlântico e, como era de esperar, espalhou-se com mais rapidez que o H1N1 pela Europa, notadamente na Ucrânia, onde diversas províncias foram postas de quarentena pelo governo, o Parlamento fechado e aglomerações proibidas. Muito ruído por nada. Sobrou para a primeira-ministra Yulia Timoshenko, acusada de gastar mais florins com sua campanha presidencial do que com medidas para combater a epidemia. Yulia afinal perdeu as eleições de janeiro deste ano. Talvez tenha sido a maior vítima não fatal da gripe suína na Ucrânia.

 

As vizinhas Hungria e Polônia procederam a formas diversas. A Hungria não fechou suas fronteiras, mas promoveu uma campanha de vacinação, solenemente esnobada pela população, que a via como um desperdício de dinheiro público. A Polônia nem sequer comprou vacinas, por temer que elas pudessem causar mais malefícios que benefícios. É possível que os poloneses tenham se lembrado do que aconteceu aos americanos no surto da gripe suína de 1976.

 

Foi uma tragicomédia. Em fevereiro de 1976, um soldado raso do Forte Dix, em New Jersey, morreu de pneumonia, mas como em suas secreções detectaram um vírus relacionado, se não idêntico, ao da gripe espanhola, um grupo de médicos convenceu o presidente Gerald Ford a solicitar a liberação de US$ 135 milhões para a produção de vacinas em quantidade suficiente para inocular toda a população americana. Àquela altura, já fazia 47 dias que o soldado morrera, e mesmo sem qualquer evidência de uma possível epidemia, a campanha foi tocada adiante. Em dois meses e meio, 40 milhões de imunizados - e nenhum sinal da gripe. Em dezembro, a vacinação foi cancelada, por razões profiláticas: em determinadas pessoas, a vacina desenvolvera uma doença neurológica, conhecida como síndrome de Gullain-Barré. Em maio de 1980, o governo se viu encalacrado com 4 mil pedidos de indenização: um prejuízo de mais de US$ 3,5 bilhões aos cofres públicos.

 

De certo modo, a rata de 1976 foi uma reprise dos equívocos de 1918. No auge da gripe espanhola, médicos americanos apontaram o recém-descoberto bacilo de Pfeiffer, encontradiço nos pulmões de vítimas fatais de gripes, como responsável pela influenza espanhola. Trombetas triunfalistas anunciaram o fim próximo do novo flagelo. Vacinas preparadas a partir do bacilo de Pfeiffer e ancilares medidas profiláticas revelaram-se inócuas, embora sem efeitos colaterais, e a espanhola avançou, sacrificando também médicos e enfermeiras, o que prejudicou ainda mais o combate à doença.

 

Como atrás de toda desgraça alguma graça se esconde, a gripe suína de 2009 serviu ao menos para expor ainda mais a usura e a irresponsabilidade da indústria farmacêutica, o racismo embutido no isolamento imposto ao México e as calamitosas condições em que os porcos são criados para suprir a indústria de alimentos. Foi um bom negócio para os laboratórios, acusou o investidor Brian Orelli, num artigo que causou furor, pouco mais de um ano atrás, no qual tentou examinar a gripe suína "pelos olhos de um porco capitalista".

 

Em abril do ano passado, em seu site na internet, Frank Furedi propôs que se desse um descanso ao porcos, em vez de entupi-los, preventivamente, de antibióticos, nocivos, por tabela, à saúde dos que os consomem, e criá-los em chiqueiros infectos e patogênicos, quando se sabe que o porco, além de ser um dos animais mais inteligente e sensíveis, se dá melhor em ambientes limpos e arejados. Em 1965 havia 53 milhões de porcos espalhados por mais de 1 milhão de fazendas americanas; hoje são 65 milhões de porcos concentrados em 65 mil chiqueiros, literalmente na merda.

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