Como enfrentar os novos populismos, segundo 16 intelectuais

Como enfrentar os novos populismos, segundo 16 intelectuais

Livro reúne cientistas políticos, filósofos, jornalistas e escritores do mundo inteiro para discutir o cenário político internacional

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2019 | 16h00

É da fase em que se via às voltas com seus linossignos que Cassiano Ricardo escreveu Os Sobreviventes. Ali está a Pequena Saudação ao Ano 2000, série de cinco poemas dedicada ao diplomata e amigo José Guilherme Merquior. Ricardo que, nas palavras de Oswald de Andrade, deslocara “a partida de xadrez da poesia brasileira” ao arriscar-se às mais surpreendentes experiências com a palavra, abre o segundo poema da série com os versos: “Icaro morreu,/ não por voar/ junto ao sol/ mas de obsoleto”. Os mitos de então conversavam com o poeta na rua e o convidavam a assistir a Antonioni no cinema. Ele conclui com outros três versos geniais, uma antevisão de nossos tempos: “Tudo o que foi/ ontem é/ outra era”.

O editor Heinrich Geiselberger tentou capturar esse tempo de crise e convidou 16 autores – cientistas políticos, filósofos, jornalistas e escritores – para organizar a obra A Grande Regressão: Um Debate Internacional Sobre os Novos Populismos e como Enfrentá-los (Estação Liberdade). Se compreender tudo o que foi ontem e a nova era é necessário para sobreviver, a tarefa desse livro é explicar como fazê-lo em um tempo em que o passado ainda não se foi e o amanhã ainda não se desnudou por completo, produzindo um interregno onde se verificam os fenômenos patológicos mais variados. Lembrar a famosa passagem dos Cadernos do Cárcere (Q 3,34) do pensador italiano Antonio Gramsci – autor elevado à condição de anticristo no Brasil pela direita populista e ultraconservadora –, ajuda a entender a crise e a consequente ascensão de forças políticas identificadas com o nacionalismo em vários cantos do globo.

Dois dos autores do livro citam o texto de Gramsci. O sociólogo Wolfgang Streeck e o filósofo Slavoj Zizek. Eles associam a crise à fragilidade da ideologia liberal, que os eleitores de Donald Trump relacionam às instituições anônimas, sem transparência, que regulam suas vidas em nome de um capitalismo global que fere a soberania de países, suas culturas e valores. A crise de autoridade identificada por Gramsci com o interregno, o período entre um reinado e outro em Roma, caracteriza-se pelo fato de as velhas camadas dirigentes não conseguirem mais desempenhar sua função. O impasse não pode ser resolvido pela restauração do velho. À morte das velhas estruturas, sucederá uma nova cultura e hegemonia, viabilizando grande atos. Mas é incerta como será essa nova ordem. O perigo trazido pela situação é a potencialidade obscura nela existente do surgimento de homens providenciais ou carismáticos, que exploram os ressentimentos das identidades locais contra a ordem mundial. Streeck define o período como de extrema insegurança. Zizek vê como exemplo de alternativa para as forças progressistas a ruptura da submissão ao liberalismo, identificado por ele na figura de Hilary Clinton no Partido Democrata, e o apoio ao socialista Bernie Sanders. Eis uma resposta não apenas ao anseio antiestablishment dos eleitores de Trump, que devem ser reconquistados, mas também à necessidade de adequação aos tempos de política antagônica em que se vive.

O filósofo e os demais autores estão de acordo sobre a crise da democracia liberal e a necessidade de as forças progressistas dos mais variados países enfrentarem a regressão comandada por governos como os de Donald Trump, Viktor Orban, Recip Erdogan e Narendra Modi, na Índia. Jair Bolsonaro não havia sido eleito ainda quando a maioria dos autores escreveu seus textos – a única exceção é o do filósofo Renato Janine Ribeiro. No ensaio para a edição brasileira, Ribeiro afirma que se desnudou no País tudo o que uma história predatória fizera contra nossas dimensões trabalhista, social e ambiental. A desigualdade seria um projeto cuidadosamente nutrido de sociedade; e a corrupção e o patrimonialismo, projetos “meticulosamente elaborados de Estado”. Corrupção e desigualdade existiriam no Brasil porque foram planejadas. “O Brasil não é um fracasso na igualdade, na justiça social, na honestidade com o dinheiro o público, mas um sucesso na desigualdade, na exclusão social, na corrupção.”

