Ryan Maxwell
Ryan Maxwell

Como Donald Trump vem inspirando artistas nos Estados Unidos

Arte ganhou tons políticos ao longo do mandato de Donald Trump

Jillian Steinhauer, The New York Times

09 de março de 2019 | 16h00

Apenas alguns meses antes de Donald Trump se tornar o candidato republicano à presidência, o The New York Post publicou uma entrevista com sua primeira esposa, Ivana. Falando de sua casa de sete andares no Upper East Side, a emigrante tcheca elogiou as políticas restritivas de imigração propostas pelo ex-marido, antes de acrescentar: "Desde que você venha aqui legalmente e arranje um emprego adequado ... precisamos de imigrantes ", disse ela. “Quem vai passar o aspirador em nossas salas e fazer a limpeza para nós? Os americanos não gostam de fazer isso”.

Tal comentário - carregado tanto de xenofobia e quanto de um fragmento de verdade – assumiu uma nova relevância este mês, por causa de um trabalho de arte  performática. Durante a maior parte do mês de fevereiro, a artista Jennifer Rubell contratou sósias de Ivana e da filha de Donald Trump, Ivanka, para passar o aspirador em uma antiga galeria de arte em Washington; a peça foi intitulada Ivanka Aspirando. As modelos usaram saltos altos e cópias do vestido rosa pálido que Ivanka usou na cúpula do Grupo dos 20 em 2017, da qual ela participou em sua função oficial como assessora do presidente. (O vestido também é parte de sua linha de roupas.) Elas não falavam, como se estivessem limpando uma pequena área de tapete rosa, parando ocasionalmente para ajustar o cabelo. Um monte de migalhas ocupava um pedestal no centro do espaço, e os visitantes eram convidados a jogar um punhado delas no tapete.

Foi uma imagem impressionante: Ivanka, que se posiciona tanto como feminista e como modelo da “heteronormatividade” (definição da heterossexualidade como fundamental e natural) feminina branca, realizando trabalho estereotipado de mulheres, em contraste com o tipo de trabalho associado à sua classe e privilégio.

Mas não era muito mais que uma imagem. Embora Rubell se identifique como uma artista conceitual, seu trabalho, que geralmente envolve alimentos, tende a circular entre símbolos óbvios com significados meio obscuros. Dessa vez não foi diferente. Será que nós deveríamos ter empatia com a substituta de Ivanka por ser forçada a aspirar? Zombar dela? Perceptivelmente, o comunicado de imprensa foi cuidadoso em não situar a peça como crítica, chamando-o de "simultaneamente uma celebração visual de um ícone feminino contemporâneo; um retrato de nosso próprio relacionamento com essa figura; e um questionamento de nossa cumplicidade em seu desempenho de papéis.” A própria Rubell o chamou de “um retrato de nosso tempo, não um julgamento de nosso tempo”.

Passa a impressão de uma oportunidade perdida. De onde estou, o começo do terceiro ano da presidência é um bom momento para fazer um julgamento. Por que não apresentar uma consideração crítica de Ivanka Trump e os usos políticos, dos precedentes históricos, de sua imagem cuidadosamente cultivada da feminilidade branca?

A performance Ivanka Aspirando e a agitação da mídia que ele gerou - Ivanka Trump o avaliou tanto com arrogância quanto com uma leve indignação - me fez pensar em outra arte que eu vi com os Trump estrelando, geralmente Donald. Muita coisa apareceu nos últimos anos - Trump como uma cartomante animatrônica, um retrato de Trump feito a partir de imagens pornográficas, um casal presidencial trancado em uma cela de prisão (em um hotel Trump) - mas pouco disso tem sido memorável. Sou grata pelos artistas que respondem ao momento atual, mas por que tantos de seus esforços não atingem o alvo?

A resposta, penso eu, tem algo a ver com a diferença entre arte que é política e arte sobre a política. Embora seja notoriamente difícil de definir, a primeira provavelmente tem algum tipo de intenção política, significando ou tendo um programa embutido em sua estrutura; Em seu ensaio O que é arte política? a estudiosa Susan Buck-Morss chamou isso de "a continuação da política por outros meios.” Ela citou a prática de Fred Wilson, que pesquisa arquivos museológicos para criar instalações de objetos que contestam as narrativas coloniais dessas instituições. Por outro lado, na arte sobre política, o assunto é a declaração principal, ou seja, o que você vê é principalmente o que você obtém.

Artista e crítico, Thomas Micchelli fala disso de outra forma em um ensaio no catálogo da exposição de Judith Bernstein de 2017-18 no Drawing Center, identificando uma “distinção entre um artista politizado e um político.” Como exemplo do primeiro, Bernstein faz impetuosas, frenéticas pinturas que usam o humor sexual para cutucar a cultura patriarcal americana. Seu novo trabalho retrata Trump com um pênis com nariz, muitas vezes cercado por suásticas ou nas proximidades de Hitler. Sua estética é tão exagerada que suas pinturas parecem gritos visuais. Isso é compreensível quando você está fazendo a caricatura de um homem que foi acusado de agressão sexual e de trabalhar em uma sociedade que orienta as mulheres para reprimir sua raiva.

