Jonathan Newton/The Washington Post
Jonathan Newton/The Washington Post

Como instituições artísticas estão sobrevivendo financeiramente à pandemia nos EUA

Transmissões on line e músicas inspiradoras para cantar em coro viralizam, mas não pagam o aluguel

Peggy McGlone e Geoff Edgers, The Washington Post

02 de abril de 2020 | 15h35

Orquestras inteiras foram demitidas, os museus estão calculando suas perdas em milhões de dólares. Este é o novo mundo das artes, onde transmissões on line e músicas inspiradoras para cantar em coro viralizam, mas não pagam o aluguel. Onde as pessoas encarregadas de equilibrar o orçamento estão apavoradas.

Os números não mentem: 431 apresentações foram canceladas, 725 pessoas demitidas, e 150 músicos estão no limbo. E me refiro apenas ao Kennedy Center, onde, no final da semana passada, os administradores calcularam a terrível equação até mesmo da melhor das hipóteses.  

“Precisamos descobrir como chegar até o dia 10 de maio, e se  teremos de fechar depois de 10 de maio o que isto significará?”, indagou Deborah F. Rutter, a presidente do Kennedy Center. “Precisamos agir com responsabilidade, garantir que todos estejam saudáveis. Mas nunca houve algo parecido com isto. Quanto tempo irá durar? Quanto irá durar?”

No Metropolitan Museum of Art de Nova York, os administradores calculam um prejuízo de $ 100 milhões, se permanecerem fechados até julho inclusive, um prazo que parece realista  com cada nova atualização do governo. O Metropolitan Opera cancelou sua temporada e disse à sua orquestra, coro e funcionários que os seus pagamentos irão apenas até o fim deste mês.

A mesma história, várias bilheterias fechadas em todo o país, enquanto as instituições de arte cortam pessoal e programas a fim de reduzir os prejuízos financeiros que se estenderão por um bom tempo no futuro.

Os museus de todo o país estão perdendo $ 33 milhões por dia, segundo uma carta enviada ao Congresso pelos diretores da American Alliance of Museums e as suas organizações  guarda-chuva parceiras  em busca de uma ajuda federal de $ 4 bilhões. A organização nacional Americans for the Arts, mandou um questionário para ONGs culturais, e em menos de uma semana, vários milhares responderam com prejuízos reais que ultrapassam os $5 bilhões. Vinte e cinco por cento disseram que já haviam cortado pessoal.

A Oregon Symphony demitiu a orquestra inteira e a metade do pessoal administrativo. O San Francisco Ballet cancelou mais da metade da sua temporada. A Houston Grand Opera cancelou a sua temporada de primavera, que poderia levar a perdas de quase $ 2 milhões.

Algumas companhias, como a ópera de Houston, prometeram pagar a metade dos seus contratos cancelados, e outras, como a do Actors Theatre de Louisville, que fechou  o Humana Festival of New American Plays, informou que pagará o pessoal até o primeiro mês do fechamento.

Na melhor das hipótese, ou seja, na eventualidade de retornar em maio – poderá levar anos para voltarmos ao vibrante universo cultural que define o nosso país.

“No passado, a maioria dos desastres teve o componente do prazo,” diz Kate D. Levin, que supervisiona o programa da Bloomberg Philanthropies Arts. “No caso do furacão Sandy, o dano foi compreensível. A questão era como superá-lo. Assim como, 11 de setembro. Mas este é um tipo de circunstância muito diferente”.

“Se forem seis semanas, a maioria sobreviverá. Muitas pessoas sofrerão, haverá muita dor, mas nós recuperaremos o setor”, diz Michael Kaiser, ex-diretor do Kennedy Center e atualmente presidente do DeVos Institute of Arts Management na Universidade de Maryland. “Mas se continuar por seis meses, teremos uma redução muito radical”.