É consenso também entre os autores do livro enxergar o neoliberalismo, com seu desmonte do estado de bem-estar social, como um “ícaro obsoleto” e buscar a caracterização dos populistas. A mais notável de todas elas é a do cientista político Ivan Krastev: “O apelo dos partidos populistas é sua promessa de uma vitória sem ambiguidades. Isso atrai os que veem na separação de poderes, tão adorada pelos liberais, não uma maneira de controlar o poder, mas um álibi a que as elites recorrem para deixar de cumprir suas promessas eleitorais”. Krastev mostra a política dessas agremiações como uma sucessão de tentativas de demolir o sistema de freios e contrapesos e colocar instituições independentes, como a Justiça, a imprensa e organizações da sociedade civil, sob seu controle. Essas características igualariam forças tão díspares como as que sustentam Modi, Marine Le Pen e partidos como o alemão AfD, o italiano Liga e parte do PSL, que fomentam a polarização política, a defesa do antiglobalismo e o negacionismo climático.

Para se opor a esses grupos, os autores reafirmam a universalidade dos direitos humanos e sociais para que façam sentido aos desiludidos com a globalização, evitando a aposta na regressão. Quer-se impedir que a defesa de política identitárias associadas ao liberalismo dos Clinton, de Tony Blair e de outros condene as forças progressistas a um abraço fatal com Wall Street. Foi a identificação do establishment à promoção dos direitos de mulheres, negros e de imigrantes que levou, segundo a filósofa Nancy Fraser, à reação que busca negar esses direitos ao mesmo tempo que golpeia as elites políticas tradicionais. Trata-se de sentimento alimentado pelo paradoxo – nas palavras de Krastev – das democracias liberais do pós-guerra fria, no qual o avanço dos direitos humanos e das liberdades individuais se fazia acompanhar pelo declínio do poder que os cidadãos tinham para mudar não somente os governantes, mas também as políticas governamentais com seus votos.

Seguindo com as respostas às fantasmagorias surgidas na crise, os autores defendem desde o a criação de instituições que globalizem a política (Zizek) ao retorno ao trabalho de base nos bairros populares (Robert Misk). Mas, apesar da quantidade de vozes, o livro não se transforma em uma babel de diagnósticos ou receitas para a crise. Há uma notável unidade na obra. Primeiro, nenhum dos autores cede à tentação fácil de explicar a votação de populistas – vitoriosos ou não – como expressão da estupidez humana. E, mesmo se Zizek aposta no antagonismo para enfrentar o populismo radical da direita, ele o faz em busca de uma nova universalidade que use a lógica agonística como forma de superar as divisões das várias identidades.

Janine Ribeiro pôde assim afirmar a esperança no processo civilizatório que conduz à vitória dos valores humanos que marcam a história, com a crescente aceitação do outro em nossas vidas, prevalecendo sobre a vontade de destruí-lo. E Zygmunt Bauman pôde enfatizar a recuperação do diálogo para superar as fronteiras do discurso do “nós contra eles” na esfera política de nossas vidas, aquela onde a partida da liberdade é jogada. A aposta do sociólogo polonês falecido em 2017 lembra a de Jürgen Habermas, com seu agir comunicativo. Ele, porém, reconhece a dramaticidade da crise ao afirmar que o papa Francisco é, “talvez, a única figura pública com autoridade mundial” que teve a coragem de mergulhar “nas fontes mais secretas do mal, da confusão e da impotência dos dias atuais”. Tudo porque o pontífice afirmou que só existe uma palavra que se deve repetir incansavelmente: diálogo. “Somos convidados a promover uma cultura do diálogo, procurando por todos os meios abrir instâncias para torná-lo possível e permitir-nos reconstruir o tecido social”, afirmou Francisco. Não deixa de ser interessante um tempo em que intelectuais progressistas veem no papado um aliado. Se o cristianismo oculto do teólogo Karl Rahner não é mais congelado pelos ventos gélidos em Roma, Gramsci também não frequenta mais o inferno dos apóstatas na cidade eterna. De fato, tudo o que foi ontem é outra era.

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