Em sua recente exposição na galeria PPOW, Sandow Birk adotou uma abordagem mais discreta e clássica para parodiar o presidente. O artista mostrou litografias a partir de um projeto chamado "Os horríveis e terríveis feitos e palavras muito renomado Trumpagruel, que foi inspirado por Gargantua e Pantagruel de François Rabelais, um conto satírico do século 16 sobre um par de gigantes. Birk apresenta Trump como um bebê gigante que olha constantemente para o seu telefone ou e é alimentado com colheres por homens em ternos com panças e chifres de diabo. As imagens parecem vir diretamente do trabalho do caricaturista do século 19, Honoré Daumier, que tem o efeito agregado de situar Trump em uma longa linha de trapaceiros e valentões históricos.

Apesar de seus estilos divergentes, o trabalho de Bernstein e Birk pode ser encontrado nas caricaturas de Richard Nixon, de Philip Guston. O artista começou os desenhos em 1971 menos de um ano depois de ter sido "excomungado", em suas palavras, pela cena artística de Nova York, por retornar à figuração depois de um longo período de trabalho abstrato. As caricaturas de Guston, que foram mostradas mais ou menos na época da eleição de 2016, na Hauser e Wirth, são visualmente simplórias, mas impiedosas em suas críticas a Nixon. Elas retratam o presidente com um rosto comprido, com um nariz em formato de pênis e um escroto como face, e o fazem um bufão ao fazer um discurso na visita à China. Ao mesmo tempo, uma estranha tristeza paira sobre as imagens de Nixon sozinho na cama. São sátiras impregnadas de pavor.

Talvez seja isso o que está fazendo tanta falta na arte sobre Trump de hoje em dia - a introspecção crítica para acompanhar o riso. Os desenhos e pinturas de Guston são íntimos, como se ele estivesse avaliando a realidade da existência de Nixon. O processo de realizá-las é tenso, tanto política quanto artisticamente; apenas um punhado delas foram exibidas nas décadas seguintes( Guston morreu em 1980). Eu não quero sugerir que os artistas contemporâneos, como Bernstein e Birk não conhecem os riscos do nosso tempo – estou certo que eles conhecem – mas pendurados nas paredes brancas das galerias, para os olhos de um público principalmente liberal, seletivo, as caricaturas de Trump sentem-se seguras. Tanto criadores como visitantes recebem uma confirmação em vez de uma solicitação de exame ou autorreflexão.

Parte do problema também pode estar na forma. Quando você tem um presidente que muitas pessoas já encaram como uma caricatura, representá-lo assim perde parte de seu poder de perturbação. Assim como na performance de Rubell, você acaba recebendo imagens e significados generalizados. Como seria fazer arte a respeito dos Trump sem a similitude? Como você poderia criar diferentes estéticas e possibilidades políticas?

Já existem respostas por aí. Algumas delas se aproximam mais da propaganda do que da arte, como as projeções de luz de Robin Bell de mensagens de protesto nos prédios do governo e nos hotéis Trump. (Bell tem um show solo em apresentação na Universidade George Washington.) Badlands Unlimited, a editora fundada pelo artista Paul Chan faz cartazes que se apropriam da linguagem e estilo dos utilizados pela direitista Igreja Batista Westboro: “Deus odeia Ivanka”, diz um deles.

Outras respostas estão contidas em conjuntos maiores de trabalho. A artista Alexandra Bell pesquisa o papel dos meios de comunicação na perpetuação do racismo. Sua exposição no ano passado na Recess Assembly incluiu uma reprodução ampliada e horrível de um anúncio de Trump, em um jornal de 1989, defendendo a pena de morte para os acusados por estupro no chamado caso dos “Cinco do Central Park”  – uma grave acusação ao homem que hoje é presidente.

Às vezes a resposta é apenas parte do trabalho de artistas, como no caso de HEWILLNOTDIVIDE.US (Ele não vai dividir.nós, em tradução literal). Em janeiro de 2017, Shia LaBeouf, Nastja Sade Ronkko e Luke Turner instalaram no Museu da Imagem em Movimento uma câmera e convidaram os visitantes a reproduzir as palavras do título. A instalação foi tão rapidamente invadida pelos partidários do presidente e dos trolls, que o museu a retirou em um mês. Sua ascensão e queda dão um retrato incisivo do assédio e teor cáustico que marcam a era do presidente Donald Trump.

Nenhuma dessas obras influenciará a opinião pública; a arte jamais poderá ser um substituto para a ação - e de fato, algumas das reações mais interessantes à  presidência Trump foram gestos de protesto, como o reembolso do dinheiro pago a Richard Prince para fazer uma pintura de Ivanka Trump. Mas elas podem reorientar nossa atenção, abrir um pouco mais nossos olhos e “nos levar a ver coisas que não sabíamos que precisávamos ver”, como o crítico Jerry Saltz uma vez descreveu a potência da arte. Quando se trata dos Trump, já vimos muita coisa, mas ainda sobram muitas mais que não conhecemos. / Tradução de Claudia Bozzo

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