Dorothea Lange
Dorothea Lange

Como Dorothea Lange usou a fotografia para tornar lindo um mundo medonho

Exposição nos Estados Unidos mostra como a fotógrafa acreditava na importância das legendas para reforçar suas imagens

Philip Kennicott, The Washington Post

28 de fevereiro de 2020 | 16h00

NOVA YORK – A mulher na foto mais famosa de Dorothea Lange leva o título de Migrant Mother e é belíssima. Seu rosto pode estar envelhecido e com algumas rugas, mas sugere sensibilidade e inteligência. Ela está cansada, mas esplêndida, como o homem na fotografia de 1940, Migratory Cotton Picker, que abre a exposição Dorothea Lange: Words & Pictures no MoMA.

A beleza não é com frequência o mais notado. Ao contrário, essas fotografias estão repletas de palavras, com suas legendas e uma discussão cultural mais ampla sobre pobreza e desespero na América durante a Depressão e depois. 

Migrant Mother é de 1936, mas a foto só ficou conhecida em 1952 e a mulher na imagem, Florence Owens Thompson, permaneceu anônima para o público em geral até 1978. Ela é um ícone do sofrimento e da perseverança e é uma Cherokee, outra palavra só agregada à foto décadas depois de ter sido produzida.

Pode parecer óbvio, até desinteressante, montar uma exposição sobre como as palavras estão ligadas a fotografias. Isto acontece o tempo todo, com tanta frequência que nem pensamos a respeito. Nos jornais, cada foto é legendada. 

Quando lemos biografias ou história, reflexivamente nós nos voltamos para as fotos no meio do livro para ligar as imagens às palavras que absorvemos. Estamos nos aproximando rápido da marca de dois séculos na história da fotografia e nunca estivemos mais desconfiados e verbais na nossa relação com elas: o que esta imagem mostra? Onde foi feita? Devo acreditar nela?

Mas nem sempre foi assim. Durante toda a história da fotografia, especialmente no caso de fotógrafos que começaram a fazer fotos como arte, existiu uma contradição entre palavras e imagens. Um bom fotógrafo não necessitaria explicar. Se fotografia é arte e arte é autossuficiente, então os fotógrafos deveriam transmitir seu significado através da imagem e não da sua descrição.

Lange produziu algumas das mais emocionantes imagens do século passado, não tinha nenhum problema com as palavras e se mostrava impaciente no caso de qualquer discurso que abstraísse a foto do mundo mais amplo. “Todas as fotografias, e não só aquelas chamadas “documentais”, devem ser reforçadas pelas palavras”, disse ela.

É uma escolha curiosa da palavra – “reforçado” significa fortificado, em particular contra qualquer esforço para atacar ou desmantelar a imagem. As imagens de Dorothea Lange com frequência são polêmicas, chamam à consciência e têm base num interesse que ela teve durante toda a vida na justiça social, na imparcialidade e na decência – de modo que elas precisam ser fortificadas contra a indiferença ou o cinismo.

Muitas fotos também parecem cercadas por palavras em revistas populares como Life e Look e em livros de fotos acompanhadas de poemas ou declarações poeticamente evocativas selecionadas de conversas com as pessoas retratadas. 

Lange também redigiu notas de campo muito extensas enquanto fotografava e, trabalhando nos anos 1930 com seu marido, o economista Paul Schuster Taylor, contribuiu para informes do governo documentando as condições sociais durante a Depressão.

Suas imagens inspiraram autores como John Steinbeck. Em 1938. o poeta Archibald MacLeish usou Migrant Mother num fototexto chamado Land of the Free, onde a imagem em oposição à frase de um poema que escreveu para “ilustrar” fotos tiradas por fotógrafos da Farm Security Administration e outras agências do governo. 

“Agora não sabemos” era uma maneira enigmática de sugerir uma inquietação devastadora que infectou o sonho americano. A mesma imagem também apareceu numa propaganda nazista em 1943, com uma referência satírica ao New Deal do presidente Franklin Roosevelt.

