Baz Ratner/Reuters
Baz Ratner/Reuters

Como epidemias modificaram a paisagem das cidades ao longo da história

Da cólera à aids, epidemias deram origem a monumentos em todo o mundo, sejam esculturas, igrejas ou feitos da engenharia

Yuval Ben-Ami, The New York Times

04 de março de 2021 | 10h00

Em um acostamento de cascalho grande o suficiente para o nosso Citroën, fui para fora da estrada e deixei minha filha de 3 anos sair do carro. Eu a incentivei a escalar comigo os arbustos baixos da Provença ocidental para ver os resultados de uma epidemia que havia atingido a região há quase 200 anos.

Uma placa logo nos saudou: Canal de Marseille. Acesso proibido. Risco de afogamento. Além dela, um canal de água jorrava por uma abertura em arco na encosta de uma colina. Contornamos a colina e a água ressurgiu, apenas para ser engolida na encosta seguinte. Perto da boca de um túnel, compartilhamos uma tangerina. Ela tentava conversar com os pássaros que se escondiam nas profundezas rochosas enquanto eu refletia sobre doenças e as marcas da humanidade nas paisagens.

Os canais não são raros na parte mediterrânea da França, mas tendem a seguir o fundo dos vales, não ficar suspensos acima deles. Nem passam por tantos túneis. Esse canal chamou minha atenção várias semanas antes, quando pegava um atalho de nossa casa na zona rural para o aeroporto de Marselha. A pesquisa revelou uma história de sofrimento e triunfo.

Quando o cólera devastou Marselha na década de 1830, seu prefeito prometeu resolver o problema, “custe o que custar”. Os burgueses exigiam água limpa e os construtores do canal dominaram a topografia traiçoeira para fornecê-la, deixando-nos esta maravilha de 80 quilômetros de extensão. No terrível momento atual, seu feito causa impacto e, ao mesmo tempo, parece fantástico.

Epidemias do passado nos legaram monumentos, locais de culto, hospitais, fortificações, cemitérios e feitos da engenharia civil. Agora, na era das máscaras descartáveis e hospitais temporários, é difícil imaginar quais vestígios duradouros a covid-19 deixará na superfície do planeta.

“Nossa memória histórica das epidemias é curta e isso é natural”, disse Jessica Play, que supervisiona as estações históricas de quarentena na Ilha de Reunião, no Oceano Índico. “É a memória da morte e do sofrimento, coisas que preferiríamos não pensar sobre.”

Agora, durante nossa atual situação global, os símbolos, há muito ignorados como relíquias, estão recuperando seu significado. Aqui estão alguns deles.

Basílica de Santa Maria della Salute, Veneza, Itália

Em 1631, Veneza estava nas garras da peste. Para evitar a doença, a república começou a construir uma igreja: Santa Maria Della Salute, ou Santa Maria da Saúde. Foi uma demonstração de devoção em meio ao transtorno.

O arquiteto eleito para o projeto foi Baldassare Longhena.

“Ele descreveu o projeto como uma nova arquitetura nunca vista antes”, disse Martina Frank, historiadora da arquitetura que escreveu uma monografia sobre Longhena. O plano era profundamente otimista, inspirado por uma visão de futuras festas de ação de graças.

A basílica demoraria 56 anos para ficar pronta, mas sete meses após o lançamento da pedra fundamental, em 21 de novembro de 1631, a cidade foi declarada livre de pragas e a tradição anual de ação de graças foi iniciada. Normalmente, uma ponte improvisada é construída sobre o Grande Canal para levar a procissão até a igreja. Diante da covid-19, a festa de 2020 foi limitada e uma ponte não foi construída.

Veneza ostenta cinco igrejas barrocas inspiradas por diferentes ondas da peste, cada uma adornada com obras de arte relevantes. No altar principal da Santa Maria della Salute está um conjunto de esculturas do artista barroco flamengo Josse de Corte. O mestre retratou a doença como uma velha com vestes esvoaçantes e um anjo empunhando uma tocha a afugenta.

É um comentário sobre a fragilidade e proximidade da morte ou a senhora representa uma bruxa má? "Está mais para uma bruxa", disse Martina, rindo. “Toda a sociedade era muito misógina na época.”

A Coluna da Peste, Viena

Uma coluna de nuvens de pedra ergue-se acima da Graben, a avenida emblemática de Viena. Nove anjos estão entre as nuvens, abaixo de uma representação dourada da Santíssima Trindade. A coluna, um modelo para memoriais semelhantes que lembram tragédias posteriores, recorda um surto da peste bubônica em 1679 que matou cerca de 12.000 pessoas na cidade austríaca.

Thomas Harbich, aluno e funcionário da Universidade de Viena, tem tuitado curiosidades a respeito da cidade todos os dias desde 2014, incluindo vários tuítes relacionados ao monumento e seus arredores. No ano passado, ele foi testemunha de um fenômeno notável: o monumento ganhou vida, redescoberto durante a atual pandemia.

