Allyn Baum/The New York Times
Allyn Baum/The New York Times

Como Harold Prince mudou a história dos musicais da Broadway

Diretor e produtor morto no início deste mês foi responsável por alguns dos maiores sucessos da história do teatro musical

Peter Marks, The Washington Post

10 de agosto de 2019 | 16h00

Toda forma de arte popular se esforça para ser uma grande tenda. No mundo do teatro musical, Harold Prince, que morreu no início de agosto aos 91 anos, era ele sozinho, uma grande tenda. A lista de musicais da Broadway nas quais ele foi o principal produtor, diretor ou ambos é de tirar o fôlego. A história do musical americano, a partir dos anos 1950, estava praticamente toda embalada na estrutura e consciência de uma figura careca, barbada, incansavelmente imaginativa e inspiradora. Lembre-se de suas conquistas: West Side Story, Um Violinista no Telhado, Wonderful Town, Um Pijama para Dois, Damn Yankees! A Funny Thing Happened on the Way to the Forum, She Loves Me. E tudo isso antes de ele realmente começar a se entusiasmar.

Uma análise sobre Hal, como era conhecido, praticamente se escreve sozinha. Os espetáculos acima estão entre seus triunfos anteriores a 1965. Depois disso, ele produziu e dirigiu Cabaret em 1966, Company em 1970 e Follies em 1971 (no auge da parceria com Stephen Sondheim), A Little Night Music em 1973 e Pacific Overtures em 1976.

É inebriante apenas fazer a contagem dos sucessos artísticos e comerciais de Prince, pois ainda está por vir, talvez, sua maior conquista artística: dirigir em 1979 Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, de Sondheim e Hugh Wheeler. Houve mais! Depois de se unir a Andrew Lloyd Webber para dirigir Evita, Prince e Lloyd Webber criaram o que estava destinado a se tornar o maior sucesso de todos os tempos da Broadway, um programa que recentemente marcou sua 13.110ª performance. É absolutamente correto dizer que os descendentes de Prince incluem a esposa Judy, os filhos Daisy e Charles, três netos e O Fantasma da Ópera.

O que explica um currículo tão surpreendente? Gênio? Paixão? Sorte? A resposta é sim. Acrescente a estas características um apetite insaciável e um insight incrível sobre os prazeres do teatro, e você começa a compreender os atributos que moldam um extraordinário homem de teatro. 

Vários anos atrás, na ocasião de receber o Prêmio Stephen Sondheim, uma homenagem concedida anualmente pelo Signature Theater de Arlington, sentei-me com ele e o assunto do envelhecimento surgiu. Ele tinha 85 anos e o marcador numérico do tempo parecia uma mera ninharia. “Eu odeio quando vejo esse 85”, disse ele. “Porque, veja bem, tenho 40 anos.”

Meu primeiro contato na Broadway com Prince foi quando ele estava fazendo 40 anos mesmo, e eu era criança, vendo seu Violinista com meus pais adoradores do personagem Tevye. Mesmo então, eu sabia que a produção era um ato de meticulosa habilidade; foi bem no espetáculo da Broadway e o polimento nas performances parecia inovador. Quando comecei a ir a mais shows, pegando o ônibus aos sábados de New Jersey com meu amigo Neil, eu teria momentos adicionais de epifania via Prince (e Sondheim): em Company, Follies, Night Music. Mas a memória de Hal Prince que permaneceu comigo de maneira indelével nasceu em uma sequência escaldante em Sweeney Todd, no que então se chamava Uris, agora o Gershwin Theater. No clímax do espetáculo, um apoplético Sweeney, interpretado por Len Cariou, cometeu o ato mais forte de vingança do musical: empurrando a eternamente adorável Angela Lansbury, como a Sra. Lovett, para a fornalha na qual as tortas de carne humana eram assadas.

A encenação de Prince da morte da senhora Lovett acabou comigo. Minha esposa e eu deixamos o teatro atordoados. Senti-me perturbado, enjoado – e emocionado. Eu retomava aquela cena repetidamente na minha cabeça por um longo tempo. Isso é teatro.

Como todos os grandes artistas de teatro, Prince teve suas decepções: por exemplo, It’s a Bird... It’s a Plane... It’s Superman foi um fracasso em 1966, e A Doll’s Life, um musical baseado em A Casa de Bonecas, estreou no Mark Hellinger Theatre em 23 de setembro de 1982, e encerrou as apresentações em 26 de setembro de 1982. Junto, no entanto, com os musicais originais que ele liderou (e 21 Tonys que ganhou), Prince pode ser creditado com alguns importantes revivals de musicais: sua reformulação revolucionária de Candide em 1974, que incluiu novas letras de Sondheim e outros, mostrou à indústria como transformar um espaço da Broadway para uma experiência mais imersiva. Em sua bravura, com a escala épica de Show Boat, de 1994, encontrou uma nova maneira de esclarecer o público sobre o musical de 1927, apesar de sua perspectiva antiquada das relações raciais. Teve quase mil apresentações.

As colaborações de Prince com Sondheim terminaram com o fracasso de Merrily We Roll Along em 1981, mas ele havia forjado alianças artísticas com outros grandes compositores, incluindo Lloyd Webber, que o idolatrava. O compositor me disse em uma entrevista de 2016 que ele incluía Prince como uma das pessoas mais influentes em sua vida profissional. As observações de Prince sobre o que faz uma grande experiência de teatro – como a vital importância do design visual – abriram seus próprios olhos, disse Lloyd Webber.

“Eu fui ao encontro dele no Savoy Hotel, onde ele estava hospedado, e onde Hal me deu um conselho que ficou comigo para sempre”, lembrou Lloyd Webber. “Que é: você não pode ouvir um musical se você não pode olhar para ele. Quando você pensa nas melhores produções de Hal, você compreende o que há por trás disso.”

Os leigos às vezes têm dificuldade em entender exatamente o que os produtores e diretores fazem. Prince foi capaz de dominar tantos aspectos de ambos os empregos em constante evolução, mas essenciais, em tantos projetos variados, sugere um homem digno de status de renascentista. Mas ele era capaz, também, de sabedoria sobre seus próprios limites, como quando escolheu se afastar do desenvolvimento de The Band’s Visit, que ganharia 10 Tonys sob seu diretor sucessor, David Cromer. E isso, amantes de teatro, marca um homem não apenas de dons múltiplos, mas de muitas graças. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.