As muitas maneiras que esta imagem foi usada e abusada ajuda-nos a compreender o motivo pelo qual muitos fotógrafos são cautelosos no uso de palavras para definir imagens. Mas limitar-se apenas à imagem não define sua verdade como uma boa ou má legenda. 

Quando Migrant Mother foi reproduzida em um informe da primeira mostra de fotografias do MoMA em 1940, a foto foi impressa muito mais clara do que outras versões, de modo que a mulher aparece não só branca, mas pálida, os braços quase descorados e o cabelo das duas crianças que escondem o rosto atrás dela é quase loiro. Parece uma obliteração racial, com uma certa esperança de as pessoas a verem como uma indígena americana efetivamente branca.

E ainda mais fundamental, pensar em fotos sem palavras é basicamente impossível, e ignorar o contexto mais amplo, baseado nas palavras, daquilo que aparece na foto, limita sua riqueza. 

Quando as fotos de Lange de comunidades mórmon apareceram na revista Life em 1954, o artigo começou mostrando um anúncio de um objeto de consumo que provavelmente não se encontra nas comunidades mórmon tradicionais – da fabricante de café GE, com o slogan da empresa “Progresso é o nosso produto mais importante, criando um contraste irônico com o isolamento e a insularidade vista nas imagens de Lange.

A beleza de muitos dos fotografados por Lange, incluindo Florence Owens Thompson, não é acidental. Ela começou sua carreira como fotógrafa de retratos e tinha um senso intuitivo do que torna um rosto envolvente. Mas a beleza também cria uma centelha, um desejo de saber mais e interrogar a imagem. 

Como a mulher de Migrant Mother, o homem de Cotton Picker tem um rosto que parece jovem e velho ao mesmo tempo, uma contradição que incita a mente a trabalhar, mantendo-a engajada com a imagem. Pode ser um apelo primitivo à emoção – por que essa bela pessoa está num lugar tão medonho? Mas é um convite poderoso a querer saber mais, se comunicar, exigir um mundo melhor.

E para Lange beleza era fundamental para a fotografia. Por mais que adotasse as palavras para suas fotos serem mais poderosas, ela era compulsiva no sentido de encontrar imagens que falassem incisivamente, claramente e com um poder puramente visual. 

Uma das mais impressionantes fotos nessa exposição, Tractored Out, é de uma casa solitária, não maior do que uma cabana, abandonada e desolada num campo cujos sulcos na terra feitos por uma máquina consumiram todo o espaço e grama, ou qualquer outro sinal de humanidade que talvez outrora adornaram o lugar. É uma imagem devastadora do Dust Bowl (tempestade de areia que se abateu sobre os Estados Unidos na década de 1930), mas também uma imagem perfeita, belíssima.

Num filme documentário na exposição, mostrando Lange no final da vida quando preparava uma importante retrospectiva, capta Tractored Out, com a artista dizendo:” estou realmente começando a ter a percepção do que há neste meio”. A ambivalência e modéstia dessa declaração feita por uma das grandes fotógrafas da época, é comovente. Mas sugere também sua autêntica incerteza sobre a tensão entre a beleza abstrata, formal e o contexto social mais amplo da fotografia.

Certa vez, ela afirmou que “a câmera é um instrumento que ensina as pessoas como ver sem uma câmera”, que é provavelmente a melhor maneira de compreender como a artista entendeu a dinâmica entre arte e valor documental no seu trabalho. Ela conseguiu fazer imagens tão perfeitas, como Edward Weston ou Walter Evans, Mas a imagem sempre apontou para além da imagem. A câmera ajuda a ver a beleza e o feio no mundo, refinando nosso senso de visão social e artística.

Houve muitos fotógrafos que temem que as palavras podem afastá-los da imagem e é um medo racional. Lange compreendeu qual era exatamente o ponto certo. Um bom fotógrafo tem de inserir você no mundo.

Tradução de Terezinha Martino

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