Enquanto se discutem pacotes de estímulo e operações de salvamento, os legisladores  estudam o impacto catastrófico do covid-19 para as companhias aéreas, os restaurantes e o setor de viagens de cruzeiro. Mas a comunidade cultural, que nunca nadou em dinheiro  mesmo no seu melhor momento, também foi devastada.

“Não se trata apenas do cancelamento de um espetáculo. As vidas das pessoas foram canceladas”, afirma Benjamin Burdick, diretor de produção artística do Boise Contemporary Theater, que teve de cancelar sua última produção.

Entretanto, há iniciativas a caminho tentando ajudar. Na semana passada, em Nova York, um grupo de fundações anunciou um fundo de $ 75 milhões para os serviços sociais e as organizações artísticas e culturais que lutam para sobreviver à enxurrada de pedidos e cancelamentos provocados pelo surto de coronavírus.

Os organizadores esperam que o NYCCovid-19 Response and Impact Fund – criado para fornecer  assistência a grupos com orçamentos de até $ 20 milhões – servirá de modelo para iniciativas semelhantes fora de Nova York.

“Enquanto a desigualdade está se mostrando na nossa sociedade, ela se revelando nas artes”, afirmou Darren Walker, presidente da Fundação Ford, uma das maiores contribuintes. “Quando se fala nas médias e pequenas organizações  de arte que não têm verbas, não têm conselhos ricos, que não têm grandes quantidade de fluxo de caixa operacional ... estas organizações estão em pânico.”

Durante a crise, a Ford e outros fundos  financiadores adotaram uma postura flexível com os grupos sem fins lucrativos que apoiam. Elas estão discutindo maneiras de transferir recursos em dinheiro dos projetos que foram cancelados agora para o que for preciso a fim de impedir que os grupos afundem.

O Hanover Theatre de Worcester, Massachusetts, teve de cancelar apresentações do comediante Jerry Seinfeld, dos Beach Boys e uma exibição do documentário This is Spinal Tap, com o diretor Rob Reiner. A Fundação Barr de Boston tinha concedido ao teatro uma verba de $ 750 mil por dois anos que incluía o financiamento de um palco externo. Com os $ 250 mil restantes da verba, o teatro recebeu a permissão para transferir o dinheiro para o suporte operacional geral. Troy Siebels,  presidente e diretor executivo da Hanover, diz que isto lhe permitirá manter o pessoal até meados de maio.

“É importante porque nos sabemos que, em algum momento, isto acabará e precisamos estar lá quando isto acontecer,” ele diz.

Embora as instituições maiores em geral operem com uma proteção maior, até as maiores agora estão lutando.

O presidente e diretor executivo do Meropolitan Museum, Daniel Weiss, calcula o custo do fechamento antecipado  de 3 meses e meio em $ 100 milhões.

Weiss ressaltou que a estratégia em três etapas do Met, que inclui o redirecionamento  dos gastos de programas e exibições para os salários e as necessidades básicas; a redução dos custos, incluindo demissões de funcionários; e a captação de dinheiro. O museu tem 2.200 funcionários e se comprometeu a pagá-los até o dia 4 de abril, informou.

Será que o Met irá estender isto até a duração total do fechamento? “É difícil imaginar como qualquer organização terá condições de fazer isto”, diz Weiss.

No Kennedy Center, Rutter não teve tempo de calcular o custo de um fechamento de oito semanas de duração, mas ele poderá ultrapassar os $ 20 milhões se  a temporada de “Hamilton” de 14 semanas neste verão for afetada. O centro de artes depende de sua bilheteria, o que representa mais da metade do seu orçamento anual de $ 279 milhões.

Deborah Rutter disse que cortou seu salário em 50% (em 2018, ela ganhou $ 1,2 milhão, segundo a sua declaração de imposto), e os salários dos seus funcionários de cargos  mais altos também foram cortados.

