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Como Herman Melville, nascido há 200 anos, foi o bardo da globalização

Graças à profissão de marinheiro, autor de 'Moby Dick' esteve na vanguarda de um cosmopolitismo literário sem precedentes no século 19

Redação, The Economist

27 de julho de 2019 | 16h00

 Acendendo fósforos em suas palmas tornadas ásperas pelo manuseio de cordas, os corpulentos baleeiros que perseguem Moby Dick parecem improváveis avatares para a modernidade. Mas de uma forma importante, até mesmo profética, é isso que eles são. A tripulação do Pequod é uma notável delegação “de todas as ilhas do mar e de todas as extremidades da terra”. Marinheiros de pelo menos 13 nacionalidades são “federados pela extensão de uma quilha” com o capitão Ahab: chineses e taitianos, islandeses e portugueses. Seu criador, Herman Melville – que nasceu há 200 anos, em 1º de agosto de 1819 – foi o primeiro grande escritor da era da globalização e sua obra-prima, Moby Dick, está sendo relançada no Brasil pela Editora 34, com direito a um prefácio escrito por Albert Camus.

O século 19 testemunhou uma circulação internacional sem precedentes de pessoas, bens e ideias. Os marinheiros estavam na vanguarda dessa troca, cruzando e cruzando de novo oceanos em um “tortuoso zigue-zague em torno do mundo”, como Melville colocou, constantemente exposto a terras exóticas e costumes estranhos. A escassez de mão de obra e os perigos do mar significavam que os capitães não se importavam com quem navegava com eles, desde que fossem hábeis marinheiros. Isso era um cosmopolitismo de necessidade e não de ideologia, um fenômeno de base vastamente ignorado por autores contemporâneos.

Mas não por Melville. Aos 19 anos, ele navegou o circuito de Nova York para Liverpool em 1839, uma experiência da qual recordou dez anos depois em seu romance Redburn: His First Voyage. Ele viu as condições terríveis dos imigrantes irlandeses abaixo do convés e a hostilidade que encontraram na chegada aos Estados Unidos. “Se eles conseguem chegar aqui”, pensou Melville, “eles recebem de Deus o direito de vir”. A atracação de uma embarcação indiana em Liverpool foi uma oportunidade de trocar histórias com um marinheiro de Lascar (no subcontinente indiano). “É um mandamento de Deus se juntar a um sujeito como esse”, Melville escreveu mais tarde. “Suas experiências são como um homem da Lua – totalmente estranho, uma nova revelação.”

Ele teve sua educação em terra – e na água – tendo sido retirado da escola formal aos 12 anos com a morte de seu pai, falido. Em janeiro de 1841 ele partiu de New Bedford como um baleeiro; nos quatro anos seguintes, ele ficou preso por um breve período no Taiti por ter participado de um motim e viajou como “carona” pelo Pacífico. Trabalhou como lavrador e instalador de pinos de boliche em uma pista havaiana. Essa jornada também se tornou material para suas histórias.

Nelas, os rígidos axiomas baseados na terra dão lugar à fluidez social e moral. Na “parte aquosa do mundo”, categorias de classe, nação e raça se dissolvem; a companhia inclui “renegados e náufragos e canibais”. 

Em Moby Dick, a obra-prima de Melville publicada em 1851, Queequeg, um arpoador especialista (e renomado devorador de pessoas) dos Mares do Sul, ganha mais do que Ismael, o inexperiente narrador branco. Em uma de suas primeiras obras, Omoo (1847), um enjeitado trabalhador se torna um senhor da guerra no Pacífico. O romance Billy Budd menciona os afro-americanos combatendo sob a bandeira britânica na Batalha de Trafalgar.

Viajar levou Melville a questionar os conceitos de “selvageria” e “civilização”. “Eu chamo de selvagem algo mais desejável do que o processo civilizatório”, disse seu contemporâneo mais provinciano, Charles Dickens. De sua parte, Melville subitamente abandonou seu posto em Nuku Hiva, nas Ilhas Marquesas, e passou um mês com uma tribo não tocada pela influência ocidental. Isso levou à defesa radical do canibalismo em Typée (1846), seu primeiro livro, como uma forma de justiça não mais bárbara do que o antigo hábito da Grã-Bretanha de exibir corpos suspensos, arrastados e esquartejados.

Como todos viam o mundo através do prisma de sua própria cultura, acreditava Melville, nenhuma sociedade poderia reivindicar superioridade moral em detrimento de outra. Em O Jaqueta Branca (1850), um polinésio a bordo de uma fragata americana com destino à Nova Inglaterra nunca se aventurou além de sua casa. “Seus gostos eram nossas abominações: as nossas são dele”, observa o narrador. “Nosso credo ele rejeitou: seu nós.” O resultado é que “nenhum de nós estava errado, mas ambos estavam certos”. Nas palestras que o autor deu sobre suas experiências, ele defendia as viagens como uma maneira de livrar-se do fanatismo. O racista, disse ele, “encontra centenas de milhões de pessoas de todas as tonalidades de cor... E aprende a desistir de seu tolo preconceito”.

Se as diferenças são respeitadas no mundo globalizado de Melville, as semelhanças também surgem. Os marinheiros aprendem as línguas uns dos outros e desenvolvem dialetos híbridos. Em momentos de lazer, a tripulação do Pequod encontra-se na proa trocando histórias de mulheres e perambulando, cantando músicas de marinheiros e dançando gigas. O preconceito e o nacionalismo estão entranhados demais para desaparecer completamente; mas, através da dependência mútua em alto mar, os laços inter-raciais são forjados. “Você afunda seu clã; lá se vai sua nação; você fala a linguagem do mundo, tagarelando jovialmente na língua franca do castelo de proa.”

Depois de Moby Dick, uma sucessão de romances de Melville fracassou. Muitos contemporâneos ficaram surpresos ao saber que ele havia morrido em 1891: supunham que já estivesse morto. Mas desde a sua redescoberta no início do século 20, o conto da arrogante vingança de Ahab contra a baleia tornou-se uma fábula política para todos os fins. Na década de 1950, C.L.R. James, um escritor de Trinidad e Tobago, descreveu o livro como “a biografia dos últimos dias de Adolf Hitler”. Foi utilizado para depreciar a guerra do Vietnã, a cruzada de George W. Bush contra o “eixo do mal”, a jihad de Osama bin Laden contra o Ocidente, o ódio de Vladimir Putin à Otan, a busca de Donald Trump por um muro na fronteira e a cruzada de Theresa May por um acordo de retirada do Brexit.

Hoje a baleia branca lança seu esguicho pelo globo. Em árabe, a famosa primeira sentença é “Chame-me de Isma’il”; em japonês é “Chame-me de Ishumeeru”. O Leviatã de Melville se tornou um espelho para preocupações em todos os lugares. Estudiosos iranianos debatem os elementos zoroastristas e islâmicos do livro; Melville, opinam alguns, acreditava que o destino supera a moralidade como os antigos sassânidas o fizeram. Durante a Revolução Cultural, os pedagogos chineses afirmavam que Melville era um raro autor americano anticapitalista. Os alemães notam a influência de Goethe; acadêmicos japoneses acham que o lançador de arpão de Ahab, o misterioso Fedallah, é um deles. Na Península Antártica, entretanto, agrupam-se o Monte Ahab, Tashtego Point e uma geleira chamada Pequod. Dois séculos após seu nascimento, Melville continua a federar o mundo ao longo de uma quilha. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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