"Durante o primeiro lockdown, as pessoas a usaram como fizeram depois da peste, da forma como deveria ser usada", disse Harbich, observando que a redescoberta da coluna parece falar do vínculo que os vienenses têm não apenas com o passado, mas também com morte e doença.

“As pessoas reagiram ao completo desconhecido e talvez se tornaram um pouco mais religiosas, então trouxeram velas e pequenos bilhetes com orações e as deixaram na coluna. Foi muito especial de se ver, já que as ruas estavam completamente vazias na época, e ela brilhava no meio disso. ”

A Casa da Peste de Leiden, Holanda

A história dos hospitais guarda uma ironia. No mundo ocidental, a devastação causada pelas doenças mais mortais ajudou a definir o hospital como um lugar de esperança.

“O locus da maioria dos cuidados médicos teria sido o lar”, disse a historiadora Jane Stevens Crawshaw, da Universidade Oxford Brookes em Oxford, Inglaterra, que estuda a história dos cuidados de saúde. Ela lista as instituições de cuidados de longo prazo que existiam no início da Renascença na Europa, incluindo instalações para órfãos e deficientes físicos por conta da guerra.

Essas instituições continuaram a ser criadas, disse ela, “mas em resposta às epidemias do período pré-moderno, à peste e à varíola, nós vemos o desenvolvimento de hospitais destinados a fornecer tratamentos especializados para essas doenças específicas”.

Algumas epidemias criaram alguns hospitais diretamente. Uma instituição estabelecida em Berlim em 1710 em antecipação a uma praga que se aproximava evoluiu para um importante centro médico, o Charité. Outros hospitais de epidemia tornaram-se obsoletos. Um surto de escarlatina em Sydney, Austrália, resultou no Hospital Prince Henry, hoje um museu de cuidados de saúde.

Stevens Crawshaw falou da Casa da Peste de Leiden, construída no século XVII na Holanda.

“É uma bela estrutura quadrada cercada por um canal de água e com outro que foi projetado para passar pelo centro dela.”

Ao longo dos séculos, o prédio serviu como hospital militar, museu militar, prisão e centro de detenção para garotos. De 1990 a 2019, funcionou como uma ala do museu de história natural da cidade e, em 2016 e 2017, enquanto o museu passava por reformas, abrigou os ossos de Trix, um tiranossauro rex escavado em Montana.

Lazareto da Filadélfia, Tinicum Township, Pensilvânia

Lazaretos, também conhecidos como leprosários, são estações de quarentena projetadas para proteger os portos de patógenos marítimos. Um capitão que chegasse emitiria uma declaração sobre a origem e trajetória do navio e as condições de saúde das pessoas a bordo. Os representantes do porto navegariam em um bote para recebê-lo e, em seguida, direcionariam os passageiros dos navios suspeitos aos purgatórios, onde seriam colocados em quarentena.

Uma pequena ilha na Lagoa de Veneza, na Itália, Santa Maria di Nazareth, é o local de um dos primeiros lazaretos. A partir de 1423, os infectados pela peste foram enviados para lá para passar 40 dias longe da sociedade. Esse período era conhecido como "quaranta", daí a origem da palavra "quarentena".

Stevens Crawshaw chama essas instituições renascentistas de "hospitais com uma função mista", fornecendo "tratamento e cuidados tanto médicos como espirituais".

Na área da Filadélfia, um gracioso lazareto no estilo georgiano foi inaugurado ao lado do rio Delaware, seis anos depois que um surto de febre amarela em 1793 custou a vida de um em cada dez residentes. Atualmente, ele abriga os escritórios das autoridades de Tinicum Township.

É um dos poucos lazaretos que restam nos EUA. Outro é a Estação de Quarentena do rio Columbia em Astoria, Oregon. A estação de quarentena da cidade de Nova York, construída para abrigar portadores de varíola na década de 1730, acabou sendo destruída em algum momento. Sua antiga localização agora é ocupada pela Estátua da Liberdade.

La Grande Chaloupe, Ilha da Reunião

A escravidão foi abolida na França na primavera de 1848, mas a notícia demorou nove meses para chegar à colônia da Reunião. Pouco tempo depois, migrantes voluntários chegaram para substituir o trabalho escravo.

Reunião recebia imigrantes de tantos lugares, que quase sempre havia alguma epidemia com que se preocupar. Como os habitantes das ilhas são particularmente vulneráveis a doenças, foram construídas estações de quarentena para eles.

O lazareto projetado para escravos era pequeno e tinha condições precárias. Já o construído para os imigrantes voluntários que chegavam de terras tão diversas como China, Índia, Iêmen e Madagascar, foi inaugurado em 1860 na área conhecida como La Grande Chaloupe (O Grande Barco).

“As pessoas ficavam por alguns dias, algumas semanas, às vezes alguns meses”, disse Jessica, que supervisiona o lugar.