Robert Lynch, presidente e diretor executivo  da Americans for the Arts, espera que o Congresso, que vem apoiando as artes na era Trump, inclua os grupos de artes  em uma operação federal de salvamento. A sua organização está reunindo dados para mostrar a necessidade disso.

“A economia das artes sempre foi difícil, com margens mínimas entre o faturamento e os gastos”, diz Lynch, acrescentando que cerca de um terço das corporações de arte sem fins lucrativos ou empatam ganhos e gastos ou ficam em posição deficitária todos os anos. “Quando você tem alguma coisa que impede todo e qualquer ganho, a situação fica ainda mais grave”, afirma. “Em termos de sobrevivência, agora está pior do que nunca.”

A National Gallery of Art e a Smithsonian Institution que são patrocinadas pela federação – ambas fechadas por prazo indeterminado – estão sofrendo como as suas colegas ONGs. Com os seus 19 museus fechados no início de sua difícil temporada de primavera, a Smithsonian perderá vários milhões de dólares dos seus ganhos de lojas, restaurantes e teatros Imax, e outros eventos. No entanto, as demissões do pessoal parecem improváveis, pelo menos no curto prazo, segundo o secretário da Smithsonian Lonnie G. Bunch III e o diretor de arte da Nacional Gallery, Kaywin Feldman.

No inicio desta semana, Scott Showalter, presidente e diretor executivo da Oregon Symphony, demitiu toda a orquestra e a metade do pessoal administrativo para atacar um déficit  estimado em $ 5 milhões, cerca de 25% do seu orçamento anual. A Houston Grand Opera cancelou 11 apresentações de três produções, mas prometeu pagar as centenas de artistas e pessoal contratado especialmente 50% do valor dos seus contratos.

“Nunca houve a menor possibilidade de deixarmos de pagar os nossos artistas”, afirma Perryn Leech, o diretor gerente da ópera. “Se nós  temos um problema financeiro com o qual teremos de tratar no futuro, este é um problema financeiro com o qual a organização como um todo terá de fazer frente”.

No Balé de San Francisco, o pessoal e os 78 bailarinos estão sendo pagos apesar da perda de 60% da temporada e o fechamento de sua escola de dança recém-reformada, disse a sua diretora executiva, Kelly Tweeddale, que calculou os prejuízos atuais em cerca de $ 9,5 milhões.

“Estamos  na hipótese de planejamento. Como será a situação daqui a três meses, seis meses, nove meses?Estamos quebrando a cabeça para  descobrir como poderemos sair dessa”.

Uma grave preocupação é a estratégia federal do estímulo  e as iniciativas de ajuda, que, segundo Kelly Tweeddale, talvez não  trate de suas necessidades específicas. “Como ter certeza de que  alguém não perderá o visto se não puder trabalhar? Alguém cuidará do pessoal horista? Muitos artistas trabalham em vários empregos e a assistência aos desempregados talvez não os beneficie”, afirmou. “Todos estamos tentando adivinhar. O difícil é isto”.

A natureza indefinida da crise significa que os diretores dos museus não podem prever  se as mostras deverão ser canceladas ou adiadas. Bunch estuda três hipóteses, a primeira  que acredita que a pandemia terminará no verão. A segunda envolve uma segunda onda do vírus no outono e com ela a possibilidade de um segundo fechamento. A hipótese final – a de que o distanciamento social dure de 18 meses a dois anos – implica decisões sobre a manutenção do pessoal das lojas e dos restaurantes, afirmou.

Bunch também se preocupa com o conteúdo online para os estudantes confinados em casa e as famílias, e pensa de maneira criativa no Smithsonian virtual.

Mas, admitiu: “É um pouco assustador”.

“Não há nada que me entusiasme mais do que passear em um museu e ver as multidões admirando as obras. Para as multidões, eu sou um ser solitário”. / Tradução de Anna Capovilla

Tudo o que sabemos sobre:
coronavírusartes plásticascultura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.