Bettmann/Corbis
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Como Lacan analisa a psicologia de James Joyce por seus livros

Com a recente publicação de Lacan, Leitor de Joyce, da psicanalista francesa Colette Soler, temos um retrato do autor de 'Ulisses'

Dirce Waltrick do Amarante*, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2019 | 16h00

No Brasil, devemos a versão integral de Finnegans Wake, de James Joyce, traduzida por Donaldo Schüler, à psicanálise, especialmente a algumas sociedades psicanalíticas de Porto Alegre, onde Schüler realizou seminários sobre mitologia e literatura, mais especificamente sobre James Joyce, nos anos 1990. Nessa ocasião, foi-lhe feito o convite para traduzir o romance, sobre o qual o psicanalista francês Jacques Lacan havia se debruçado seriamente. 

Com a recente publicação de Lacan, Leitor de Joyce, da psicanalista francesa Colette Soler, pela editora Aller, também de Porto Alegre, em tradução de Cícero Oliveira, Joyce volta, no Brasil, à análise psicanalítica, mais especificamente a lacaniana, mas não é apenas o último romance do autor que agora está em debate. Soler segue os passos de Lacan, embora deixe suas próprias marcas no texto, e a partir delas o leitor é convidado a repensar a leitura lacaniana num sentido amplo. 

Para Lacan, autor e obra não se separam, pois ele encontra nas páginas da ficção de Joyce o estímulo e os dados para fazer o “diagnóstico” do escritor, mesmo ciente de que, como se lê no livro de Soler, “para o falante, todas as histórias mentem sobre o real do qual ele está separado pelo imaginário e pelo simbólico”. Lacan condensava, no entanto, “variedade” e “verdade”. Em que condições o real, o imaginário e o simbólico podem se manter juntos? Essa é, então, uma das questões levantadas nesse livro em torno do escritor irlandês, na qual a sua biografia e a sua bibliografia se imbricam o tempo todo.

Soler retoma a análise da figura paterna tratada por Lacan em seus estudos sobre Joyce. James Joyce tinha relação complicada com seu pai, John Joyce, bêbado, irresponsável e egoísta. De fato, a figura paterna parece assombrar a obra do escritor, e está “onipresente, a céu aberto, em seu texto, principalmente em Ulisses”, como afirma Soler. Mais do que isso, Joyce teria buscado um pai “de várias formas sem encontrá-lo em qualquer grau”, segundo a lição de Lacan. Mas há um pai em Bloom (o protagonista do romance citado), diz Soler, “feito da mesma matéria que ele, e que busca um filho”. Diria que Joyce parece procurar um pai até mesmo ao intitular seu livro Ulisses, o herói mítico que retorna a Ítaca, para rever sua mulher, Penélope, e seu filho, Telêmaco. Ulisses teria assim reencarnado, segundo uma leitura “previsível”, em Leopold Bloom (talvez o pai “ideal” de Joyce). De acordo com Lacan, o escritor está “sobrecarregado de pai” e precisa “sustentá-lo para que ele subsista”.

Outra figura da vida de Joyce que vem à tona nos estudos do psicanalista é a de Nora Joyce, mulher do escritor. Lacan acreditava que ela não servia para nada, pois “apenas com a maior das depreciações é que ele faz de Nora uma mulher eleita”. Soler parece acompanhar a tese de Lacan ao imaginar Nora como alguém que não tinha vida além de Joyce: “Sem dúvida, ela precisou aceitar a vida de boemia que ele levava, a obrigação de suportar sua pessoa, seu alcoolismo, de se curvar a seus caprichos, às suas decisões de se mudar, por exemplo, mas, além disso, e principalmente, a obrigação de olhá-lo de forma exclusiva.” 

A meu ver, é difícil acreditar que essa mulher forte fosse depreciada por Joyce à medida que se curvava aos “caprichos” do marido, como se não tivesse presença e voz, o que vários estudos atuais desmentem. Nora também manipulava o escritor, mesmo sendo (ou podendo ser, por perspicácia ou temperamento) “caladinha” e “silenciosa”, como Joyce se referiu a ela em muitas de suas cartas. Nora talvez fosse um enigma para o escritor, tanto ou até mais enigmática do que a chave do seu Finnegans Wake. Além disso, é um mito considerá-la simples e inculta, pois, segundo sua biógrafa, Brenda Maddox, Nora teve a educação escolar acessível às garotas da época. Provavelmente, a visão que se tinha de Nora, na época de Lacan, era uma criação de estudiosos que não chegaram a pesquisar a fundo sua vida e seu papel na obra do grande ficcionista.

Outro tema que não poderia deixar de ser revisitado por Soler em seu livro é o da língua, a “lalangue” joyciana, de que falava Lacan. A psicanalista se refere ao escritor como o “especialista da letra pura, fora do sentido”, cuja linguagem teria uma finalidade outra que não a comunicação. Obviamente ganha destaque o estilo “ilegível” de Finnegans Wake, analisado por Lacan e reanalisado por Soler, que o define como “o massacre da significância”. A psicanalista ressalta, contudo, que esse massacre não significa que não possamos dar sentido ao texto. Podemos, diz ela, “dar a ele uma multiplicidade de sentidos, dos quais nenhum representará, mais provavelmente do que o outro, o assunto do texto”. E conclui que, aberto a todos os sentidos, ele se torna “ininterpretável”, e, talvez, justamente por isso, o octogenário (em maio de 2019 serão comemorados os 80 anos de publicação do livro) Finnegans Wake ainda continue deixando literatos, artistas, psicanalistas etc. tão espantados quanto ocupados. 

*DIRCE WALTRICK DO AMARANTE ORGANIZOU E TRADUZIU ‘FINNEGANS WAKE (POR UM FIO)’, É AUTORA DE ‘PARA LER FINNEGANS WAKE, DE JAMES JOYCE’, AMBOS PUBLICADOS PELA EDITORA ILUMINURA

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