Um recinto foi transformado em museu, exibindo, entre outras coisas, os cachimbos dos migrantes - muitos imigrantes passavam o tempo fumando, sem ter muito mais o que fazer.

Outra parte dele é um cenário para pesquisa. Aqui, as plantas que forneciam alimentos e remédios voltaram a florescer hoje.

Cemitério Disco Hill, Condado de Montserrado, Libéria

Quando o ebola chegou à Libéria em 2014, o país tinha apenas 58 médicos, a maioria dos demais havia emigrado durante sua longa guerra civil. Coube aos profissionais de saúde pública salvar sua terra natal, mudando hábitos sociais.

Aproximadamente metade das infecções por ebola na África Ocidental resultou do contato com os mortos, principalmente por meio das lavagens cerimoniais dos corpos. Enquanto algumas comunidades foram persuadidas a renunciar ao costume, outras persistiram, às vezes atacando fisicamente as equipes funerárias que usavam equipamentos de proteção semelhantes aos trajes espaciais.

Uma solução na área da Monróvia foi criar um novo cemitério que fosse afastado o suficiente da cidade para permitir que as equipes de enterro trabalhassem e evitar o confronto dos profissionais com aqueles que se encontravam ao redor dos cemitérios tradicionais. Aproximadamente 2.200 vítimas estão enterradas em Disco Hill, no condado de Montserrado. Entre eles estão muçulmanos cujos túmulos estão voltados para Meca.

Disco Hill é hoje um local comum para o enterro das vítimas da covid-19, já que os pobres podem enterrar seus entes queridos lá gratuitamente.

Muro da Peste, Provença, França

"Eles até têm um muro da peste por aqui, sabia?", Paul pergunta a Andrea, uma personagem do romance “The Wall of the Plague” (O muro da praga, em tradução livre), do escritor sul-africano André Brink. Ambos são expatriados sul-africanos na França e recentemente separados de seus amados. A conversa entre eles é sedutora e a história da doença lhes serve como uma tática de distração.

O horror que inspirou o muro da praga da Provença chegou de barco em 1720. As tentativas de bloquear sua propagação incluíram barricar cidades e cortar as cordas que ligavam as balsas fluviais às duas margens. Foi tudo em vão. Em dois anos, a doença fez cerca de 130.000 vítimas, um terço da população do sudeste da França.

As capelas dos vilarejos ainda servem como testemunho da epidemia. Várias foram dedicadas a São Roque de Montpellier, o santo padroeiro dos cães e um curandeiro lendário. Ao redor delas está o Mur de la Peste, uma fortificação epidemiológica.

National AIDS Memorial Grove, São Francisco

Mais de 60 locais, alguns deles do tamanho de um jardim de rosas, homenageiam as vítimas da AIDS nos Estados Unidos e Canadá.

John Cunningham, diretor-executivo do National AIDS Memorial, vive com a doença há 20 anos. Tendo chegado a São Francisco em meados da década de 1980, ele foi testemunha da luta da comunidade gay e da criação quase simultânea de dois memoriais muito diferentes. De um lado, estava o AIDS Memorial Quilt, que homenageia as vidas perdidas para a AIDS e pode ser exibido em vários locais. O National AIDS Memorial Grove no Golden Gate Park de São Francisco, por outro lado, é um espaço com árvores, grama, plantas e caminhos com nomes gravados em pedras e no chão.

Cunningham destacou o papel do bosque como um substituto para os lugares sagrados perdidos. “Muitos homens gays que foram condenados ao ostracismo por suas comunidades de fé onde cresceram vieram para São Francisco e encontraram seu lugar. Em muitos aspectos, este espaço que foi criado como um espaço memorial é um santuário, um lugar espiritual.”

Monumento proposto para a covid-19, Montevidéu, Uruguai

O Uruguai, um dos lugares menos atingidos pela pandemia, pode estar entre os primeiros a inaugurar um monumento à covid-19. Em meados de fevereiro, o país sul-americano havia perdido menos de 600 vidas devido ao vírus.

Um escritório de arquitetura de Montevidéu, Gómez Platero, propôs um monumento que consiste em uma passarela em direção ao mar, culminando com um calçadão à beira-mar.

“Trabalhamos com urbanismo e somos fãs dos espaços públicos”, explicou Martín Gómez Platero. “No fim, este é um espaço público pensado para nos ajudar a lembrar diariamente que o ser humano está subordinado às forças da natureza.”

Ele disse que sua equipe começou o projeto na primavera passada e que os resultados foram enviados ao presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou, que os aprovou. Desde então, um local foi escolhido no extremo leste do centro da cidade, incorporando um cais existente e uma pequena ilha. Apenas a cidade de Montevidéu ainda não deu um veredito.

O vírus já ceifou cerca de 2,5 milhões de vidas até agora. Todos deixaram amigos e familiares para trás, nenhum dos quais provavelmente veria tal construção com indiferença se fossem caminhar ao longo da orla marítima de uma determinada cidade sul-americana. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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