Rugendas
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Como índios brasileiros conquistaram a Europa

Paulo D'Auria cria história alternativa em que nativos chegam ao continente em naus que aprenderam a construir com chineses

Bruna Meneguetti, Especial para o 'Aliás'

22 de maio de 2021 | 16h00

Cuáheu no idioma índigena mura significa “ontem, amanhã”, e é o título do livro de história alternativa escrito por Paulo D’Auria, que imagina um passado em que índios brasileiros teriam chegado na Europa primeiro, e não o contrário. “Como o livro se baseia muito nessa coisa do ‘e se’, então o título é quase uma ameaça. E se tivesse acontecido, e se for verdade?”, pergunta o escritor em entrevista ao Aliás.

Em sua história, os índios Buhuraen (conhecidos pela historiografia oficial como os Mura) começa a desbravar os rios e terras em 1421. A partir de então, Paulo cria toda uma nova realidade em que esses povos encontram-se com barcos chineses no litoral do Pará e passam a entender mais sobre a navegação e as estrelas. Em outro momento, a aldeia recebe a visita de um imortal, o abaisi. Segundo ele, o destino daquele povo é construir grandes barcos que os levariam para uma terra “onde os Buhuraen vencerão guerras e serão reis”.

No livro, Colombo jamais consegue sua audiência com Isabel, a rainha de Castela, para convencê-la a deixá-lo atravessar o Atlântico em sua expedição marítima. Assim, o caminho para os índios chegarem à Europa de surpresa ficaria livre, de acordo com a premissa de Cuáheu. Essa chegada seria, inclusive, prevista em sonhos por reis portugueses enquanto os Buhuraen aprendiam a fazer embarcações com os chineses; se uniam aos povos indígenas Aparai, Omágua, Tupinambá e, mais tarde, também aos mouros de Granada, no sul da Espanha.

Apesar da veia poética de Paulo, a história de Cuáheu foca em narrar os eventos e as gerações de índios, quase como se o passado tivesse sido reescrito e agora os leitores pudessem ler a história verdadeira, distanciada do tempo dos acontecimentos. Certamente, uma escolha narrativa interessante, capaz de transmitir ainda mais a sensação de que o descrito ali teria sido verdade. Cuáheu é o décimo livro do escritor Paulo D'Auria, formado em História pela USP. A seguir, trechos da entrevista com o autor:

O livro relata como o processo para os Buhuraen se tornarem exímios navegadores foi natural e gradual. Como foi a pesquisa?

Há uns dez anos eu escrevi um romance juvenil, Guaracy. Durante essa pesquisa, descobri a nação Mura. Eles eram nômades, viviam em cima das canoas. Provavelmente era o povo indígena que tinha mais habilidades com a navegação, as canoas deles eram esculpidas dentro de árvores. Comecei a fazer pesquisas e achei uma possível, mas contestada, viagem dos chineses ao redor do mundo. Nessa viagem eles teriam passado pela costa do Brasil, no Pará. Por causa dessas viagens, os índios vão aprender a fazer grandes navios.

Por que fez o povo Buhuraen se unir aos mouros?

No meio das pesquisas, tinha um artigo que dizia ser bastante provável que o nome “Mura” tenha vindo da palavra “mouros”. Pela bravura mesmo, pela selvageria. Nos séculos 17 ou 18, os Mura na historiografia são chamados “Os Corsos do Rio Madeira” ou "Gentios do Corso”, porque eles atrasaram bastante a colonização do Rio Madeira por atacarem as expedições que ocuparam a região. Na verdade, os Mura só estavam defendendo o território deles e o nome dado é do ponto de vista do colonizador. Então, foi pensando nessa coisa linguística que acabei usando os mouros como aliados. Os índios não precisam chegar na Europa e destruir tudo, eles podiam ter esses aliados lá. 

Houve momentos em que a historicidade falou mais alto do que sua imaginação? 

Sim: como construir um barco daquele tamanho sem os povos nativos dominarem a metalurgia. Eu fiquei pensando um pouco nisso e acabei chegando nas cavilhas, nos encaixes. Eu achei que não daria para inventar pregos, porque seria muito fora da realidade. Mas um dado que ignorei completamente, caso contrário a história não daria certo: a falta de anticorpos para doenças europeias. Os indígenas chegariam lá e morreriam de gripe, como morreram de gripe aqui.

No livro, várias tribos se juntam com o objetivo comum da navegação. Quando chegam na Europa, sequestram mulheres, fazem escravos. Até que ponto foi preciso alterar a cosmovisão indígena para imaginar essa história alternativa?

Eu acho que não precisou alterar muito; eles viviam em guerras. Uma das motivações das guerras era por território. Normalmente eles ficavam mais com prisioneiros e escravos, a economia era baseada nas trocas. Então, tentei manter essa lógica. Os Tupinambás e os Guaranis tinham essa coisa de andar pelo território à procura do paraíso. Existia uma crença de que a terra sem mal estava para o oeste, para além do mar provavelmente. Então, a partir do momento em que chegam num território novo, eles iriam obviamente querer se impor nesse território. A gente tem na mente uma coisa de que eles viviam para o amor e de que tudo era um paraíso. Mas eles vão para lá e fazem o que faziam aqui também, como quando os europeus vieram para cá.

E como você lidou com a hegemonia militar europeia? No livro, os índios chegam em um momento em que Espanha e Portugal estão vulneráveis.

O grande problema seriam as armas de fogo. Então, fazem uma frota grande e chegam 2 mil guerreiros com arco e flecha em uma cidade de 5 mil habitantes. O momento era propício para isso porque as tropas estavam voltadas para a conquista de Granada, para essa reconquista cristã. Então, eles estão mais fragilizados militarmente porque o foco está em outro lugar. Além disso, a população de índios era enorme mesmo. Existem estimativas controversas de quantos viviam aqui em 1500. 

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