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Como James Baldwin e outros autores podem combater o moralismo atual

Escritor ensina a diferença entre ter empatia e concordar com a atitude de alguém

Lee Siegel, The New York Times

04 Agosto 2018 | 16h00

Em seu livro de 1963, Da Próxima Vez o Fogo, James Baldwin descreve o encontro com Elijah Muhammad, o líder controverso da Nação do Islã. Baldwin sentiu-se antagonizado pelo separatismo negro de Muhammad e pelo seu ódio universal de pessoas brancas; ao mesmo tempo, ele admirava a compreensão aguda de Muhammad das inúmeras maneiras com as quais o poder branco institucionalizado continuou a machucar e reprimir os afro-americanos.

“Eu me senti muito próximo dele”, escreve sobre Muhammad “e realmente queria ter condições de amá-lo e honrá-lo como uma testemunha, um aliado e um pai.” No entanto, refletindo sobre o momento em que os dois homens se despediram, Baldwin escreve: “Nós sempre seríamos estranhos e, possivelmente, um dia, inimigos.”

Baldwin foi tão comprometido como qualquer escritor já podia ter sido. Mas o material de seu comprometimento era uma clareza moral impregnada de dificuldades intelectuais e complicações éticas – uma clareza labiríntica que ele se recusou a sacrificar em nome de atitudes prescritas.

Hoje ainda reverenciamos Baldwin, mas de um modo geral não mais seguimos sua liderança como pensador. Há pouca paciência agora para um estilo tão rigoroso, embora moralmente receptivo e intelectual; hoje em dia, preferimos a reverberante acusação moral, as marcas do que é absolutamente certo, ideias pré-determinadas e conformidade com os sentimentos coletivos.

No processo de abandonar o tipo de clareza moral complexa que Baldwin praticava, criamos um comportamento no qual é inaceitável o equivalente do comportamento criminoso. Uma quantidade igual de fúria é direcionada para ações as quais moralmente – e legalmente – são distintas entre si como estupro, assédio, rudeza, grosseria e incivilidade. A indignação com o ataque a tiros de um policial contra um adolescente negro desarmado se desenrola no mesmo nível de intensidade quanto a indignação sobre o que poderia ou não ser um caso de discriminação racial por um vendedor em uma pequena uma butique no Brooklyn.

Isso é intencional: o sentimento geral parece ser que fazer uma distinção de entre graus de conduta moralmente repugnante vai levar a algum tipo de cobertor de perdão para toda conduta daquele tipo; que compreender é sempre perdoar. Tal preocupação é compreensível, mas equivocada – ela achata e ofusca, em vez de esclarecer.

Essa aversão à suspensão do julgamento moral é um acontecimento novo na vida cultural. Nós já fomos tomados por A Sangue Frio, de Truman Capote, a morada imaginativa de dois assassinos condenados, ou A Canção do Carrasco, o empático relato de Norman Mailer sobre a história de Gary Gilmore, que pediu para ser executado após ter sido condenado por matar dois homens.

Estes foram considerados ousados, até mesmo controversos, no momento, mas ninguém fingiu que Capote ou Mailer tentavam encontrar desculpas para seus personagens. Os leitores e críticos os entenderam como esforços para expandir e aprofundar nossa consciência dos pontos fortes, ambos, dentro e fora de uma pessoa, a forma da vida humana. É difícil imaginar um trabalho semelhante sendo produzido no clima de hoje.

Capote e Mailer não inventaram esse método. Você poderia contar a história da cultura ocidental, com os exemplos de racionalismo cético e empatia imaginativa, da Clitemnestra de Ésquilo à Medéia de Eurípedes; Lady Macbeth e Ricardo III de Shakespeare; Lúcifer de Milton; Frankenstein de Mary Shelley; o mestre do crime Vautrin, de Balzac; o super-homem amoral Raskolnikov, de Dostoievski; os terroristas de Joseph Conrad; o impostor Felix Krull de Thomas Mann; o assassino de sangue frio de Andre Gide; o desamparado assassino de Albert Camus – para tomar um punhado de exemplos.

Mais perto de nosso próprio tempo e lugar, o Bigger Thomas de Richard Wright mata acidentalmente uma mulher branca no romance Filho Nativo e então estupra e assassina uma mulher negra; Gore Vidal escreveu com compaixão sobre Timothy McVeigh; e David Mamet compôs Oleanna, um jogo presciente sobre assédio sexual, acusação, culpa e inocência que, notoriamente, não tinha uma solução clara.

Crucialmente, essa tendência não permaneceu na preservação da grande arte. A elevação da complexidade moral sobre a condenação moral, uma vez que a província especial da cultura elevada, encontrou seu caminho ao longo dos séculos no pensamento dominante a respeito da justiça e tolerância, ajudando-nos a alcançar os valores esclarecidos da democracia liberal moderna.

Hoje, no entanto, nosso estilo cultural dominante é muito diferente. Nós nos emocionamos ante uma espécie de pornografia de exposição e vergonha. Preferimos determinados veredictos aos quais se chegou por um sentimento coletivo – um estilo cultural que primeiro acusa, apresenta provas muitas vezes sem questioná-las, em seguida, faz-se uma constatação judicial e se emite uma sentença.

A figura representativa de nossa era não é o poeta, o artista, o escritor, o cientista, o empresário, o ator, o atleta, o estadista. É o promotor. Existe uma espécie de censura silenciosa sobre qualquer tentativa de se compreender o mau comportamento de uma pessoa, ao invés de procurar exclusivamente puni-la.

Se, num espírito de livre investigação intelectual e imaginativa, você ousasse sugerir que um homem que se masturbou na frente de uma mulher que mal conhecia, sem o consentimento dela, pudesse estar querendo expressar algo, em uma atitude de desafio agressivo, como sua própria vergonha ou impotência – se você tentasse compreender suas ações, sem justificá-las – você seria calado a gritos e vilipendiado.

Imagine o clamor se formos mais além e especularmos sobre o motivo pelo qual Harvey Weinstein supostamente manipulou algumas atrizes. Será que Weinstein, que pelas reportagens, foi tão ridicularizado pela sua aparência, queria desumanizar essas mulheres e, ao mesmo tempo, transformar-se em uma pessoa que é vista e admirada, e ainda uma pessoa bela?

Se até mesmo uma fração das acusações contra ele for verdadeira, Weinstein deveria ser banido para os confins da sociedade. No entanto, seja a justiça finalmente administrada em seu caso, devemos tentar entender o quais forças sociais e psicológicas o transformaram no que ele é, sem a estridente distração da denúncia moral que nos proíbe de fazê-lo agora.

Em questões de direito e moralidade pública, deve-se deixar a justiça seguir seu caminho de acordo com o devido processo e jogo limpo. Mas, no domínio da livre operação do intelecto e da imaginação, que é a cultura, deixe-se florescer a suspensão do julgamento moral em prol de uma melhor compreensão de nossa natureza moral. Não é porque devemos alguma coisa aos semelhantes a Weinstein; é por causa do que devemos a nós mesmos. Tradução de Claudia Bozzo 

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